Crítica

Noites Brancas sobre o Tejo

António Um Dois Três; visita a um underground semi-imaginário onde uma juventude se prolonga na indefinição, se cruza em trânsito, mira a linha luminosa de Lisboa a partir da outra margem, conta os tostões para conseguir beber um café – e com tudo isto alimenta a sua energia artística.

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António Um Dois Três, o mesmo António três vezes, ou três Antónios à vez: o filme de Leonardo Mouramateus é como um exercício “dialéctico” que se estivesse nas tintas para a dialéctica. Para a teoria, bem entendido. Porque, apesar do seu pressuposto narrativo “estrutural” (as três partes, o “um dois três"), o que é realmente importante, quase sempre muito divertido e por vezes emocionante, é o que faz esquecer o pressuposto: uma espécie de “continuum”, uma progressão através dum quotidiano - Lisboa aqui e agora, o centro histórico onde uma bica custa 75 cêntimos – atravessado por uma sombra de romantismo que o transfigura e, na verdade, pode ter muitas origens (até a literatura clássica russa, por via de Dostoievski e das Noites Brancas). Não é um Rashomon adolescente preocupado com a “verdade” sob três pontos de vista, nem é um exercício de cubismo narrativo, é antes uma forma de contar uma história multiplicando-lhe os ecos, as rimas e as repetições, que pela sua disposição e acumulação vão engrossando e adensando o trânsito (entre “partes”, mas também entre tons ou registos) que o filme pratica com singulares graça e imaginação.