Morreu Ruben de Carvalho, o homem dos equilíbrios difíceis

Aos 74 anos, morreu o último preso político do actual comité central do PCP. Intelectual e comunista, Ruben de Carvalho marcou gerações, quer como político, quer como melómano.

Ruben de Carvalho em 2007, com Jerónimo de Sousa na campanha das intercalares para a Câmara de Lisboa em que foi eleito deputado
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Ruben de Carvalho em 2007, com Jerónimo de Sousa na campanha das intercalares para a Câmara de Lisboa em que foi eleito deputado miguel madeira / PUBLICO
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PEDRO CUNHA / PUBLICO

Morreu Ruben de Carvalho, membro do comité central do PCP. Tinha 74 anos e era o único membro do actual comité central que tinha estado preso nas cadeias da PIDE durante o Estado Novo. Foi sujeito a várias detenções no Aljube e em Caxias entre 1961 e 1966, tendo sido de novo preso no início de Abril de 1974.

É uma referência na direcção e entre os militantes comunistas, tendo assumido ao longo de décadas uma atitude crítica, mas sem nunca romper ou entrar em conflito com a linha oficial do PCP. Ruben de Carvalho aderiu ao PCP em 1970 e foi funcionário do partido entre 1974 e 1997. Foi eleito para o comité central em 1997. Integrou também vários órgãos executivos do comité central: comissão executiva (1990-1992) e conselho nacional (1992-1996). Foi igualmente chefe de redacção do jornal partidário Avante!, de 1974 a 1995.

Durante anos e desde o seu início, em 1976, Ruben de Carvalho foi o responsável pela programação cultural e pela organização dos espectáculos da Festa do Avante!.

Aquando das dissidências partidárias do final dos anos 80, do início dos anos 90 e do início dos anos 2000, Ruben de Carvalho manteve-se sempre ao lado das posições do líder histórico do PCP, Álvaro Cunhal. Próximo de Carlos Carvalhas, secretário-geral entre 1994 e 2002, Ruben de Carvalho foi também próximo do actual líder, Jerónimo de Sousa.

Como dirigente comunista, Ruben de Carvalho foi um defensor de que o PCP fizesse o acordo com o PS, em Novembro de 2015, que permitiu a viabilização parlamentar do actual Governo de António Costa.

Em nota divulgada esta terça-feira, o secretariado do PCP afirma que “lamenta profundamente o falecimento do camarada Ruben de Carvalho e apresenta as mais sentidas condolências à sua família, em especial à camarada Madalena Santos, sua companheira de vida e luta.” O secretariado destaca que ele, “ao longo de toda a sua vida”, se empenhou “na luta, com o seu partido, pela liberdade e a democracia, por uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão, o socialismo e o comunismo”.

Nascido a 21 de Julho de 1944, Ruben de Carvalho envolveu-se desde cedo na luta antifascista. Em 1960, integrou a direcção da comissão pró-Associação dos Estudantes do Ensino Liceal e da Comissão Nacional do Dia do Estudante (de 1961 a 1964). Como aluno do ensino superior, participou na luta académica em 1962, tendo integrado a direcção da Comissão Pró-Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1963, e a Reunião Interassociações entre 1964 e 1965, sendo o responsável pelo Departamento de Informação.

Antes de aderir ao PCP, integrou as comissões juvenis de apoio à candidatura de Humberto Delgado (1958) e a Oposição Democrática nas eleições para a Assembleia Nacional de 1961, 1965 e 1973. Nessas eleições fez parte da comissão central da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), tendo integrado a direcção do Movimento Democrático Português (MDP). Em 1974, foi chefe de gabinete do ministro sem pasta Francisco Pereira de Moura, no I Governo Provisório.

Ruben de Carvalho foi jornalista desde 1963 no Século e depois na Vida Mundial, colaborando ainda em jornais como o Notícias da Amadora, o Diário, o Diário de Lisboa, A Capital e o Diário de Notícias. Especializou-se também em história do fado, tendo publicado vários livros sobre o tema, bem como outra obra.

Foi eleito deputado à Assembleia da República em 1995, vereador na Câmara de Setúbal em 1997 e da Câmara de Lisboa entre 2007 e 2013. Assumia com clareza que o seu perfil não se adaptava ao necessário para exercer um mandato de deputado, já que se via como talhado para funções mais executivas. Daí ter aceitado ser candidato à Câmara de Lisboa nas eleições autárquicas intercalares na capital, cidade de que era um conhecedor, incluindo dos roteiros gastronómicos da capital, como gastrónomo que era.

Foi como vereador em Lisboa que ensaiou alguns consensos com o então eleito presidente da câmara pelo PS, António Costa, que conhecia já na altura, até porque o actual primeiro-ministro é filho do escritor Orlando da Costa, que foi militante comunista.

Nos últimos anos, mantinha na Antena 1 o programa Radicais Livres, onde debatia temas de actualidade e gerais com Jaime Nogueira Pinto.

“Era absolutamente livre”

Foi uma amizade improvável que teve estatuto público nesse programa, a que marcou a relações de Ruben de Carvalho com Jaime Nogueira Pinto. O advogado e empresário recordou, em declarações prestadas ao PÚBLICO, como dois homens que nos anos 60 do século passado se opuseram em campos políticos e ideológicos diferentes se encontraram.

“Ruben tinha estado com a Zezinha [Maria José Nogueira Pinto, mulher de Nogueira Pinto] na Câmara Municipal de Lisboa, e quando ela morreu ele fez umas declarações bonitas, menos vulgares”, recorda. Desta observação nasceu um convite para jantar e, aos dois, Ruben de Carvalho e Jaime Nogueira Pinto, juntou-se o realizador e amigo comum José Fonseca e Costa.

“Depois da morte do José Fonseca e Costa, continuámos a jantar os dois”, prossegue Nogueira Pinto. E é da conversa desses jantares que nasceu a ideia de uma tertúlia. “O Luís Marinho e, depois, o Rui Pêgo pegaram na ideia, e as pessoas gostavam da maneira como discutíamos”, afirma Nogueira Pinto.

Quando a discussão chegava a um impasse, a solução era encontrada com engenho: “Uma piada punha tudo no sítio.” Foi uma inovação. “Falava-se, então, da história dos radicais livres, do envelhecimento dos radicais livres, quando em Portugal acontece o contrário, temos radicais que não são livres, e achei que era giro termos radicais livres”, lembra.

A fórmula era simples: “Pessoas que partem de princípios ideológicos diferentes: eu nacionalista, ele internacionalista, eu de direita, ele de esquerda”, sintetiza. Estes percursos distintos estavam há muito consolidados. “Ambos começámos a nossa actividade nos anos 60 do século passado, em campos completamente opostos, os dois geralmente muito activos, ambos demos o corpo ao manifesto”, recorda.

“Ele esteve várias vezes preso antes de 1974, eu depois de 1974 [25 de Abril] não estive preso porque saí a tempo”, prossegue. Quanto a Ruben de Carvalho, Nogueira Pinto sintetiza: “Ele era um radical livre. Estava num partido, mas era absolutamente livre.”

Marcelo elogia “defensor da liberdade"

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, emitiu no site da Presidência uma nota de pesar pela morte de Ruben de Carvalho. “Jornalista e homem de cultura, defensor da liberdade desde jovem, deputado à Assembleia da República, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, Ruben de Carvalho deixa um rasto de saudade em todos quantos tiveram o privilégio de partilhar a sua afabilidade de trato e reconhecer o seu empenhamento profundo na defesa das causas em que acreditava”, afirma a nota o Presidente que acrescenta: “À família enlutada e ao PCP apresento as minhas mais respeitosas condolências.”

Costa: “Foi bonita a Festa, pá!"

O primeiro-ministro, António Costa, reagiu no twitter à morte de Ruben de Carvalho. “Já falei com a viúva, professora Madalena Santos, e enviei mensagem de condolências ao secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa”, começou por dizer António Costa.

“Ruben de Carvalho era, antes do mais, um amigo, numa amizade que construímos nos seis anos de intenso convívio na Câmara de Lisboa. As vicissitudes da política nunca nos permitiram trabalhar tão estreitamente quanto eu teria – creio efectivamente que ambos teríamos gostado e seguramente a cidade muito teria beneficiado”, assumiu António Costa sobre o período em que em simultâneo trabalharam como eleitos na Câmara de Lisboa.

“Homem de cultura e inteligência política invulgares, sentido de humor e extraordinária exigência de carácter, seduzia adversários, com a capacidade de construir e honrar os compromissos que Lisboa exigia”, sublinhou o primeiro-ministro, para rematar, afirmando: “Adorava a vida e se teve tempo de uma última despedida, deve ter dito para si: ‘Foi bonita a Festa, pá!’”

Jerónimo lembra “vida de luta”

Foi um Jerónimo de Sousa com ar abatido que, no Parlamento, ao final da manhã, lamentou a morte do camarada, que descreveu como um “homem que abraçou toda a vida a luta pelo projecto do partido”, “que lutou pela liberdade e pela democracia, pelo fim da exploração do homem pelo homem, que lutou pelo socialismo e pelo comunismo”.

O líder do PCP lembrou também Ruben de Carvalho como um “homem de combate, de confronto de ideias”, que era muito respeitado mesmo por quem dele discordava. E como um intelectual que muita contribuição deu em defesa da música popular portuguesa, mas também da música erudita – era o organizador do programa musical da Festa do Avante! e foi pela sua mão que ao terreno da Atalaia chegou a ópera.

Foi jornalista de imprensa e de rádio e vereador nas câmaras de Lisboa e de Setúbal, salientou ainda o secretário-geral do PCP, recordando que a “vida de participação e de intervenção na luta antifascista e no movimento estudantil o levou a prisões sucessivas, a última das quais a 7 de Abril de 1974”, apenas duas semanas antes da revolução.

Medina: “Sabia tudo sobre a cidade”

O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, considerou Ruben de Carvalho “incansável na sua energia criativa e mobilizadora”, alguém que “tinha um enorme sentido de humor e grande capacidade de diálogo”, características que marcaram “a sua passagem pela Câmara Municipal de Lisboa enquanto vereador”, sublinha.

Prestando as suas condolências e as do município à família de Ruben de Carvalho – “em particular à sua companheira, Madalena” – e ao PCP, Fernando Medina afirma que o militante e dirigente comunista “sabia tudo sobre a cidade, desde a história de um qualquer recanto à origem do nome daquela rua”. Era também um grande conhecedor do fado.

“O Ruben deixou-nos, mas o testemunho da sua paixão por Lisboa, esse perdurará”, sublinha Fernando Medina, lembrando o seu papel como produtor cultural, responsável pela Festa do Avante!, e por trazer a Portugal artistas como Chico Buarque ou Dexys Midnight Runners.

Com Nuno Ribeiro e Maria Lopes