A espantosa reviravolta do caso do jornalista detido em Moscovo

Na quinta-feira, Ivan Golunov enfrentava um processo com poucas hipóteses de vencer. Esta terça-feira, foi libertado. O Kremlin mostrou tolerar investigações à corrupção no sistema - desde que este não seja posto em causa.

,Jornalista
Fotogaleria
Ivan Golunov quando foi presente a tribunal no sábado. Nada fazia prever que fosse libertado tão depressa TATYANA MAKEYEVA/Reuters
Fotogaleria
Protesto individual: apenas uma pessoa de cada vez protestava contra a prisão de Golunov, para contornar as leis de manifestações YURI KOCHETKOV/EPA

Um jornalista praticamente desconhecido fora do círculo dos profissionais de Moscovo, com tendência para investigar casos de corrupção local, tornou-se o protagonista de uma história com um desfecho surpreendente: preso na quinta-feira e acusado do grave crime de posse de drogas com intuito de tráfico, Ivan Golunov foi esta terça-feira libertado, e a acusação contra si foi retirada.

O que aconteceu para acontecer esta reviravolta? Primeiro, um protesto inédito de outros jornalistas russos. Segundo, o perigo de que o caso continuasse a desviar as atenções: na sexta-feira, o encontro entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu homólogo chinês, Xi Jinping, não dominou o ciclo noticioso. O caso de Golunov sim. O Presidente não terá querido arriscar nada que pudesse baixar a sua popularidade.

Jornalistas desafiaram a lei que proíbe manifestações sem autorização fazendo fila para, um a um, pegarem num cartaz pedindo a libertação de Golunov em frente à sede da polícia em Moscovo – tratando-se de um protesto individual, não é proibido.

E, pela primeira vez na sua história, três jornais russos – Vedomosti, RBK e Kommersant – publicaram uma primeira página igual: “Somos Ivan Golunov.”

Artistas, de rappers a realizadores e actrizes, partilharam preocupação com o caso. Presente a tribunal no sábado, o jornalista estava muito perturbado. “Nunca pensei assistir ao meu próprio funeral”, disse, soluçando.

O Kremlin pareceu apanhado de surpresa pela dimensão dos protestos, que ameaçavam continuar quarta-feira, dia 12, o dia nacional da Rússia. 

Vozes pró-Kremlin começaram entretanto a questionar a versão da polícia sobre Golunov, como a presidente da câmara alta da Duma, Valentina Matviienko, que a descreveu como “uma história muito má” e declarou ter falado com o procurador-geral, que prometeu tomar ele próprio conta do caso.

E o tablóide KP publicou um artigo apresentando Ivan Golunov como vítima de arbitrariedade e admitindo a possibilidade de a polícia pôr drogas em casas de pessoas para as incriminar e dar a sensação de que está a lutar contra o crime – começava a ser óbvio que o Kremlin estava a apoiar esta linha.

O jornalista Leonid Bershidsky – que já trabalhou com Golunov – contou num artigo de opinião na emissora financeira Bloomberg como o jornalista é um protagonista improvável numa história deste género.

“Movido pela curiosidade”, alguém que não liga a dinheiro ou estatuto, Ivan Golunov dedica-se a investigar casos de negócios com as lixeiras, dominadas por máfias e oligarcas, com as máfias dos cemitérios, com empréstimos predadores, ou seja, “lida com aspectos de uma sociedade baseada numa amálgama de crime organizado, burocracia e corrupção de nível médio”, na descrição de Bershidsky. Trabalhava de momento com o site independente Meduza.

O jornalista foi interpelado numa rua de Moscovo na quinta-feira, quando tinha acabado de entregar um artigo sobre uma máfia de funerais e se ia encontrar com outro jornalista. Os polícias disseram ter encontrado um pacote com pó branco, que seria cocaína, na sua mochila; levaram-no para casa, que revistaram sem mandado, e disseram ter encontrado mais cocaína.

Um dos editores do site, Alexei Kovalev,​ disse no Twitter que o motivo da prisão do repórter estaria provavelmente ligado a uma investigação em curso.

Como especulava o jornalista Leonid Ragozin, “é provável que o trabalho de Ivan Golunov tenha prejudicado os interesses de negócios privados de alguém, talvez a um nível não muito alto”. A questão é que “o sistema construído por Vladimir Putin é essencialmente um pacto de defesa colectiva de vários responsáveis corruptos e empresários ligados a eles, protegendo o seu direito a pilhar”.

Confrontado com uma recente queda de popularidade, Putin terá preferido mostrar generosidade e tolerância, especialmente com uma figura que denuncia corrupção e que nunca lhe apontou o dedo – Golunov descrevia casos de corrupção, mas não fazia uma crítica ao sistema. O Kremlin será assim visto como tolerante, desde que dentro de certos limites: Putin e o sistema.

Especialmente importante era acabar com a história antes da próxima semana, já que o Presidente reservou um dia para receber uma maratona de telefonemas dos cidadãos, que é uma oportunidade especial para Putin se mostrar como o líder que ouve as preocupações das pessoas, as partilha e as resolve.