Opinião

Coisas e palavras. Então e os filhos?

É hora de devolver dignidade aos filhos que ex-militares portugueses deixaram nas antigas colónias em África.

Devolver às ex-colónias portuguesas estatuetas, máscaras, cestaria, cerâmica, bonecas e documentos de arquivos e museus portugueses. Pensar muito bem antes de baptizar um museu sobre o período colonial de Museu das Descobertas, da Interculturalidade de Origem Portuguesa, dos Descobrimentos, da Viagem, da Peregrinação, da Expansão Ultramarina Portuguesa, do Encontro...

Tenho seguido de forma muito atenta esta acesa discussão, que nos dá conta de um momento importante da sociedade portuguesa em que questões tão importantes como estas saltaram, finalmente, para cima da mesa. Mas penso sempre que estamos a falar de objectos, simbolicamente importantes, mas que são coisas inertes, estáticas, que não se movem, não têm sentimentos, nem vontade, nem vidas por viver. E que também estamos a falar de palavras, da escolha de palavras, que também são muito importantes, porque as palavras magoam, perdoam, incluem e excluem. Mas coisas e palavras. Então e os filhos?

Há seis anos escrevi pela primeira vez no PÚBLICO sobre uma realidade que ainda não tinha, surpreendentemente (a Guerra Colonial tinha terminado há quase 40 anos), sido abordada nos media: a existência de filhos que ex-militares portugueses tiveram com mulheres africanas durante um conflito que durou cerca de 13 anos (1961-1974) e que ficaram para trás em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.

Em 2013, quando parti para a Guiné-Bissau, nessa primeira vez levava apenas uns quatro contactos, não tinha a certeza se falariam comigo e com os meus colegas Manuel Roberto e Ricardo Rezende e se seriam mesmo quem diziam ser − filhos de militares portugueses do tempo da guerra. Eram (e esses quatro trouxeram dezenas de outros). Como posso ter a certeza? Não se finge o que eu ouvi. Não preciso de testes de ADN para perceber que as pessoas que falaram connosco, e que hoje andam pelos 40-50 anos, sofrem desde que começaram a ter idade para compreender insultos como “resto de tuga” ou “sobras do colono”. O seu crime foi, desde crianças, serem filhos de homens portugueses que, na esmagadora maioria dos casos, nunca os quererão conhecer.

Nós, jornalistas, temos o privilégio, e a responsabilidade, de ser mediadores: ouvimos o que nos contam, tiramos notas, fotografias, filmamos e depois, no final, contamos uma história. Neste processo tentamos que se perca o menos possível pelo caminho. Eu vim de lá, ouvi o que ouvi, senti o que senti, e tentei que essas palavras e esses sentimentos não ficassem pelo caminho, que as minhas palavras escritas (que não substituem, nunca substituirão, o cara a cara) carregassem o máximo do que presenciei. Mas neste trabalho de transmissão, é inevitável, há sempre coisas que se perdem e que não se conseguem transmitir. São os limites da comunicação.

Há um projecto que começou em 2000 na Dinamarca, chama-se a Biblioteca Humana, que às vezes penso que talvez ajudasse. Nos encontros da Biblioteca Humana uma pessoa senta-se à frente de outra pessoa, que normalmente não conheceria, e conta-lhe a sua vida. Como se a pessoa e a sua vida fossem um livro.

Às vezes penso que a solução era sentar-vos, a cada um de vocês, leitores, à frente de um destes “livros”. Maria Odete contou-me como a avó a escondia debaixo da cama quando recebiam visitas, por ela ser “filha de um tuga”, deixava-lhe lá comida e água, porque tinha vergonha de a ter na família. Isto aconteceu até ser adolescente.

Desafiava-vos a ouvirem a história de Maria Odete Almeida, e outras como a dela, e não sentirem, como portugueses, nada, uma restiazinha de injustiça. Mesmo os que, ao longo dos anos, fizeram questão de me transmitir, a propósito do meu interesse em falar destes filhos, que muitos vêem como despropositado, que 1) “a guerra é a guerra”, 2) “um homem não é de ferro”, 3) “que o que lá vai lá vai” e, claro, 4) variações da estafada deixa luso-tropicalista e “o português criou o mulato”.

E então, nesse cara a cara, talvez percebessem como me sinto sozinha a pensar: coisas, palavras, então e os filhos? Falta falar dos filhos.

Há centenas, acredito que milhares, de pessoas que são os últimos filhos de um momento histórico da história de Portugal, do fim da era colonial. Seis anos depois, posso dizer-vos que continuo a receber mensagens destes filhos, às vezes já dos seus netos, a pedirem-me que os ajude a encontrar o pai português, o avô. Como se Portugal fosse um sítio onde é fácil achar pessoas.

A maioria dos poucos pais que consegui localizar pediu-me para serem deixados em paz. O que respeitei. São homens de 60, 70, 80 anos que, se nada fizeram até agora, foi porque não quiseram. Alguns não saberão que deixaram filhos, nem tentaram sabê-lo. Para a maioria, este é assunto enterrado.

Mas também há ex-militares desse tempo a quem a existência destes filhos esquecidos incomodou, na altura da guerra, e continua a incomodar até hoje. Fui contactada por um deles, José Silvério, que decidiu lançar uma petição para que lhes seja atribuída a nacionalidade portuguesa. Ajudei na sua redacção.

Em 1977, terminou isso de ser filho de pai incógnito. Em 2015, o Estado português passou, num justo acto de reparação histórica, a atribuir a nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas obrigados a sair de Portugal há cinco séculos. Em 2017, os netos de portugueses a viver no estrangeiro passaram a ter direito à nacionalidade. E porque é que Óscar Albuquerque, filho de um ex-militar português colocado na Guiné no tempo da guerra, anda há cinco anos a tentar tornar-se português e nada consegue?

Quando um outro filho de militar português, Luís Lopes, me contava a sua história, a certa altura interrompeu: “Posso fazer uma pergunta? O que é que os portugueses sentem em relação a nós?” Não lhe respondi. A resposta seria “nada. Porque para os portugueses vocês não existem”.

Não fui nomeada para representar estes filhos, preferia até, enquanto jornalista, não estar a escrever este texto. Mas sinto que tem mesmo de ser. É que eles continuam a escrever-me, pedindo “encontre-me o meu pai português”. E eu isso já não consigo fazer. Mas posso fazer isto. Falar-vos desta petição e dizer-vos que sou a sua 50.ª signatária, que são precisas 1000 para ir a comissão parlamentar e 4000 para estes filhos chegarem ao plenário da Assembleia da República. Não se fale nem de culpas nem de desculpas. Fale-se em devolver dignidade.