Leonardo tem 29 anos e estuda Ciências de Computadores na Universidade do Porto.
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Leonardo tem 29 anos e estuda Ciências de Computadores na Universidade do Porto. Nelson Garrido

“Sim, vim sozinho ao festival”: e depois?

Ou porque os amigos não compraram bilhete ou porque já têm por hábito nem perguntar se mais alguém vai. Leonardo, Rita e Mariana decidiram ir sozinhos ao Nos Primavera Sound.

Leonardo dá um saltinho quando o surpreendemos a meio de uma selfie, minutos antes de Courtney Barnett começar a tocar, ao segundo dia do Nos Primavera Sound. Não estava à espera de se encontrar com alguém tão cedo, ri-se, assim confirmando as nossas suspeitas: “Sim, vim sozinho ao festival”, sorri. 

Não conhece a maior parte dos nomes no cartaz, mas queria muito ver Interpol e nunca tinha ido a um festival de Verão. Por isso, mesmo quando foi o único dos amigos a ganhar um dos bilhetes oferecidos pelo principal patrocinador do Primavera Sound, nem chegou a considerar não ir. E não se arrepende “nada”, garante o estudante de 29 anos de Ciências de Computadores, na Universidade do Porto. Foi isso que disse a um amigo numa mensagem que acaba de enviar, bem-humorado: “Nossa, vou viver de festival, agora.”

Vir sozinho não o incomoda, já o fazia, por exemplo, em noites de karaoke, mas não é uma decisão tão consciente quanto a de Mariana Silveira, também brasileira, 31 anos, a viver em Viseu. “Comecei a ir a eventos culturais sozinha muito nova, primeiro ao cinema, para ver filmes mais alternativos que os meus amigos não gostavam. Depois a concertos, depois a viajar. Para mim é bem natural. Na verdade, nem pergunto se alguém quer ir comigo.”

Está sentada na relva, a ver distraidamente o concerto de Hop Along, liderado por Frances Quilan, numa edição, pela primeira vez, paritária, quanto ao género. Já no público, e pelo segundo ano consecutivo, as mulheres estavam em maioria (62,1%), segundo o estudo de públicos do Instituto Superior de Administração e Gestão, ao qual o P3 teve acesso, e que aponta a “oportunidade de socializar” como segunda motivação para quem se deslocou ao festival. Talvez embalada por isso — mas também porque é um tema “que sente muito na pele” —, Mariana Silveira não encara a decisão de vir sozinha de forma tão leviana como Leonardo Campetti. 

Vir desde Viseu, ir embora do festival de madrugada, num autocarro, “não ter vergonha de estar sozinha”, dançar e “divertir-se sem companhia”, “vir apenas por querer vir”, é também uma afirmação de poder: “Eu recuso-me a deixar de fazer alguma coisa por ser mulher.” 

Pensava muito mais nisto quando viajava para concertos em São Paulo, durante a noite. Mas, como aconteceu ali, quando entra no recinto a segurança instala-se. “Eu fico mais na minha. Não costumo conhecer pessoas, porque eu venho mesmo pelo concerto”, diz-nos, a voz carregada de energia para se fazer ouvir. “Acho que é interessante vir acompanhada se for uma banda que os dois, ou o grupo, gostem muito. Agora, se for só para ter companhia, até acaba atrapalhando.”

Esta é a vantagem mais óbvia em vir sozinha, aponta também sem precisar de pensar muito Rita Borges, vinda de Lisboa. “É teres uma liberdade enorme para escolheres o momento em que queres fazer tudo: desde ir à casa-de-banho, buscar bebidas, saltar para outro palco…” Pensamos exactamente nisto ao ver as dezenas de telemóveis em riste, lanterna ligada, a guiar o caminho da pessoa que se afastou. Ou quando um casal de namorados, cada um com o horário na mão, começa uma discussão que acaba com ela a segui-lo, com pouca vontade. 

Ao contrário de Leonardo e Mariana, a lisboeta de 25 anos esteve nos três dias do Primavera Sound. É só no último que falamos, já a ânsia pelo concerto de James Blake estava consolidada numa memória feliz. Já o tinha visto em 2016, no Sonar, em Barcelona — festival a que foi, também, sozinha. “Não me lembro se, na altura, ponderei muito ir ou não ir. Lembro-me que tinha um bilhete grátis, que era um evento incrível e que tinha de experimentar. Foi tão bom que a partir daí deixei de ter medo.” Num festival, “como a música também é uma experiência muito pessoal, fica ali momento muito intimo, só teu”. “Já quando vais bem acompanhada é uma experiência de conexão, e na tua memória fica não só o momento, mas também a pessoa.”

Em 2018, voltou ao Sonar, mais uma vez sem ninguém com quem dividir a cerveja e, desta vez, durante o próprio aniversário. “Se calhar, porque já sabes que não conheces ninguém naquela imensidão de gente, eu senti-me super confortável. Não que seja constrangedor encontrares alguém conhecido, mas às vezes não queres que isso aconteça quando estás só tu”, diz. Isto porque, admite, mesmo que “nós sejamos os nossos melhores amigos (…), às vezes é desconfortável estar sozinho”. 

Não quer pensar nisso, mas é inevitável: “Fico a achar que estão a olhar para mim, a pensar ‘porque é que esta pessoa está aqui sozinha?’”. Mariana Silveira já nos tinha dito algo parecido antes: “Vejo que existe um preconceito, como se as pessoas fossem solitárias.” (A solidão e o isolamento são problemas cada vez mais graves, que não se relacionam com a opção destas pessoas.) Quando se sente observada, mesmo sem razão, normalmente entre concertos — “às vezes, é como se estivesses numa sala de espera” —, Rita costuma tirar o telemóvel da bolsa, nem que seja só para fazer scroll pelas redes sociais, até a música voltar a subir e engolir de novo essa “insegurança”.

Como o festival não tem acampamento — o que, de resto, também nunca experimentou fazer sozinha —, a jovem profissional na área do marketing ficou a dormir num Airbnb que escolheu por — culpa da cozinha e salas comunitárias, zonas amigas da conversa em várias línguas — “mais parecer um hostel”. Numa das viagens até ao recinto, encontrou um rapaz e uma rapariga, estreantes no festival, que meteram conversa sobre o funcionamento da bilheteira. Foi o quebrar do gelo para temas tão agregadores quanto A Guerra dos Tronos ou viagens, mas também para outros muito menos abordados entre desconhecidos, como a falta de saúde mental. “Acabámos por ir beber um copo antes de entrarmos no recinto. Numa era tão digital como a nossa, conhecer uma pessoa por causa de uma casualidade e ter um debate tão interessante e tão humano faz-te a pensar: ‘Isto é que é viver e às vezes as pessoas esquecem-se disso. Porque estão é preocupadas que as vejam sozinhas’.”