Dona da Fidelidade negoceia compra da Thomas Cook

Fosun já é a maior acionista do operador de turismo britânico, tendo 7,23% da Thomas Cook através da seguradora portuguesa Fidelidade, cujo capital é partilhado com a CGD. Chineses são também donos do Club Med

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Guo Guangchang, presidente e acionista da Fosun, em 2014, quando o grupo chinês ficou com a maioria do capital da seguradora da Caixa DRO DANIEL ROCHA

O grupo britânico Thomas Cook – um dos maiores grossistas de viagens e turismo da Europa, com importância significativa no mercado português – admitiu hoje em comunicado que está a negociar com os chineses da Fosun a venda de parte do negócio.

A notícia fora avançada ontem pela cadeia televisiva Sky. Hoje, o grupo Thomas Cook (que engloba o operador turístico e uma companhia aérea) emitiu um comunicado curto ao mercado. Nele afirma que - à luz de notícias sobre “uma oferta potencial para o seu negócio de operador turístico por parte da Fosun International Limited (“Fosun”), a maior acionista do grupo” – o grupo “Thomas Cook confirma que está diálogo com a Fosun depois de receber uma abordagem preliminar”.  A área de aviação não está incluída no negócio.

A administração do grupo de turismo britânico sublinha ainda na comunicação ao mercado que não há certeza que “esta aproximação resulte numa oferta formal”. Mas, acrescenta, o conselho de administração irá analisar “qualquer oferta potencial juntamente com outras opções estratégicas que tem, com o objectivo de maximizar o valor para os ‘stakeholders’” da empresa.

O grupo Thomas Cook, companhia predominantemente grossista (vende às agências de viagens os pacotes de férias, por exemplo) tem sofrido em bolsa no último mês, com quedas acima de 15% em algumas sessões, depois de ter apresentado os últimos resultados, com uma dívida de 1,25 mil milhões de libras (1,4 mil milhões de euros ao câmbio actual) por sanar e a ameaçar a sua viabilidade a curto prazo. Hoje, segue em Londres a valorizar 15,44%, a 18,59 libras cada título. 

O grupo britânico tem cerca de 11 milhões de clientes no Reino Unido (e daí a relação directa com mercados como Algarve e Madeira), Escandinávia e resto da Europa. Com 566 agências nas ilhas britânicas, onde emprega a grande maioria dos seus 22 mil trabalhadores, registou receitas de 7,4 mil milhões de libras no ano passado, avançou hoje o The Guardian.

A Fosun, dona de 85% da Fidelidade e 27,06% do BCP, é já a maior accionista da Thomas Cook. A agência Reuters atribui 18,7% do capital a Guangchang Guo, presidente e maior accionista individual do conglomerado chinês. No último relatório e contas da Fosun, cotada em Hong Kong, a companhia chinesa afirmava que, a 31 de Dezembro de 2018 o grupo detinha 13,89% do capital, que consolida em “11,59% de participação efectiva na Thomas Cook”.

Com a Fidelidade no meio, como avançou o PÚBLICO há um ano, embora a uma percentagem menor do que em 2017. “A Thomas Cook era detida [a 31 de Dezembro de 2018] em 6,66% e 7,23% pela FTG e Fidelidade (através da sua subsidiária a 100%)”, respectivamente, ambas “subsidiárias da companhia” Fosun, está escrito no relatório e contas do ano passado.

A Fosun classifica como Portuguese Insurance Group a agregação das suas participações na Fidelidade – Companhia de Seguros (85%), na Multicare – Seguros de Saúde (80%) e na Fidelidade Assistência – Companhia de Seguros (80%).

A participação que detém, de 85% na seguradora portuguesa, tem a Caixa Geral de Depósitos (CGD) como parceira, em 15%, depois do Estado ter alienado, em 2014 a maioria do negócio segurador do banco público à Fosun. Um negócio que há pouco tempo teve reparos do Tribunal de Contas. É também através da Fidelidade que a Fosun consolida 50,36% da Luz Saúde, estando os restantes 49% directamente alocados à “holding” chinesa cotada em Hong Kong.

A FTG, por leu lado, é a área de negócio anteriormente conhecida como Fosun Tourism and Culture Group, que além da participação de 13,89% na Thomas Cook é dona do Club Mediterranée (Club Med), rede de hotéis mundial, adquirida também com a ajuda da Fidelidade, naquela que foi a mais longa OPA da bolsa francesa, finalizada em 2015. O Club Med, que tem em curso o seu primeiro investimento de raiz em Portugal, em Tróia, chegou a ser detido em 19,53% pela Fidelidade em 2017