Da guerra na Síria para a televisão, Kaysar Dadour é o capanga mais querido do Brasil

Ser actor era um sonho de criança que ficou empoeirado com o início do conflito em 2011. Hoje, com uma história de vida digna de qualquer ecrã, Kaysar Dadour faz sucesso em Órfãos da Terra, novela da Globo que estreou em Portugal a 27 de Maio.

,Big Brother Brasil
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O actor contracena com Herson Capri, o sheikh Aziz DR

Antes do rebentar da guerra em Aleppo, “a vida era muito normal”. Kaysar Dadour, 29 anos, guarda memórias de uma infância leve e feliz, em nada diferente das outras. “A gente vivia em paz, tínhamos escolas e universidades muito boas e era tudo muito barato”, lembra, em conversa telefónica com o PÚBLICO. Mas, se nunca havia imaginado deixar o seu país natal, em 2011 teve de partir rumo à Europa, mais concretamente à Ucrânia, em busca de uma segunda vida.

“Tive muitas dificuldades, mas aprendi a falar muito bem russo”, recorda. Durante três anos, exerceu diferentes profissões, de empregado de mesa a animador de festas para crianças, mas quando começava a sentir-se em casa, a paz foi interrompida pela Crise da Crimeia em 2014. Então, como se desde o início fosse o destino final, o Brasil apareceu a Kaysar num sonho. “Foi do nada, acho que foi Deus, sabe?”, admite.

A fé é uma constante no discurso do sírio e um princípio que lhe serve de arranque a cada nova aventura. Foi com a certeza de que algo melhor o esperava que contou à mãe que ia atravessar o Atlântico. “A gente tinha uma prima da minha avó lá, mas eu só a vi uma vez quando era criança”, revela Kaysar. Também no Brasil fez um pouco de tudo até ao dia em que deu conta de um fenómeno sociocultural que lhe era estranho – as pessoas ficavam coladas ao ecrã da televisão a ver o programa a que chamavam “BBB”.

Na altura, depois de conhecer o conceito do famoso reality show Big Brother Brasil, meteu na cabeça que ia concorrer para ganhar o prémio final e consegui chamar o resto da família para aquele país. Novamente, deixou que a fé tomasse as rédeas à sua vida. “Enchi o quarto de papéis onde estavam escritas frases como ‘Já estou no BBB’ e ‘Já trouxe o meu pai, a minha mãe e a minha irmã para o Brasil’”, conta Kaysar, que viria a arrecadar apenas o segundo lugar do concurso.

Depois de sair do programa, tirou partido do momentum criado para ganhar dinheiro. “Qualquer evento que vinha, eu segurava.” Em 2018, conseguiu tratar da documentação da família e, finalmente, voltar a estar com todos os que amava, há sete anos que não se viam. Foi essa estabilidade que lhe permitiu resgatar um desejo de criança: ser actor. “Com o tempo, parece que os sonhos ficam escondidos no meio da guerra”, recorda.

Depois de fazer algumas audições, fez um filme e uma peça de teatro e foi chamado a participar em Órfãos da Terra, a nova “novela das seis” que foi para o ar a 2 de Abril no Brasil e que se estreou em Portugal a 27 de Maio no mesmo canal, Globo, por cabo. Kaysar Dadour interpreta Fauze, um dos capangas do sheikh Aziz (Herson Capri), o grande antagonista da história. “Ele faz tudo o que o sheikh manda sem pensar, é muito fiel”, diz o novato.

A novela, centrada no amor proibido de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes), uma refugiada síria e um libanês, empregado do sheikh que tomou à força Laila como uma das suas esposas. Os dois conhecem-se num campo de refugiados em Beirute, Líbano, ambiente evocativo da realidade que Kaysar viu com os próprios olhos. “Aquilo que se passava na Síria é bem mais pesado que a novela, não pode ser mostrado”, nota, acrescentando que o cenário de destruição do país “não cabe em palavras”.

Prestes a obter a nacionalidade brasileira, como anunciou em Abril nas suas redes sociais, Kaysar Dadour sublinha que “a palavra-chave da novela é ‘empatia’”. Órfãos da Terra quer mostrar que, antes da guerra, os refugiados eram pessoas com uma vida familiar, social e financeira estruturada como os seres humanos de outras geografias e latitudes. “É muito importante mostrar que não é objectivo dos refugiados estragar o país dos outros, mas sim encontrar paz, amor e uma vida boa”, conclui.