Scroll: esta peça tem palco mas está no nosso bolso

O projecto da companhia Visões Úteis pode ser visionado através de uma aplicação disponível em smartphone. Ao longo de 15 episódios — transmitidos durante 15 dias —, o público pode acompanhar o quotidiano de dois estafetas de uma plataforma digital.

Capacetes De Bicicleta
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Tinha tudo para ser mais uma peça sobre a precariedade que caracteriza a vida laboral dos jovens, e não só, ao serviço das famosas plataformas digitais que entregam os mais variados tipos de produtos e bens, a pedido de utilizadores que, no conforto do lar, apenas têm de fazer meia dúzia de toques no smartphone. Mas o colectivo artístico Visões Úteis decidiu ir mais longe: em Scroll, substitui as tábuas de madeira dos palcos pelo asfalto das ruas do Porto, as mesmas onde estes trabalhadores já percorreram um incalculável número de quilómetros. A peça, com um conceito inovador, “cruza artes performativas e novas tecnologias”.

Neste momento, pode estar a perguntar-se em que auditório ou teatro poderá assistir a tamanha revolução teatral. A resposta não vai constituir uma novidade, basta regressar ao parágrafo anterior: meia dúzia de toques e um smartphone. De facto, o carácter inovador de Scroll materializa-se numa app criada para servir o propósito da peça e que o público poderá descarregar nas lojas online de referência. Depois de concluída esta operação, os interessados deverão proceder a um registo através do qual lhes será atribuída uma das duas personagens principais – “uma perspectiva diferente mas sobre a mesma história”. Ao longo dos 15 episódios que constituem a peça, o espectador vai poder acompanhar a vida e as peripécias do estafeta que lhe foi atribuído.

A peça “entrou em cena” a 3 de Junho, mas aqueles que perderam o início da trama não têm motivo para preocupações: o que acontece na Internet fica na Internet... Todos os desenvolvimentos estão online, também na app, segundo uma ordem cronológica, para os espectadores acompanharem o que lhes tiver escapado.

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No que diz respeito à história propriamente dita, esta centra-se no quotidiano dos estafetas da Scroll, uma empresa cujo funcionamento se assemelha ao das famosas Uber e Cabify e que partilha com a peça o nome. Estes trabalhadores, apelidados “colaboradores” pela empresa, têm de guiar, literalmente, a sua actividade profissional pelas ordens decretadas por um algoritmo cujo funcionamento não percebem. Rapidamente concluem que as esperanças depositadas num emprego que lhes iria oferecer total liberdade não passaram disso mesmo, esperanças. Aquilo que acabam por encontrar são variadas formas de assédio e chantagem que têm como objectivo forçá-los a mostrar “total disponibilidade” caso queiram ver as remunerações constantes ou melhoradas. Como se pode ouvir num dos vídeos de lançamento do projecto: “Para ganhares algo que se veja, tens que estar sempre ligado! A trabalhar todas as horas, todos os dias, todas as semanas durante o ano inteiro.” É neste clima de exploração e competição que os trabalhadores são facilmente virados uns contra os outros pelas instâncias da empresa —​ a operar no Porto há pouco tempo —​, o que os faz cair num estado de isolamento profundo.

Uma história na algibeira

A interacção contínua do espectador com a peça quebra a distância em relação à história que se desenrola na sua algibeira. Num transpor de barreiras constante entre a ficção e a realidade, cada um poderá votar e comentar as prestações do estafeta que lhe foi atribuído — como nas entregas não ficcionadas — e consultar informações da sua vida privada, tais como as actualizações das redes sociais, as conversas em Skype com a família, as notícias que lê ou as músicas que ouve. Esta linha ténue entre ficção e realidade — um “território de confusão”, como lhe prefere chamar Carlos Costa, director da peça e um dos responsáveis pela dramaturgia — é uma estratégia assumida. “Não temos medo de explorar esse espaço.”

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Também no que diz respeito às ditas avaliações — prática comum para os utilizadores deste tipo de serviço —, estas têm um papel activo no desenrolar da peça, já que o próprio estado de espírito das personagens é influenciado pelas avaliações que estas recebem. A dependência desta informação impossível de prever confere um carácter “mais aberto” à narrativa, embora Carlos garanta que esta continua a ser “controlada”. Mesmo assim, há coisas que podem fugir ao controlo, como a presença da polícia no episódio de 5 de Junho, que foi gravado e transmitido nas imediações do Estádio do Dragão, no Porto, horas antes do jogo da Liga das Nações que opôs Portugal à Suíça. “Planeámos gravar num determinado local e, quando chegámos, a acesso tinha sido cortado.”

Um dos objectivos a que o colectivo Visões Úteis se propõe com esta peça — que não pode ser chamada “peça de teatro” por “não se inscrever na ideia de teatro” — é “questionar e lançar um olhar crítico” sobre as condições de trabalho que os novos modelos de negócio têm para oferecer. Como forma de servir este propósito, a crítica começa bem cedo: com a escolha do mecanismo através do qual a peça vai ser transmitida, o mesmo que serve de base à actividade profissional que se pretende retratar. “É um contra-senso”, assume Carlos Costa, mas um contra-senso repleto de intenções. Até agora, o público parece estar a gostar deste formato. Prova disso são os primeiro e nono lugar que a aplicação ocupa nas lojas online da Google e da Apple nas categorias de ‘Arte e design’ e ‘Arte e entretenimento’, respectivamente. Texto editado por Inês Nadais