Quatro milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015

Organizações alertaram também que uma em cada três menores na Venezuela têm problemas de nutrição.

Países vizinhos da Venezuela são os que recebem mais venezuelanos que querem deixar o país em crise
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Países vizinhos da Venezuela são os que recebem mais venezuelanos que querem deixar o país em crise EPA/MIGUEL GUTIERREZ

O número de venezuelanos que deixou o seu país alcançou os quatro milhões, divulgaram esta sexta-feira num comunicado a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Os venezuelanos que saíram do seu país são um dos maiores grupos populacionais deslocados do mundo. Apenas os refugiados sírios, com 5,6 milhões de habitantes, superam os venezuelanos como a maior população deslocada do seu país.

O ritmo de saída de população da Venezuela tem sido assombroso, de acordo com a nota dos dois organismos internacionais. De 646.134 no final de 2015, o número de refugiados e migrantes da Venezuela disparou para 3.929.560 até meados de 2019, segundo dados das autoridades nacionais de imigração e outras fontes.

Em apenas sete meses, a partir de Novembro de 2018, o número de refugiados e migrantes aumentou em um milhão.

Os países latino-americanos estão a receber a grande maioria dos venezuelanos, com a Colômbia a acolher cerca de 1,3 milhões, o Peru 768 mil, o Chile 288 mil, o Equador 263 mil, a Argentina 130 mil e o Brasil 96 mil. O México e os países da América Central e das Caraíbas também abrigam um grande número de refugiados e migrantes da Venezuela.

“Esses números alarmantes destacam a necessidade urgente de apoiar as comunidades que acolhem nos países receptores” dos migrantes e refugiados venezuelanos, disse Eduardo Stein, representante especial conjunto do ACNUR-OIM para refugiados e migrantes venezuelanos.

“Os países da América Latina e das Caraíbas estão a fazer a sua parte para responder a essa crise sem precedentes, mas não se pode esperar que continuem sem assistência internacional”, declarou ainda.

Os Governos da região estabeleceram mecanismos para coordenar a sua resposta e facilitar a inclusão legal, social e económica dos cidadãos venezuelanos.

O principal deles é o Processo de Quito, que reuniu países latino-americanos afectados pelo fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos.

Para complementar esses esforços, em Dezembro passado foi lançado um plano regional de resposta humanitária para refugiados e migrantes (RMRP), dirigido a 2,2 milhões de venezuelanos e 580.000 pessoas em comunidades de acolhimento em 16 países. Até agora, o RMRP está a ser financiado em apenas 21%.

Uma em cada três menores na Venezuela têm problemas de nutrição

Cerca de uma em cada três crianças na Venezuela precisa urgentemente de assistência nutricional, de saúde e de educação, revelou esta sexta-feira a Unicef, que espera obter recursos adicionais para fortalecer as suas actividades no país.

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), dos dez milhões de crianças na Venezuela, 3,2 milhões precisam urgentemente dessa assistência básica, bem como de medidas de protecção para evitar que sejam vítimas de abuso e exploradas, face ao agravamento da crise.

Segundo dados da ONU, o aprofundamento da crise na Venezuela terá expulsado mais de 750 mil crianças e adolescentes do sistema escolar.

“Estamos preocupados que a situação actual reduza o acesso (das crianças) a serviços essenciais e aumente a sua vulnerabilidade, fazendo com que se percam anos de progresso”, disse em Genebra o porta-voz do Unicef, Christophe Boulierac. “É claro que devemos aumentar as nossas actividades”, mas o principal obstáculo para isso é que os recursos financeiros são sempre escassos, lamentou o porta-voz.

Boulierac mencionou a necessidade de “vacinar mais crianças, protegê-las de doenças infecciosas e apoiar a sua nutrição”, citando apenas algumas áreas em que as crianças venezuelanas enfrentam dificuldades.

A Unicef trabalha na Venezuela sem dificuldades de acesso ou temores de desvio ou mau uso da sua ajuda. “Estamos livres para trabalhar, mas temos limitações relacionadas principalmente aos recursos que temos”, explicou Boulierac.

Desde o início do ano, a Unicef organizou a entrada de 55 toneladas de ajuda na Venezuela, principalmente suprimentos médicos — incluindo material obstétrico, antibióticos e tratamentos contra a malária — que foram distribuídos em 25 hospitais do país.

No ano passado, a ajuda humanitária fornecida pela agência da ONU totalizou 200 toneladas.

A Unicef reconheceu que há uma falta de dados confiáveis sobre a situação social na Venezuela, mas organizações internacionais determinaram que a mortalidade de crianças menores de cinco anos duplicou, de 14 por 1.000 nados-vivos entre 2010-2011 e para 31 por 1.000 nados-vivos em 2017.