Em Maio, os EUA detiveram cem mil migrantes na fronteira com o México

Agentes da Guarda Fronteiriça dos EUA dizem que o “sistema colapsou” e as condições de detenção são extremamente precárias. Mais de 144 mil pessoas foram detidas só no mês passado.

,Instituto Nacional de Migração
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Operação dos serviços de imigração mexicanos no estado de Chiapas, que faz fronteira com a Guatemala Jose Torres/REUTERS

Mais de 144 mil migrantes da América Central que tentaram entrar nos EUA sem documentação para o poder fazer foram detidos na fronteira em Maio, o que representa uma subida de 32% em relação a Abril, dizem estatísticas da Agência de Protecção Fronteiriça e Aduaneira (CBP) dos Estados Unidos. Foi mês com mais detenções desde que o Presidente Donald Trump tomou posse, e foi o número mensal mais elevado dos últimos 13 anos, de acordo com dirigentes da agência.

Maio foi o terceiro mês consecutivo em que as detenções superaram as cem mil, por causa de um número recorde de travessias ilegais de famílias com filhos, vindas da Guatemala e das Honduras. As instalações de detenção de imigrantes estão a “rebentar pelas costuras”, com adultos e crianças.

Das 144.278 pessoas detidas, 132.887 foram presas pelos agentes da Patrulha Fronteiriça depois de atravessarem a fronteira ilegalmente, e 11.391 foram consideradas “inadmissíveis” após chegarem a locais de entrada nos EUA.

“É uma emergência em larga escala. O sistema colapsou”, disse o comissário interino da CBP, John Sanders. A sua agência deteve mais de 680 mil pessoas a atravessar a fronteira nos últimos oito meses. O total é “superior à população de Miami”, sublinhou.

A maior parte dos pais que chega com crianças é rapidamente assistida e libertada nos EUA com uma data marcada para se apresentarem em tribunal, uma prática que os responsáveis de segurança interna caracterizam como uma lacuna no sistema explorada pelos migrantes usam para entrarem facilmente no país. A Administração Trump quer que o Congresso lhe dê autoridade para deter pais e crianças durante tempo suficiente para concluir os processos de imigração. Considera que estas libertações são o principal “factor de atracção” para a migração ilegal.

A subida histórica tornou-se numa fonte de frustração incessante para Trump, cuja Administração tem tentado travar os migrantes com tácticas cada vez mais duras. Agora, está a ameaçar o Governo do México de que aplicará taxas alfandegárias a produtos exportados para os EUA, se o país vizinho não fechar as portas aos migrantes que incomodam Washington.

"Nunca vi nada assim"

Os dirigentes da CBP descreveram o fardo que a onda migratória representa para os agentes e para as infra-estruturas, e discutiram as condições precárias das estações fronteiriças nos EUA, que muitas vezes têm uma ocupação bastante superior à sua capacidade de detenção.

A agência tem mais de 19 mil migrantes sob custódia, dizem os responsáveis, deixando as prisões da Guarda Fronteiriça tão lotadas que os detidos são obrigados a passar dias em condições sujas e apertadas, muitas vezes sem haver sequer espaço no chão para que se deitem, enquanto aguardam que o processo seja concluído. “Nunca vi nada assim e há 24 anos que faço este trabalho”, disse o chefe de operações da Guarda Fronteiriça, Brian Hastings.

As detenções da Guarda Fronteiriça atingiram o pico de 1,6 milhões em 2000, mas naquela altura a maioria dos detidos era homens adultos do México que rapidamente eram deportados. Agora, uma fatia sem precedentes consiste em famílias da América Central com crianças que não podem ser expulsas facilmente. De acordo com os dados da Segurança Interna, 98% das famílias que foram detidas na fronteira em 2017 continuam nos EUA.

As crianças que chegam com ou sem um dos pais identificado representaram cerca de 40% de todos os detidos pela CBP em Maio.

Os responsáveis da CBP dizem que os agentes fronteiriços passam metade do seu tempo a tratar de processos de imigração e a cuidar de famílias sob custódia, incluindo viagens frequentes a hospitais e clínicas. As autoridades dos EUA dizem que o fardo tem sido aproveitado pelos traficantes de droga e de seres humanos, que procuram contornar as barreiras, especialmente quando centenas de migrantes atravessam a fronteira ao mesmo tempo.

Na semana passada em El Paso, no Texas, uma fila única de 1045 pessoas atravessou o Rio Grande para se apresentar aos agentes norte-americanos, o maior grupo com que a Guarda Fronteiriça alguma vez se deparou.