Entrevista

José Ribeiro e Castro: “O partido que lutou para ficar à frente do PSD, luta agora para ficar à frente do PAN”

José Ribeiro e Castro foi presidente do CDS, é hoje muito crítico do seu partido e da incapacidade de o CDS falar com o PSD. Defende uma reforma do sistema eleitoral, porque “as pessoas estão em corte crescente com o sistema partidário”.

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Andreia Carvalho
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É contra a democracia “ketchup top down” - um sistema político que funciona de cima para baixo, uns mandam, outros obedecem. A reforma do sistema eleitoral que defende “seria a salvação do sistema democrático”, uma vez que os cidadãos afastam-se cada vez mais dos partidos “e nenhum escapa”. Em entrevista ao programa Hora da Verdade, que pode ouvir às 13h na Rádio Renascença, José Ribeiro e Castro acha que o pecado original da crise da direita foi nunca ter digerido a derrota de 2015. 

O Presidente da República disse que há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos. O dr. Ribeiro e Castro disse que o Presidente tinha arranjado um novo poder, que é o poder de “editor”. Quer explicar isso melhor?

O Presidente da República é Marcelo Rebelo de Sousa e não deixa de ser Marcelo Rebelo de Sousa por ser Presidente da República e isso tem marcado todo o seu mandato. Creio que não é a primeira vez que o Presidente da República entra a comentar a realidade. Aqui fê-lo no rescaldo de uma eleição que não correu bem para a direita. Em rigor, não correu bem para ninguém, porque os resultados são fraquinhos para todos.

Eu não me recordo de uma eleição em que os partidos todos têm valores abaixo do que as sondagens davam. Isto aconteceu nestas eleições. Mas obviamente que à direita o resultado foi bastante mau. Foi ao nível de 2014, o que se pensava impossível.

Chamou-lhe Presidente editor... 
Exercer o poder de editor...Quem se pode queixar serão as pessoas que estão abrangidas nessa declaração. Eu não me sinto abrangido. Já vi algumas reacções desagradadas, mas creio que não têm razão. Diversamente das previsões meteorológicas, as previsões políticas podem ser alteradas. E às vezes estas chamadas [de atenção] levam a uma correcção.

O que é grave, o que é sério para o PSD e para o CDS não é que o Presidente da República tenha feito um comentário correcto e, aliás, suave, apelando para o equilíbrio de poderes. O que é sério é que todas as sondagens consistentemente ao longo da legislatura dão a esquerda em alta e a direita em quebra

Como é que diz que não se sente abrangido por esta declaração? Já não é de direita?
Sou, mas sou um eleitor. Eu é que sou um comentador, nem sequer editor. Não sou um actor político. Agora, estou preocupado.

Quais foram os maiores erros da direita nestes últimos anos?
Tenho-o dito várias vezes e sempre com grande incompreensão no meu campo, que houve um pecado original na leitura dos resultados de 2015. Esta ideia de que a direita ganhou as eleições legislativas não é verdade. A PAF foi a força política mais votada, o PSD teve o maior grupo parlamentar, mas 38% não dá para ganhar eleições em qualquer sistema parlamentar. Ganhou no sentido de ser mais votada, mas não no sentido de poder retirar daí o poder de governar.

Creio que isso estragou sempre o discurso e a atitude. Deixou passar a ideia de um mau perder. Houve momentos brilhantes da oposição do PSD e do CDS, mas mesmo nesses momentos, como na crise dos incêndios, era possível fazer contra o centro e a direita o discurso de “ainda não aceitaram que perderam” que os trovadores da “geringonça” se encarregaram de fazer. E nós favorecemos esse discurso.

Jorge Moreira da Silva disse que a atitude lógica seria Rui Rio pôr o lugar à disposição de maneira a permitir nos próximos três meses uma renovação... da liderança. Era uma boa ideia?
Não. Não se abre uma crise de liderança a três meses das eleições. Se Rui Rio tivesse feito isso, seria uma demonstração de completa irresponsabilidade.

Em 2016 disse em relação à direita que estava a fazer o papel dos Marretas no camarote e nunca mais vinha a palco apresentar alternativas... Ainda há alternativas que possam ser apresentadas nos próximos três meses?
Também há outra coisa que tem funcionado mal que é o afastamento crescente que se foi gerando entre o PSD e o CDS. E a alternativa faz-se a dois, foi sempre assim. Concorrendo em listas separadas ou em listas conjuntas...

De quem é a culpa? Mais do CDS ou mais do PSD?
Creio que nesta altura é mais do CDS, que afirmou de uma forma mais agreste o [grito do] Ipiranga. Isso é legítimo, mas gera uma contradição no discurso contra a “geringonça”. Quando eu faço um discurso de Ipiranga relativamente ao meu parceiro, então isso torna-se a questão mais importante. E é difícil que as pessoas acreditem que a prioridade é combater a esquerda.

Há um discurso de diabolização da esquerda - os trotskistas, os comunistas... “é essencial ficar à frente do PCP e do BE”, um eco daquele discurso antigo do “vêm aí os russos” - que depois não bate certo com aquilo que é o desempenho estratégico mais importante de rearrumação do tabuleiro e alteração da relação de forças no espaço do centro direita. Creio que isso não foi muito feliz. Eu quando fui presidente do CDS também dizia que aspirava... Acho que qualquer militante do partido aspira a que o seu partido seja o maior. Agora, há outras formas de o fazer. E eu creio que esta tem sido demasiado assertiva. E termina, aliás, de uma forma que é uma ironia: o partido que lutou para ficar à frente do PSD, nesta altura luta para ficar à frente do PAN. É uma situação muito difícil.

Creio que é preciso ter clareza ideológica que às vezes tem faltado. E o programa. Esse programa será importante conhecê-lo. Rui Rio anunciou-o também. A esperança que existe depois do desaire das europeias é que o momento da apresentação desses programas e dessas medidas - e também a forma, a química das listas, que pacifiquem, que integrem, que mobilizem, que estejam entretecidas com as estruturas locais - sejam o momento de viragem que bem é preciso nesta altura. 

Como é que viu a campanha europeia do CDS? Nuno Melo afirmou-se mais à direita que Assunção Cristas?
Eu não vi isso. Acho muito difícil estabelecer distinções entre Assunção Cristas e Nuno Melo. Nuno Melo é o candidato escolhido por Assunção Cristas, é o primeiro vice-presidente do partido. Suponho que também participa nas grandes opções estratégicas... 

Disse uma vez que a cada crítica que a direita fazia à “geringonça” acabava por lhe fazer um favor a seguir. A crise dos professores foi o favor fatal à “geringonça"?
Foi. Foi um desastre nas duas fases. Foi um voto precipitado ao lado de Mário Nogueira e, depois, também foi um recuo precipitado que, com certeza, desgostou os professores que são do CDS. Eu, se fosse professor, ficava desapontadíssimo. Até podia não ser nogueirista e, como professor, ter reservas ao tipo de luta que estava a ser feita, mas sentir-me-ia desconsiderado e maltratado quando o meu partido vota a favor de uma coisa e depois vota ao contrário.

Sem nenhuma consideração de que estão ali pessoas em causa. Foi mau. Foi correcto o recuo, porque o erro tinha sido enorme, mas era preciso ter dado uma explicação. A ideia foi “vamos isolar o PS”, mas não se pode estar de braço dado com o Bloco e o PCP para não estar de braço dado com o PS. Não faz sentido nenhum. 

Onde andam os democratas-cristãos, que foram fundadores da União Europeia?
Em crise profunda, mas isso há bastante tempo. Houve necessidade de alargar o cobertor do PPE como partido alternativo ao grupo socialista e isso teve algumas vantagens, mas alterou a identidade.

Mas o que é que é a direita? O que é que é a alternativa ao socialismo? É só a questão dos impostos e do menos Estado? É outro modelo económico? Há na direita alguma coisa que distinga o dr. António Costa da dra. Assunção Cristas, o dr. Rui Rio, o dr. Santana Lopes?
As questões de esquerda e de direita são ainda muito marcadas pelo século XIX. À esquerda, em princípio, é-se favorável a mais Estado; à direita, é-se favorável a mais mercado. Mas há nuances e grandes choques à direita entre os liberais que, por exemplo, acham um crime de lesa-pátria que em Portugal exista um banco público, a Caixa Geral de Depósitos, ou que a Companhia das Lezírias seja do Estado. Eu acho isso perfeitamente normal.

Enquadro-me no quadro de uma economia social de mercado, que é o pensamento consagrado dos democratas-cristãos. É a família a que eu pertenço, onde me formei e desenvolvi. É curioso que os liberais que são muito contra a intervenção do Estado na economia depois não hesitem em chamar o Estado em seu socorro quando a economia privada estoira, como aconteceu com o sector financeiro e o sector bancário um pouco em toda a Europa.

Que frente é hoje possível para a direita? Rui Rio e Assunção Cristas não se juntam...
Eu creio que se têm que juntar. Ou então Marcelo Rebelo de Sousa está cheio de razão quando prevê nos próximos anos tempos muito difíceis para a direita. 

É defensor da mudança no sistema eleitoral. Acha possível no quadro existente que isso venha a acontecer?
É imperioso. É uma vergonha que não o façamos e que o sistema político não o faça quando está escrito na Constituição desde 1997. Considero inexplicável que vivamos num país onde há questões que vão ficando adiadas, umas 40 anos como a regionalização e esta questão da reforma do sistema eleitoral. E a realidade não cessa de confirmar a necessidade dessa reforma do sistema eleitoral. 

Estamos a falar da abstenção que acabámos de ver.
Mais do que isso, o desinteresse. A abstenção é um sintoma, não é o problema. As pessoas estão em corte crescente com o sistema partidário. Afastam-se cada vez mais de todos os partidos e nenhum deles escapa. Todos são atingidos. E isso já contamina as eleições presidenciais. Na última eleição presidencial, foi a primeira vez neste tipo de eleições em que se abstiveram mais eleitores do que os que votaram, É preciso reconectar os deputados com o eleitorado. Na democracia representativa os deputados são representantes dos eleitores, não representantes dos chefes. 

Mas é assim que funciona.
Sim, os nossos são representantes dos chefes. Passámos para aquilo a que eu chamo “democracia ketchup” - aquelas garrafas que estão na mesa das hamburgarias, que são top down, de cima para baixo, e não de baixo para cima. É essa religação que temos que fazer. Este sistema para que aponta a Constituição é mesmo genial, porque permite que os eleitores escolham os seus deputados, e não altera a proporcionalidade do sistema. Os partidos têm alguns receios, sem razão. Basta estudar a experiência da Nova Zelândia, a experiência da Bolívia, a experiência da Alemanha, onde este tipo de sistema existe - um sistema misto de representação - para ver que a representação proporcional dos partidos não é afectada minimamente.

O que é afectada é a forma como são definidos os mandatos que entram dentro da quota de cada partido. E aí o eleitor passa a ter, pelos círculos uninominais, uma palavra que conta relativamente a metade dos deputados da Assembleia. Não tenho a mais pequena dúvida que isso seria a salvação do sistema democrático. Esses deputados teriam mais poder, teriam mais voz, poderiam contribuir para a decisão colectiva. E hoje contribuem muito pouco. Hoje são actores de um guião que outros escrevem. E isso é muito mau porque permite que o nosso sistema esteja capturado por interesses.