Emma Frances/Unsplash
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O que fica para as gerações futuras? Tudo — desde que não nos afecte agora

Na teoria, os portugueses acreditam que devem ser deixados mais recursos para as gerações futuras. Mas 57,9% dos inquiridos para um estudo da Fundação Gulbenkian acreditam que essas gerações devem aprender a viver com menos recursos. Projecto quer mostrar o nível de justiça intergeracional em Portugal.

O que significa “justiça intergeracional”? Porquê pensar nas gerações futuras? O que deixamos hoje para amanhã? Estas são algumas das questões que a Fundação Calouste Gulbenkian quer colocar na ordem do dia. Para isso, lançou De hoje para amanhã, um projecto que quer promover, “junto dos decisores políticos e cidadãos, uma maior consciencialização sobre o impacto que os compromissos assumidos terão nas gerações de amanhã”. Será que os portugueses estão preocupados com o bem-estar das gerações futuras? Ou reina o “egoísmo”?

Sim — na teoria. 77% dos inquiridos concordaram que deve ser deixado um futuro com mais recursos para as gerações seguintes. No entanto, o estudo Preferências Intergeracionais da população portuguesa alerta: “É muito provável que os inquiridos tenham exacerbado as suas respostas, o que tende a acontecer sempre que os indivíduos são questionados sobre temas que podem envolver um juízo moral por parte do entrevistador.” Até porque quando são apresentadas medidas como o pagamento de mais impostos para que se tenha um meio ambiente sustentável para as gerações futuras, menos de um terço dos inquiridos concordam (24,5%). A solução? 57,9% das pessoas acreditam que as gerações futuras devem aprender a viver com menos recursos.

A Fundação vai fazer estudos, análises e propostas em diferentes áreas da política pública, “da habitação às contas públicas, passando por temas como o mercado de trabalho ou o ambiente”, que permitirão identificar desequilíbrios entre várias gerações. Todos os resultados poderão ser consultados e descarregados a partir do site do projecto. O primeiro estudo debruça-se, precisamente, sobre o quão intergeracionalmente justa é a sociedade portuguesa. 

A criação de um organismo estatal que defenda os interesses das gerações futuras é uma ideia bem recebida por 68% dos inquiridos. Até porque a falta de representatividade dos menores de 18 anos nas decisões políticas é sentida por 43,4% dos inquiridos e a “percepção dos inquiridos quanto à preocupação dos decisores políticos em defender as gerações actuais e futuras é, em geral, negativa”. Ainda assim, para mais de 70% dos inquiridos, a idade para votar deverá manter-se nos 18 anos — e apenas 8,86% concordam com uma mudança para os 16 anos.

Qual o futuro dos mais jovens?

56% dos inquiridos acreditam que quem nasceu depois de 1983 (e hoje tem menos de 35 anos) teve uma vida melhor a nível económico comparativamente à geração dos seus pais. Mas “quanto mais novos são os inquiridos, menos optimista é a sua opinião sobre a qualidade de vida das gerações mais jovens”. Provavelmente por “sobrestimarem as condições de vida do período anterior ao nascimento”, diz o estudo.

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O pessimismo dos mais jovens também se manifesta quando se fala de emprego, ainda que de 61% dos inquiridos de diferentes idades concordem que os nascidos depois de 1983 conseguem arranjar um emprego menos estável em comparação com as gerações anteriores. E sem emprego, não há casa: 56% acreditam que os mais novos têm menos facilidade em comprar uma casa — com os mais novos, mais uma vez, a percepcionar um cenário ainda mais pessimista.

E o que acontece quando for altura da reforma? 84,9% acreditam que a Segurança Social não vai conseguir dar aos reformados do futuro os mesmos benefícios que os de hoje têm. Mas aqui os jovens são mais optimistas: apenas 33% das pessoas que nasceram entre 1979 e 2000 vêem um futuro sem pensões.

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Por último — e “ao contrário do que seria esperado” —, quem tem mais de 65 anos acredita que, no caso de realização de um referendo com repercussões apenas daqui a 25 anos, nem todos deveriam poder votar. Pelo contrário, só 25,2% dos jovens entre os 18 e os 39 anos concordam que nem todos poderiam votar em semelhante plebiscito.

As conclusões do estudo apontam para resultados “interessantes, mas de alguma forma preocupantes” — perante o cenário de “egoísmo”. O estudo alerta para a necessidade de serem postas em prática “políticas públicas e soluções institucionais que afectem o bem-estar das gerações presentes”, para garantir a qualidade de vida das futuras. E avisa que há esforços a ser feitos: “A justiça intergeracional requer, assim, a disponibilidade em trocar bem-estar actual, o qual é mais ou menos certo, por bem-estar das gerações mais novas e futuras, cujo nível de incerteza associado é mais elevado.”