Porto

InstAleixo: nas torres ficaram as memórias, demasiado grandes para as novas casas

O projecto #InstAleixo entrou, uma última vez, nas torres do icónico bairro portuense e captou os objectos (e lembranças) deixadas para trás pelos moradores. 

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Deserto, silencioso, cinzento. Desprovido de moradores, o bairro do Aleixo entrou irreversivelmente em contagem decrescente, mas um grupo de instagrammers conseguiu aceder uma última vez às icónicas torres do bairro portuense e registar, com as objectivas, o que mil palavras não conseguiriam contar. Muito mais do que bens materiais, ficam as memórias de quem construiu lá uma vida, pautada por dificuldades e conquistas.   

“[Quando vimos as casas] ficámos com a sensação de ter passado por lá um tumulto. Encontrámos roupa, calçado, móveis, muitos livros que ficaram para trás. Fotografias, cartas, papel. Quando estamos em mudanças mais rápidas ou vamos para sítios mais pequenos, temos obrigatoriamente de nos desfazer de algumas coisas. No Aleixo sentimos muito isso, que as pessoas foram deixando para trás aqueles objectos e, mais do que isso, aquelas memórias que já não cabiam nos sítios para onde foram”, relembra Patrícia Costa (@doavesso) ao P3.

A primeira vez que o grupo visitou o Aleixo foi em Abril de 2015: dois anos após a demolição da torre 4, seis pessoas aventuraram-se pelo bairro onde poucos ousavam entrar. O tamanho das três torres que se mantinham de pé espelhava as preocupações dos moradores: mais tarde ou mais cedo, teriam de sair dali. Era irreversível.

Luís Octávio Costa (@kitato), um dos criadores do projecto #InstAleixo — hashtag onde são colocadas as fotografias do bairro — e jornalista do PÚBLICO, relembra as más condições dos prédios com que o grupo se deparou. “As pessoas viviam a sua vida normal, mas estavam incomodadas com a falta de condições dos prédios. Cada vez que um morador saía, a casa era vedada e emparedada. O prédio ia ficando cada vez menos habitável e mais monstruoso”, recorda.

Patrícia Costa chegou ao bairro em 2003 e, nesta última visita, não conseguiu evitar flashbacks dos tempos em que viveu no Aleixo. Um regresso à torre 1 era demasiado doloroso: “Honestamente, não consegui entrar na primeira torre nesta última visita. Fui muitas vezes enquanto lá trabalhava, ia buscar os miúdos e falar com as famílias. Senti que, se as outras [torres] já estavam a mexer tanto comigo, aquilo que iria encontrar lá seria ainda mais triste”.

Dos anos passados no bairro, a educadora social destaca a camaradagem entre os vizinhos que, segundo a própria, estavam sempre dispostos a ajudar: “Sempre me senti num sítio seguro, onde as pessoas estão atentas umas às outras e se apoiam mutuamente. Claro que era um bairro que, como todos os outros locais de habitação, tinha as suas questões. Mas, efectivamente, era um sítio lindo, com uma vista incrível, muita gente a dar bom nome ao bairro.”

Ao contrário das duas primeiras torres, os três edifícios que (ainda) sobrevivem não serão implodidos, mas sim “desmantelados” de forma gradual. Além de @kitato e @doavesso, também participaram neste #InstAleixo @alexcoelholima (Alexandre Coelho Lima), @eurico1983 (Eurico Amorim), @filipepinhas (Filipe Pinhas), @diogolage (Diogo Lage), @ligiaclaroo (Lígia Claro), @anitados7oficios (Ana Morais) e (insano_net) Rui Oliveira.

O grupo encontrou muitos brinquedos de criança
O grupo encontrou muitos brinquedos de criança @alexcoelholima
Vista para um das torres
Vista para um das torres @alexcoelholima
@alexcoelholima
Cartas antigas encontradas num dos edifícios
Cartas antigas encontradas num dos edifícios @anitados7oficios
Moradores deixaram alguns dos seus pertences para trás
Moradores deixaram alguns dos seus pertences para trás @anitados7oficios
@anitados7oficios
@diogolage
@diogolage
@diogolage
Alguns móveis de grandes dimensões não foram retirados das casas
Alguns móveis de grandes dimensões não foram retirados das casas @eurico1983
@eurico1983
@eurico1983
@filipepinhas
Álbum de fotografia
Álbum de fotografia @filipepinhas
@filipepinhas
@insano_net
@insano_net
@insano_net
Vista aérea do que sobra do bairro
Vista aérea do que sobra do bairro @kitato
@kitato
@kitato
Caixas do correio de uma das torres
Caixas do correio de uma das torres @ligiaclaroo
@ligiaclaroo
@ligiaclaroo
@ligiaclaroo
Algumas paredes dos prédios exibiam mensagens
Algumas paredes dos prédios exibiam mensagens @doavesso
@doavesso
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