Opinião

Um pouco mais de gravitas

Nas presentes circunstâncias o país precisa de um presidente com mais gravitas institucional orientada para a devida abordagem das questões de fundo que afectam a vida nacional.

1. Em Março de 1975, em Roma, no âmbito de um congresso da Associação Internacional para a Cultura Ocidental, Agustina Bessa-Luís proferiu uma comunicação em que a dado passo afirmou o seguinte: “Não há hoje praticamente ninguém que não esteja possuído da intenção pueril de ganhar a simpatia de um público. É a atitude que tomam as crianças por traumatismo da sua debilidade. O escritor quer agradar, o político precisa de agradar, o metafísico aspira a agradar. Esta subserviência que se instala numa fraude de desafectação, de impune demagogia, acaba por institucionalizar-se na pura superficialidade. E marca a agonia de uma cultura. A graça, contrário da exibição, alma sincera que persuade, desaparece. A civilização torna-se num método unicamente concebido para sobreviver.”

Não faço parte daqueles que conheceram e que privaram de perto com Agustina Bessa-Luís. Contactei com ela vaga e brevemente. O exacto tempo de um almoço em Amarante. Estavam outras pessoas à mesa, entre as quais um outro escritor extraordinário, e hoje pouco conhecido, Alexandre Pinheiro Torres. Contemplei-a mais do que a indaguei. Diante do génio impõe-se um certo cerimonial que, quanto mais não seja, é a expressão de um lúcido pudor. No momento da sua morte não ousarei divagar sobre a importância da sua obra, uma vez que outros muito mais habilitados do que eu já o fizeram de forma admirável, aliás, na maior parte dos casos. Apesar de tudo, sempre me ocorrerá dizer que ela foi, sem dúvida, um dos grandes espíritos do século XX europeu, uma das melhores intérpretes da cultura ocidental nas suas múltiplas e impressionantes metamorfoses contemporâneas, uma escritora de tal modo extraordinária que, como praticamente nenhum outro intelectual do seu tempo, se revelou exuberantemente prodigiosa na compreensão do humano desde o plano sociológico até à dimensão metafísica. Não tenho a certeza que uma autora tão impressionante possa suscitar, para usar as suas próprias palavras acima enunciadas, “a simpatia de um público”. Nesse sentido, talvez Agustina fosse simultaneamente intemporal e anacrónica, o que não significa que as suas palavras não nos ajudem a compreender o labiríntico mundo demasiadas vezes excessivamente superficial em que vivemos. Talvez fosse a nossa melhor escritora, mas foi decerto uma das nossas maiores pensadoras. Nesse plano foi tão desmedidamente grande que levaremos muito tempo até entendê-la em toda a sua plenitude.

2. O Presidente da República tem um problema de denominação simples: Marcelo. Sempre que se esquece de aprisionar o juvenil criador de factos políticos que há em si, as coisas tendem a correr mal. Marcelo Rebelo de Sousa é obviamente uma figura ímpar. Inteligente, culto, divertido, está muito acima dos padrões habituais na vida política portuguesa. Não é difícil compreender que ele sempre se tenha percebido como um predestinado. Ora, o problema dos predestinados na vida pública é que tendem a ficar de tal maneira dependentes do fascínio por si próprios que facilmente se tornam seres quase exclusivamente preocupados com o propósito de agradar permanentemente a um público. São uma espécie de acrobatas da inteligência predispostos aos mais insólitos exercícios gímnicos.

As considerações que o Presidente da República fez há poucos dias sobre a direita, a esquerda e o futuro têm suscitado diversas interpretações. Do meu ponto de vista, elas são pura e simplesmente inaceitáveis. Não compete ao Presidente da República pronunciar-se naqueles termos. Por muito menos Sá Carneiro e Mário Soares vergastaram furiosamente Ramalho Eanes.

É inadmissível que o Presidente da República no exercício das suas funções se pronuncie sobre o estado em que, do seu ponto de vista, se encontra a direita portuguesa. É ainda mais incompreensível que enuncie publicamente a antevisão de uma vitória da esquerda nas próximas eleições legislativas. Raia os limites do absurdo insinuar que a decisão de uma recandidatura dependerá da avaliação da necessidade da reposição de um equilíbrio entre a esquerda e a direita na vida institucional portuguesa. Literalmente, tal significaria que Marcelo Rebelo de Sousa só admitiria recandidatar-se na sequência de uma expressiva vitória da esquerda nas próximas eleições legislativas com o único propósito de se constituir numa espécie de contrapoder a partir do Palácio de Belém. Coisa que, aliás, nunca fez no decorrer do presente mandato.

Já aqui por várias vezes exprimi admiração pelo Presidente da República. Essa admiração subsiste. Contudo, não posso esconder uma relativa desilusão na apreciação da sua actuação presidencial. Esperava francamente que Marcelo Rebelo de Sousa tivesse tido nos últimos tempos uma acção mais eficaz na promoção de alguns entendimentos estruturais entre o PS e o PSD. Creio mesmo que esse tem sido um dos seus maiores falhanços, se tivermos em consideração que Rui Rio tem manifestado uma grande disponibilidade para a concretização de alguns acordos de regime com o Governo. Raramente um líder da oposição adoptou tal tipo de atitude. Competiria ao Presidente da República a criação de condições favoráveis à plena concretização de tais entendimentos. Nas presentes circunstâncias o país precisa de um presidente com mais gravitas institucional orientada para a devida abordagem das questões de fundo que afectam a vida nacional.