Dia D: já quase não restam veteranos para nos falar de sacrifício

As cerimónias dos 75 anos do desembarque na Normandia podem ser as últimas em que haverá alguém vivo para partilhar memórias. Trump vai discursar no cemitério onde jazem os dois filhos de Roosevelt mortos em duas guerras.

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O veterano Walter Hurd da Pensilvânia, visita o cemitério americano em Colleville-Sur-Mer SEBASTIEN NOGIER/EPA
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Os veteranos Richard Pelzer e George Chandler no Normandy American Cemetery and Memorial, em Colleville-sur-Mer CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS
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O veterano do Dia-D Frank DeVita presta homenagem aos mortos no cemitério americano em Colleville-Sur-Mer CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS
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Tropas aliadas desembarcando na Normandia BRITISH MINISTRY OF DEFENCE/EPA
,Segunda Guerra Mundial
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Homenagem a um soldado morto REUTERS

O filho mais velho do Presidente Theodore Roosevelt morreu em 1944, em França, um mês depois das tropas americanas terem chegado à Normandia. Apesar da artrite que o obrigava a usar uma bengala e dos problemas de coração que o levaram à morte, o brigadeiro-general Ted Roosevelt Jr. comandou o desembarque das tropas na Utah Beach: era o único general na primeira vaga de tropas.

Está enterrado junto ao irmão, Quentin Roosevelt, piloto de aviação abatido pelos alemães na I Guerra Mundial, no cemitério de Colleville-sur-Mer que, a cada cinco anos, troca a calma e a paz desse campo verdejante à beira de um penhasco pontuado de nove mil cruzes brancas e 150 cruzes de David pelo bulício de epicentro das comemorações do Dia D.

Habitualmente, o Presidente dos Estados Unidos discursa neste Normandy American Cemetery and Memorial a cada cinco anos, por altura das cerimónias que lembram o desembarque, onde o sacrifício dos soldados americanos pela liberdade é sublinhado.

Em 1984, Ronald Reagan exaltou “os rapazes de Pointe du Hoc” que sofreram pesadas baixas para conquistar aos alemães esse promontório altamente fortificado entre as mais famosas praias onde desembarcaram as tropas aliadas: baptizadas com os nomes de código de Utah e Omaha Beach. As outras chamaram-se Juno, Sword e Gold.

“O que vos impeliu a deixar de lado o instinto de autopreservação e arriscar a vida para conquistar estes penhascos?”, perguntou Reagan. “O que inspirou todos os homens dos exércitos que se encontraram aqui? Olhamos para vós e de alguma maneira sabemos a resposta. Foi fé e crença; foi lealdade e amor”.

Muitos anos antes, no final da I Guerra Mundial, Roosevelt, um mês depois da morte de Quentin e de outros dois filhos, Archie e Kermit, terem sido feridos em combate, escreveu que “não existe nada de melhor na nossa história que a forma ansiosa e de boa vontade como os nossos jovens foram para França lutar por um ideal maior”.

Este ano de 2019, quando se assinala o 75.º aniversário desse 6 de Junho em que as tropas aliadas desembarcaram nas praias da Normandia para inverter o curso da guerra, será um momento de transição na memória desse dia tão importante para a História da Europa e da humanidade. Daqui a cinco anos haverá já muito poucos veteranos para contar de viva voz os acontecimentos.

Que o Presidente dos EUA encarregue do discurso dos 75 anos seja Donald Trump não deixa de ser um sinal de como o mundo está hoje tão distante do sacrifício por ideais desses soldados que se voluntariaram para livrar a Europa do III Reich.

O chefe de Estado provocou em Novembro uma enorme polémica, em Paris, ao cancelar a sua presença numa cerimónia de homenagem a soldados americanos mortos em combate na II Guerra Mundial por causa das condições climáticas.

O mesmo Trump que beneficiou da sua condição de pertencer a uma família abastada para evitar o recrutamento militar cinco vezes, evitando assim combater no Vietname, chegou a insultar o senador republicano John McCain, que morreu no ano passado. “Ele não é um herói de guerra. Ele só é um herói de guerra porque foi capturado. Eu gosto de pessoas que não foram capturadas”, referiu o chefe de Estado sobre o veterano do Vietname, que passou seis anos num campo de prisioneiros.

A somar a isso, Trump e a sua Administração têm sido tudo menos favoráveis a duas das instituições que vêm garantindo desde 1945 a manutenção da paz numa Europa pouco habituada a tantas décadas sem conflitos continentais: a Aliança Atlântica (NATO) e a União Europeia.

Há pouco mais de três anos, em plena campanha eleitoral, Trump avisava que a NATO se tinha tornado “obsoleta” e, por causa disso, “é possível que tenhamos de nos livrar dela”. O argumento do então candidato e hoje Presidente é que os Estados europeus não investem na segurança e deixam os EUA a pagar a factura, ideia que esconde outra bem mais fundamental e consentânea com o pensamento político de Trump: a desconfiança no multilateralismo, a não ser com liderança norte-americana e os outros entregues a papéis secundários.

“A América é governada por americanos”, disse o Presidente dos EUA nas Nações Unidas, no célebre discurso em que conseguiu involuntariamente pôr toda a Assembleia-Geral a rir ao elogiar os feitos da sua Administração. “Rejeitamos a ideologia do globalismo e adoptamos a doutrina do patriotismo”, explicou.

Longe de ser o primeiro Presidente a adoptar uma política isolacionista – cujas raízes remontam ao discurso de despedida de George Washington, defendendo a não-intervenção dos americanos nos conflitos europeus –, “o instinto America First e a sua vontade em tornar públicas as diferenças com os comandantes militares diferencia-o de presidentes recentes e de muitos membros do seu próprio partido”, escreveu Niall Stanage no The Hill.

Em 2014, no septuagésimo aniversário, Barack Obama deixava esta interrogação retórica no seu discurso do Normandy American Cemetery and Memorial: “Que mais poderosa manifestação do compromisso americano com a liberdade humana que a visão de vaga atrás de vaga atrás de vaga de jovens a entrar nesses barcos para libertar pessoas que nunca tinham conhecido?”

No referido discurso de Trump na ONU, essa generosidade dos americanos pela causa da liberdade no mundo, soou tão distante como a Administração de Obama e de Trump podem ser. “Nunca mais ninguém se aproveitará dos Estados Unidos”, afirmou o actual chefe de Estado. “A política americana de um realismo baseado em princípios não será refém de velhos dogmas, ideologias desacreditadas e dos ditos especialistas que ao longo dos anos se enganaram uma e outra vez. Isto é verdade não só em termos de paz, como em termos de prosperidade.”