Trump já começa a usar o trunfo cubano para ganhar a Florida

Restrições de viagens a Cuba decididas poucos dias antes do Presidente dos EUA anunciar a sua recandidatura presidencial na Florida, estado essencial para a estratégia da reeleição e onde o voto cubano-americano pode ser decisivo.

Um carro com turistas passa junto ao porto de Havana, com um navio de cruzeiro ao fundo
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Um carro com turistas passa junto ao porto de Havana, com um navio de cruzeiro ao fundo Alexandre Meneghini/Reuters

A Florida “é essencial para vitória” de Donald Trump, garantiu um dos responsáveis da campanha eleitoral de Trump à CBS. A equipa que está a trabalhar para a reeleição do Presidente considera o estado “muito” importante, “essencial para a vitória” de Trump em 2020, ao ponto de na divisão do país em oito regiões políticas terem atribuído uma delas só para a Florida.

Com o comício de anúncio da recandidatura marcado para o dia 18 de Junho no Amway Center de Orlando, tal como o Presidente americano divulgou no seu Twitter na sexta-feira, a decisão de restringir o turismo dos Estados Unidos em Cuba, conhecida esta terça-feira, parece uma decisão mais em função da política interna que para alcançar resultados positivos em matéria de política externa.

“Subitamente e decisivamente, na terça-feira, a Administração Trump acabou com a forma mais popular nos EUA de viajar para Cuba proibindo os navios de cruzeiro de atracar na ilha – castigo ao apoio de Cuba ao regime ilegítimo da Venezuela”, escreveu em editorial o jornal Miami Herald, regozijando-se com a acção mais dura de uma Administração americana em relação a Cuba desde “os anos de Ronald Reagan”.

O Departamento de Estado justificou a proibição das visitas turísticas em grupo com o facto de estarem a servir “para encher os bolsos dos militares cubanos, que são as mesmas pessoas que apoiam Nicolás Maduro na Venezuela e que reprimem o povo cubano na ilha”.

Tanto o senador Marco Rubio, da Florida, que disputou com Trump a candidatura republicana à presidência em 2016, como Orlando Gutiérrez Boronat, presidente do Directorio Democratico Cubano, mostraram-se satisfeitos pela decisão do Governo, por considerarem que o dinheiro do turismo não estava a ser canalizado para os cubanos, mas para as altas figuras do regime.

“Os fundos do turismo imoral não voltarão a encher os bolsos dos seus repressores”, disse Gutiérrez, citado pelo site Diario de Cuba. Enquanto Rubio escrevia no Twitter que as “mudanças priorizarão a categoria ‘apoio ao povo cubano’ nas viagens dos EUA para Cuba. Isso levará os visitantes para os alojamentos geridos por cubanos, desviando-os dos resorts geridos pelo regime”.

No entanto, como refere Collin Laverty, presidente da Cuba Educational Travel, uma das agências americanas que organiza viagens para Cuba, a justificação é apenas uma desculpa para disfarçar as intenções internas da decisão, que visam essencialmente fazer campanha política para conquistar um estado tão importante como a Florida, um dos chamados swinger states, por ser daqueles cujo desfecho é imprevisível, podendo dar a vitória a republicanos e democratas.

“Isto não tem nada a ver com dar mais poder ao povo cubano e tem tudo a ver com dar mais poder a uma mão-cheia de pessoas na Florida que nunca estiveram em Cuba”, explicou Laverty ao site Raw Story. “Este apelo político visando a Florida e a corrida eleitoral de 2020 é muito infeliz para os milhões de cubanos que sentirão o impacto da diminuição de visitantes dos EUA”, acrescentou.

Impacto

De acordo com os dados do Governo cubano, 1,9 milhões de turistas visitaram a ilha nos primeiros quatro meses de 2019, uma subida de 7,2% na afluência de turistas por comparação com o ano passado. Os turistas dos EUA foram o segundo maior contingente a visitar Cuba até ao final de Abril, a seguir ao Canadá: os 257.500 visitantes corresponderam a uma quase duplicação (93,5%) em relação a igual período de 2018. E mais de metade (55%) desses turistas chegou em cruzeiros.

“Isto é um golpe fatal para nós”, disse à Reuters Lázaro Hernández, que passeia turistas por Havana no seu Chevrolet dos anos 1950 a troco de 30 dólares por hora. “Se não há turismo, não trabalhamos”, acrescentou.

“Sobrevivemos com os cruzeiros. Acho que se acabam com os cruzeiros, acabam os negócios aqui também”, desabou à Efe Yoasi García, que gere uma loja de recordações junto à basílica de São Francisco de Assis, em Havana.

A abertura levada a cabo pela Administração de Barack Obama trouxe os primeiros navios de cruzeiro dos EUA em 2016 e as lojas e os negócios dos chamados cuentapropistas (que trabalham por conta própria) revitalizaram as zonas mais turísticas de Havana Velha. Desde restaurantes com ecrãs gigantes até estúdios de artistas, passando pela cabeleireira Yolaina que tem a sua banca junto à basílica onde faz tranças e caracóis nos cabelos das turistas, todos usufruem da chegada de mais estrangeiros.

A proibição agora imposta por Washington – que se estende às visitas culturais e educativas de contacto com o povo cubano, que se denominam em inglês de people to people – poderá reduzir em dois terços o número de visitantes dos Estados Unidos, de acordo com os cálculos de William LeoGrande, especialista em Cuba da American University, em Washington, citado pela Reuters.

Se o turismo, segunda fonte de divisas de Cuba, já vinha sentindo o reflexo da chegada de Trump à Casa Branca, com a diminuição de 5% em receitas em 2018, o desaparecimento dos cruzeiros de americanos do porto de Havana poderá ter um impacto negativo de 10% a 20%, dizem especialistas.

Em Abril, o ex-Presidente Raúl Castro, que ainda é o primeiro-secretário do Partido Comunista, já tinha alertado para um novo período de escassez e dificuldades económicas pelo tom “cada vez mais ameaçador” do Governo dos EUA. E o actual chefe de Estado, Miguel Díaz-Canel, referia que as relações bilaterais estavam no “seu pior nível em décadas”.

Mas, como sempre, mesmo com a ameaça de dificuldades económicas a pairar no horizonte, Castro repetia no Parlamento aquilo que os Castro têm feito sempre face a 60 anos de sanções dos EUA, o incentivo à resistência face ao inimigo: “Cuba já demonstrou que pôde, pode e poderá sempre resistir, lutar e alcançar a vitória”.