Quando padres assumem paternidade: “primeiro as pessoas e não a instituição”

Diocese do Porto fala em assumir erros e garantir bem-estar das crianças. Conferência Episcopal não tem orientação oficial para estes casos, mas segue directrizes do Vaticano.

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Sandra Ribeiro

Um padre com dois filhos, as paróquias que desconheciam o caso, uma história longe de ser a única sobre um tema que até pouco tempo atrás era tabu. O Jornal de Notícias noticiou neste sábado a história de Manuel Sousa, responsável por três paróquias no concelho de Lousada, pai de duas crianças de diferentes relações e que durante cinco anos escondeu essa parte da sua vida dos seus congregados. A situação, contrária ao voto de celibato imposto aos padres da Igreja Católica, já está a ser analisada pela Diocese do Porto, em linha com o Vaticano.

O pároco, natural de Penafiel, assumiu a paternidade de ambos os filhos. Ao JN, amigos e conhecidos traçam o retrato de um pai carinhoso. Uma moradora da freguesia de origem de Manuel Sousa afirma que “todos conhecem a história de pelo menos um dos filhos do padre”; um amigo deste diz mesmo: “assumiu o que aconteceu e não vejo que haja problema”. 

Para a Diocese do Porto, contudo, a gestão da situação é mais delicada. O padre Jorge Duarte, director do gabinete de Comunicação da Diocese do Porto, explica que tem havido diálogo entre o pároco de Lousada e o bispo do Porto, D. Manuel Linda. A decisão, que cabe à Diocese do Porto, será tomada tendo em conta também a vontade de Manuel Sousa. 

Mesmo com autonomia para decidir, o bispo do Porto tem mantido contacto com Roma, por onde outros casos deste género têm passado. “Felizmente, não é um caso que apareça todos os dias”, desabafa Jorge Duarte. A decisão deverá ser comunicada publicamente pela diocese sem grandes demoras, “por respeito ao próprio e por respeito ao povo”. Poderá deixar o ministério sacerdotal (e assumir uma relação com a mãe de um dos filhos, se for o caso), ser dispensado das suas paróquias ou ali continuar como padre (cumprindo o voto celibatário) mas mantendo a responsabilidade de pai, se bem que Jorge Duarte reconheça que essa conciliação possa ser “difícil”.

Uma coisa é certa: “Não pode haver encobrimento”. O padre Jorge Duarte fala nas orientações que emanam do Vaticano, uma mudança de paradigma em particular desde a chegada do Papa Francisco: “Até agora punha-se em primeiro lugar a instituição, o bom nome, escondia-se esses casos. Hoje, a preocupação da Igreja nessas situações é pôr primeiro as pessoas e não a instituição.” Até porque, nota, “dá mais credibilidade assumir os erros do que tentar encobri-los”.

No caso de padres que têm filhos, explica, isto passa por não haver “silenciamento” dos casos, como se nada se tivesse passado. “Assumir quer o próprio, quer a Igreja, os erros que humanamente se vão cometendo.” Além disso, recorda, “tudo o que a Igreja diz na sua doutrina sobre uma paternidade responsável também se aplica ao padres”, o que implica que assumam todos os compromisso da paternidade: “não é só dar o nome no registo, é também na educação, nas despesas, na presença, para que a criança não cresça com a noção de que é filha do pecado.”

Também Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), refere que o que conta são as directrizes da Santa Sé de que a prioridade “é sempre o bem da criança”. Trata-se de orientações que, não sendo confidenciais, são para referência interna, apesar de terem sido publicamente assumidas numa entrevista ao cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero​, em Fevereiro deste ano.

No final de 2017, um caso semelhante foi notícia na Madeira. A Diocese do Funchal acabou por anunciar que o pároco da freguesia do Monte, que assumiu publicamente a paternidade de uma criança, tinha sido dispensado e substituído por outro padre, embora continuasse a exercer o ministério sacerdotal.