Paulo Pimenta

Resende, um filão de cerejas

São sensíveis, redondas e efémeras, firmes e suculentas, gostam de companhia e são como as conversas. Estão espalhadas pelo Douro e pelas encostas da vila de Resende. Exibem-se por estradas sinuosas — como arcos coloridos que anunciam uma festa. Qual é a coisa, qual é ela?

Helena anda com a asa do balde presa no braço como uma bolsa. Engancha-a às vezes num galho da cerejeira para aliviar o peso e ganhar liberdade de movimentos — duas mãos trabalham melhor do que uma. Clara circula pelos corredores com uma escada de alumínio, que encaixa mais ou menos a olho no emaranhado de árvores. Zeza usa uma vara para puxar as trepas. “Parte a trepa, mas não caias tu”, ouve-se entre risos. “Pega-se no talo e faz-se assim, com rapidez”, demonstra Maria Fernanda, produtora, cinco hectares de cerejal virados a norte, rio Cabrum lá em baixo, o Douro à vista.