Estado tentou comprar obra de Josefa de Óbidos mas não conseguiu

Pintura foi vendida num leilão na Alemanha por 220 mil euros. Verba que a Direcção-Geral do Património Cultural tinha disponível não terá chegado para bater a concorrência.

A pintura leiloada hoje em Bona
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A pintura leiloada hoje em Bona DR

A Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) entrou na corrida mas ficou para trás no leilão de uma obra de Josefa de Óbidos que foi à praça este sábado em Bona, na Alemanha, com uma base de licitação de 25 mil euros. A informação foi dada ao PÚBLICO por fonte da DGPC, entidade encarregue de licitar em nome do Estado. Verba disponível não terá chegado para bater a concorrência.

Fonte da leiloeira Plückbaum, responsável pela venda, garantiu ao início da tarde de sábado que a obra foi arrematada por 220 mil euros, mas declinou qualquer pedido para identificar o comprador. Garantiu apenas que tinha sido muito disputada, tanto na sala como por licitadores ao telefone. Havia coleccionadores portugueses e estrangeiros interessados, acrescentou.

Trata-se de uma pequena obra de temática religiosa, datada de 1667 e assinada pela célebre pintora do barroco português, que nasceu em Sevilha como Josefa de Ayala Figueira, filha do também pintor Baltazar Gomes Figueira, mas viveu e trabalhou sobretudo na região de Óbidos.

É uma pintura sobre cobre do tamanho de uma folha A4 em que se vêem a Virgem Maria e o Menino Jesus junto a três mulheres e duas crianças, numa cena em que a artista, muito habituada a trabalhar neste suporte e nesta escala, imagina um momento de descanso na fuga da sagrada família para o Egipto. E era até aqui desconhecida dos historiadores de arte e dos coleccionadores.

Esta Virgem com o Menino de Josefa de Óbidos, pintura em que é visível ainda, no canto inferior direito, uma delicada natureza-morta semelhante a tantas outras que pintou ao longo da sua carreira, uma carreira muitíssimo invulgar para uma mulher da sua época, integrou um leilão que tinha no menu obras de Marc Chagall ou Pieter Coecke van Aelst, porcelanas de Meissen e tapeçarias orientais do século XVI.

Como já seria de esperar, o PÚBLICO não conseguiu apurar o montante — nem os critérios que foram ponderados na definição desse valor — que a DGPC estava disposta a investir nesta pintura, cuja aquisição foi sugerida pelo Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), instituição que tem 15 obras de Josefa de Óbidos (1630-1684) na sua colecção, algumas pinturas sobre cobre de pequenas dimensões, como esta. Entre as Josefas do MNAA, que em 2015 lhe dedicou uma grande exposição (Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português), estão um Menino Jesus Salvador do Mundo, uma Adoração dos Pastores e um Casamento Místico de Santa Catarina que pertenceu ao rei D. Luís I.

Nos últimos anos a pintura de Josefa de Óbidos parece despertar grande interesse no mercado, atraindo os coleccionadores, essencialmente portugueses. A Penitente Madalena Consolada por Anjos foi comprada em 2015 por iniciativa de um antiquário de Paris com ascendência portuguesa, Philippe Mendes, custou 236 mil euros e está hoje no Museu do Louvre, em Paris. A Sagrada Família com São João Baptista, Santa Isabel e Anjos foi arrematada no ano seguinte por 228 mil, estando hoje exposta no Museu da Misericórdia do Porto. Ao contrário da pintura vendida este sábado em Bona, que tinha uma base de licitação muito modesta, as ofertas destas duas obras, ambas leiloadas em Nova Iorque, começavam nos cerca de 180 mil euros.