Marcelo quer a “coesão social e a ética mais presente em Portugal”

Numa conferência no Porto, o Presidente da República falou do poder local “muito próximo das pessoas, isento, honesto, transparente e eficaz”.

Presidente da República presidiu à Grande Conferência do JN, no Porto
Foto
Presidente da República presidiu à Grande Conferência do JN, no Porto LUSA/JOSÉ COELHO

Numa altura em que o país se debate com vários casos de corrupção e de uma gestão menos clara da coisa pública, o Presidente da República alerta para a necessidade de existência de uma ética (“republicana” ou “constitucional”) e chama a atenção para a importância de se reforçar a democracia portuguesa, porque “só com uma democracia fortalecida se pode combater os populismos”.

Na sessão de abertura da Grande Conferência do Jornal de Notícias, esta sexta-feira, no Porto, âmbito do seu 131º aniversário, intitulada Portugal ao Espelho: Perspectivas e Oportunidades em Ano de Mudança, Marcelo Rebelo de Sousa elencou os vários pilares básicos em que assenta a democracia portuguesa e deu particular importância à coesão social, embora o poder local democrático seja o primeiro dos sete pilares que enumerou.

Numa intervenção em que destacou as múltiplas formas de populismos, o chefe de Estado apelou a uma democracia mais assente na “coesão social” e na “ética pessoal e social”. Para o Presidente da República, “a ética, avessa às corrupções, aos ensimesmamentos, aos entropismos do poder absoluto, representa o verdadeiro penhor das instituições e dos seus titulares, e, portanto, a democracia que queremos melhor e cada dia que passa”.

Antes de se deter no poder local, Marcelo fez um apelo: “Que a coesão social, e sobretudo, a ética pessoal e social, possam estar cada vez mais presentes em Portugal. Seria um magnífico sinal que na nossa democracia de 45 anos de vida”.

Na semana em que dois presidentes de câmara socialistas foram detidos pela Polícia Judiciária por indícios de corrupção e tráfico de influências, Marcelo reivindicou “um poder local que seja enraizado e sólido, muito próximo das pessoas, isento, honesto transparente, eficaz, mas que tenha meios adequados ao que dele se espera”. Um outro pilar da democracia, segundo o Presidente, são as instituições de solidariedade social “por continuarem a fazer o que ninguém faz por elas”, e os parceiros sociais e políticos, capazes de divergir, mas também de convergir em matéria de regime naquilo que é estrutural para o país.

As Forças Armadas, “respeitadas pelo poder político e prestigiadas interna e externamente”, e as forças de segurança, “portadoras e merecedoras da confiança dos portugueses” fazem parte dos pilares da democracia a que Marcelo deu destaque. E porque a Grande Conferência do JN tem a ver com comunicação social, o Presidente da República deteve-se no tema, afirmando que ela deve ser “livre, corajosa e crítica, mas que, para o ser, precisa de não viver sempre nos limites “da incerteza, da falta de recurso mínimos para desempenhar a sua função social”. Marcelo coloca a sociedade civil forte na base da pirâmide os pilares da democracia, a qual tem de ser “baseada no reconhecimento do papel insubstituível da iniciativa privada na criação e riqueza, indispensável à sua repartição no combate à pobreza e ao seu risco e na superação das injustiças e desigualdades sociais”.

Os populismos atravessaram o discurso do Presidente da República e antes de se deter em cada um deles, tratou de enviar alguns recados para aqueles que vêem no “contacto mais directo entre governantes e governados, de maior sensibilidade aos media clássicos ou as redes sociais, para cimentar ou reformular legitimações de exercício, com ou sem alegado carisma”, uma forma de populismo. De seguida explicou o que entende por “populismo formal ou de estilo”, que para si é antes de mais “proximidade dos cidadãos”. Depois, deteve-se a explicar o que é o populismo radicado no discurso contra as instituições vigentes (…) a que chamou “populismo doutrinário, retórico, discursivo (…)” e o “populismo estratégico”.

“Os exemplos já conhecidos lá fora do chamado ‘populismo estratégico’ e a multiplicação do dito ‘populismo retórico’ explicam a razão de ser da chamada de atenção das causas que tenho repetido para as causas que os geraram e para a necessidade de que essas causas sejam prevenidas e evitadas cá dentro”, declarou Marcelo. E de acordo com o Presidente, é aqui que entram “a pobreza, o risco de pobreza, as desigualdades, as crises económicas e sociais, mas também a distância entre eleitos e eleitores, as sobrancerias, os deslumbramentos, os fechamentos, os clientelismos de toda a ordem, as autocontemplações, os esvaziamentos faz instituições e da sua credibilidade”. “Este é um desafio diário que exige uma visão de longo prazo”, concluiu o Presidente da República.