Já lá vão 100 anos do Sporting Club da Cruz continua à espera de novas instalações

Clube com uma forte vertente social está há anos à espera de um novo estádio. Nesta sexta-feira comemora o seu centenário, continuando no mesmo campo pelado que conseguiu em 1926.

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Quando o Sporting Club da Cruz nasceu no Outeiro, freguesia de Paranhos, no dia 19 de Maio de 1919, o objectivo era possibilitar a prática de futebol à população residente na zona. O Porto era na altura uma cidade em rebuliço: meses antes, tinha vivido 25 dias como capital do país durante a Monarquia do Norte, a última grande manifestação monárquica em Portugal.

Em dias de celebração do centenário, o Cruz continua a cumprir a missão a que se propôs na altura da fundação, sempre com o objectivo paralelo de transformar “miúdos em homens”. À forte vertente social e desportiva também se juntou um lado cultural mais recente, com a criação de um grupo de teatro.

O clube começou apenas com futebol, e passou a contar com instalações próprias em 1926 – as mesmas que servem o clube em 2019 - mas não tardou a abrir-se a outros desportos: o crescimento do Cruz fez aparecer, a partir da década de 40, modalidades como o atletismo, o basquetebol, o andebol de onze, o ténis de mesa, entre outras. Anos mais tarde, chegou a ser um dos primeiros clubes do país a incluir uma secção de futebol feminino.

Actualmente, funciona apenas o futebol masculino, o atletismo, e o teatro, que surgiu com a criação do Grupo Cénico da Cruz, em 1992. Se o futebol está activo desde a fundação, o atletismo teve uma história mais atribulada, com vários encerramentos da secção ao longo dos anos, contando agora com dois atletas a representar as cores do clube.

Apoio à comunidade condicionado pelas instalações

A dimensão social é a área de acção mais importante do clube, conta Luís Silva, vice-presidente do Sporting Club da Cruz, ao PÚBLICO. O clube é, segundo Luís, “o único da área do Grande Porto em que nenhum miúdo paga mensalidade”: “sobrevive” para dar oportunidade a todos os jovens de jogar futebol. Tem equipas em todos os escalões de formação: quase 120 atletas dos benjamins aos juniores, com crianças e jovens de vários bairros sociais e instituições da freguesia de Paranhos e arredores. Também conta com uma equipa sénior, a competir na II Divisão Distrital da Associação de Futebol do Porto, em que “80 a 90% do plantel são jogadores que vêm da formação do Cruz”.

Fora das quatro linhas, o clube presta apoio aos atletas através da Associação Cultural e de Apoio Social do Sporting Clube da Cruz, uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) formada em 2010. A IPSS fica na Rua Costa Cabral, perto do estádio da Rua da Fonte do Outeiro, e não está sediada nas instalações do clube por falta de condições. As infra-estruturas têm mais de 90 anos e o campo é “um pelado de dimensões minúsculas”.

Segundo Luís Silva, a Câmara Municipal do Porto (CMP) apresentou em 2017 “um projecto para novas instalações”, com espaço para a IPSS e para o Clube Cénico. O projecto para a construção do Complexo Desportivo do Outeiro pode ser encontrado no Plano Director Municipal da CMP. No entanto, Luís Silva afirma que a Câmara apenas adianta que está em processo de “aquisição de terrenos” para avançar com a construção, não adiantando mais informações. Está previsto que o Complexo Desportivo do Outeiro esteja aberto a todos os clubes da cidade que pretendam usufruir do estádio.

O projecto do Sporting Club da Cruz está “muito dependente” das novas instalações, que ainda não existem “porque ninguém apoia [o clube], nem temos condições para isso”. “É um pouco cortar as pernas e não nos deixarem crescer”, acrescenta o vice-presidente.

A Federação Portuguesa de Futebol tem em curso um processo de certificação de clubes de formação, que o Cruz não conseguirá cumprir se não tiver novas instalações. Luís Silva adianta que, se não houver avanços nesse capítulo, o trabalho do clube vai ser “inglório”, uma vez que perdem os direitos de formação dos atletas se não conseguirem a certificação. “O que o Cruz faz é dar oportunidade a todos os jovens de jogar, e isso tem tendência a acabar, infelizmente, porque com estas exigências que estão a ser criadas fica complicado”, lamenta Luís.

O PÚBLICO questionou a câmara sobre o assunto mas não obteve resposta.

A intenção da Câmara do Porto não é recente: no livro O Clube dos Rapazes do Outeiro, lançado na altura da celebração dos 90 anos do clube e que conta a história do Cruz, há referência a uma notícia de 1997 no Jornal de Notícias que dava conta da vontade do município de construir “instalações desportivas adequadas” para o Sporting Club da Cruz. Um desejo que Luís Silva espera ver cumprido, agora que o clube chegou aos 100 anos: “Os nossos miúdos, embora não paguem, também merecem ter as mesmas condições que outros que podem pagar têm.”

Texto editado por Ana Fernandes