Projecto prepara “casas” de lince-ibérico em Portugal e Espanha

O lince-ibérico está “criticamente em perigo” e o atropelamento é a sua principal causa de morte. Para o ajudar, há que melhorar os seus habitats e monitorizar as populações existentes — e é esse o objectivo do projecto Pro-Iberlinx.

lince ibérico
Foto
Fotografia de arquivo datada do dia 13 de Maio de 2016, da libertação de um lince-ibérico Mistral, no Monte do Milhouro (Herdade da Cela), em Mértola que ilustra o texto sobre a reprodução de coelho-bravo na Coitadinha, uma das acções do projecto Pro-Iberlinx LUSA/NUNO VEIGA

Em plena luz do dia, não há coelhos-bravos à vista. É culpa dos seus hábitos nocturnos, que faz com que estejam recolhidos nas tocas artificiais existentes num dos cercados de reprodução da espécie na Herdade da Coitadinha, no concelho de Barrancos, no Alentejo.

No cercado, protegidos de predadores e com alimentação, água e vacinação garantidas, vivem exemplares de coelho-bravo, espécie quase ameaçada e que é a presa principal e a base de alimentação do lince-ibérico.

A reprodução de coelho-bravo na Coitadinha é uma das acções do projecto Pro-Iberlinx — Protecção e Conservação do Lince-Ibérico, que envolve sete entidades portuguesas e espanholas e um investimento de 1,3 milhões de euros, co-financiado em 75% pelo Programa de Cooperação INTERREG V A Espanha — Portugal (POCTEP) 2014-2020 e em 25% pelos parceiros.

O Pro-Iberlinx pretende dar um contributo para que o lince-ibérico, espécie com o estatuto de conservação de “criticamente em perigo” em Portugal e Espanha, possa vir “a andar aí de outra maneira e com um risco menor”, explica à agência Lusa o coordenador do projecto, Diogo Nascimento, após uma visita ao cercado.

Em Portugal, precisa, o projecto desenvolve acções de preparação, gestão e melhoria de habitat em áreas nos concelhos de Barrancos e Moura, distrito de Beja, e de Monchique e Silves, distrito de Faro, para poderem ser “casas” de lince-ibérico, ou seja, territórios de soltas na natureza e de fixação de exemplares libertados noutros locais, caso dispersem para aquelas zonas.

Em Espanha, o projecto, além de desenvolver acções de preparação, gestão e melhoria de habitat, segue e monitoriza a população de lince-ibérico que vive na natureza na região espanhola da Extremadura.

Segundo Diogo Nascimento, “há registos de linces que dispersaram para muitos lugares da península Ibérica e depois vão ter de se fixar em algum território”.

Atropelamento é principal causa de morte

“Se tivermos os territórios adaptados e preparados, tanto melhor, para evitar que essas deslocações sejam muito longas, porque, nesses percursos que os linces fazem, há sempre o risco de atropelamento, que é a principal causa de morte do lince e é de evitar”, explica.

Por outro lado, as soltas de lince-ibérico na natureza realizadas desde 2014 em Portugal têm decorrido no vale do Guadiana, sobretudo no concelho de Mértola, distrito de Beja, a cargo do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, que segue e monitoriza a população a viver em liberdade.

“Mas, para efectivamente conseguirmos inverter a tendência do risco de extinção da espécie, temos de encontrar outras zonas preparadas e adaptadas para que próximas soltas possam ocorrer noutros locais” em Portugal, defendeu Diogo Nascimento.

Segundo o coordenador, as acções desenvolvidas através do projecto são “múltiplas” e dependem “do estado de desenvolvimento de cada um dos territórios”.

Nas herdades da Coitadinha e da Contenda, que são as áreas abrangidas nos concelhos de Barrancos e Moura, respectivamente, uma das acções é a reprodução de coelho-bravo para aumentar a população e há vários cercados onde vivem exemplares da espécie.

Durante a visita de Diogo a um dos cercados que existem na Coitadinha, propriedade da Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA), apenas se conseguiu avistar um coelho-bravo, que apareceu tão rápido como desapareceu no meio da vegetação.

“Apesar de ter uma taxa de reprodução muito rápida”, o coelho-bravo “é susceptível a algumas doenças”, como a mixomatose e a doença hemorrágica viral, e, por isso, “a população tem tendência a oscilar muito ao longo do tempo”, conta Diogo.

PÚBLICO -
Foto
NUNO VEIGA/LUSA

Nos cercados, são dadas “condições de refúgio, alimentação e vacinação” aos coelhos para que “possam ser resistentes às doenças” e, assim, conseguir-se “aumentar” a densidade da espécie.

“É preciso conhecer em pormenor quais as densidades de coelho que o território tem”, porque “só com as densidades mínimas adequadas é que se poderá pensar num território que seja capaz de receber uma população de lince”, frisa o coordenador.

Há registos de presença de lince-ibérico na Coitadinha em 2009 e a herdade, por questões históricas e pelas suas características, é território “propício para que as populações [de lince-ibérico] se possam fixar”.

Já na Contenda, a densidade de coelho-bravo foi “altíssima” e “favorável” à presença de lince no passado, mas actualmente é “reduzidíssima”, conta à Lusa João Cordovil, o director da herdade, propriedade da Câmara de Moura.

Por isso, frisa João, o aumento da densidade de coelho-bravo na Contenda é “uma prioridade absoluta”.

À medida que há densidades “significativas” nos cercados, alguns coelhos-bravos são transferidos para parques de adaptação ou libertados em áreas abertas das herdades onde também há tocas artificiais e é distribuída alimentação regularmente, explica João.

PÚBLICO -
Foto
NUNO VEIGA/LUSA

“Ainda falta um bocadinho” para haver densidades de coelho-bravo que permitam que a Coitadinha e a Contenda possam ser territórios “a considerar” para futuras soltas de lince-ibérico, diz Diogo.

Além da reprodução de coelho-bravo, o projecto inclui acções de sensibilização da comunidade e outras medidas de melhoria de habitat em áreas abrangidas, como desmatações, sementeiras de culturas para fauna e plantações de árvores para criar áreas de refúgio.

Os parceiros portugueses do Pro-Iberlinx são a EDIA, a Empresa Municipal Herdade da Contenda, a Câmara de Barrancos e a empresa Águas do Algarve. Os municípios de Oliva de la Frontera e Valencia de Mombuey e a Junta da Extremadura são os parceiros espanhóis.

No processo de reintrodução do lince-ibérico, a colaboração entre Portugal e Espanha é “fundamental” e, no caso português, “a situação ideal é a expansão de zonas” preparadas para soltas e fixação da espécie e “com muito boa articulação com as zonas” existentes em território espanhol, defende João.

Através do Pro-Iberlinx, “preparámos a casa e se o lince aqui chegar ao território de Barrancos e à Herdade da Coitadinha será muito bem-vindo”, remata o coordenador.