Esta é a história de Dona Maria, apanhadora de flores e “dona de nada”

Alto do Jequitinhonha, Minas Gerais, Brasil. Terra de Dona Maria e família, membros de uma comunidade que vive nos chamados quilombos, locais que albergavam os escravos que garimpavam as terras em busca de diamantes no tempo dos colonizadores. “Quando secaram os diamantes, quase todos foram embora”, conta por escrito ao P3 Miguel Pinheiro, realizador português que se formou em Neurociência, mas acabou por se virar para o teatro e, mais tarde, para a fotografia e o cinema. Ficaram “os africanos fugidos, também indígenas e mestiços, que aí encontraram um refúgio seguro e uma alternativa à escravidão.”

Na terra onde outrora se procuraram pedras preciosas, o diamante agora é outro: as sempre-vivas. O comércio destas flores, assim chamadas por manterem a aparência muito tempo depois da colheita, é o sustento dos locais  da Serra do Espinhaço há quase três séculos. Como Dona Maria – A Panhadora de Flores, a protagonista do documentário que Miguel realizou este ano. 

Em breve, e tal como aconteceu no Barroso, o sistema de agricultura e apanha tradicional destas plantas pode vir a ser declarado património agrícola pelas Nações Unidas, o primeiro do Brasil — a candidatura já foi aceite e está a ser analisada, precisamente por se tratar de “um modelo bem-sucedido de adaptação a um território”. E, comenta o realizador, prova que há alternativas aos modelos sociais e económicos globais. “A biodiversidade humana está ameaçada por um modo de vida que se propondo global, não tem espaço para a diferença. No caso de Dona Maria, as várias gerações naquele território criaram um modo de vida reprodutível para os seus descendentes."

Miguel, que se divide por Portugal, Brasil e outros países de língua portuguesa, foi bem acolhido na comunidade, apesar de, normalmente, “os forasteiros serem recebidos com pouca receptividade”. Conhecia pessoas na zona e chegou a Dona Maria através da filha, Ronilda (que fala no final do vídeo). A desconfiança das pessoas é fácil de entender: “Comunidades que vivem há gerações num determinado território são frequentemente alvo de ameaças, directa ou indirectamente, em todo o Brasil”, alerta o realizador. Foi essa realidade que quis retratar no documentário: “Estas comunidades não devem ser objecto de afronta. Pelo contrário, é o dever de todos protegê-las, pelo bem de termos um futuro a várias vozes, com múltiplas soluções.”

O vídeo, com pouco mais de três minutos e meio, mostra momentos da colheita das sempre-vivas que crescem nas campinas (planícies) de Minas Gerais. Quer também alertar para os problemas provocados pela abertura de parques naturais na zona. Foram criadas reservas para proteger espécies de plantas que estariam em vias de extinção, o que limitou o trabalho, e até a vida, destas comunidades. A medida, porém, não teve os efeitos esperados: a partir do momento em que deixou de haver manuseamento tradicional de flores, o número de plantas diminuiu. Vários estudos científicos já provaram que as técnicas centenárias ajudaram a preservar mais de 90 tipos de flores. Com 61 anos, a trabalhar na apanha desde os oito, Dona Maria deixa uma reflexão: “Eles são donos do mundo e nós somos donos de nada?”

Gostas de fotografar e tens uma série que merece ser vista? Não consegues parar de desenhar, mas ninguém te liga nenhuma? Andas sempre com a câmara de filmar para produzir filmes que não saem da gaveta? Sim, tu também podes publicar no P3. Sabe aqui o que tens de fazer.

Sugerir correcção