Morte de activista em greve de fome reacende protestos na Argélia

Um defensor dos direitos de uma minoria étnica morreu enquanto estava detido. Nas ruas, mantêm-se as manifestações contra o regime e a exigência de uma transição política.

As manifestações contra as autoridades argelinas duram há três meses
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As manifestações contra as autoridades argelinas duram há três meses RAMZI BOUDINA / Reuters

O médico argelino e activista pelos direitos humanos Kamel Eddine Fekhar teve aquilo que o seu advogado definiu como uma “morte programada”. Ao fim de cinquenta dias de greve de fome, Fekhar, de 55 anos, morreu na terça-feira no hospital onde estava sob detenção por denunciar os abusos cometidos contra uma minoria étnica na Argélia.

Fekhar tinha sido preso a 31 de Março, juntamente com Hadj Brahim Aouf, depois de terem dado uma entrevista em vídeo em que denunciaram as práticas “segregacionistas” contra a minoria mozabita em Gardaia, 600 quilómetros a sul de Argel. Os dois foram postos em prisão preventiva sob acusação de porem em causa “a segurança do Estado” e de incitar “ao ódio racial”.

Como protesto pela detenção que considerou abusiva, Fekhar começou uma greve de fome, tal como fez durante outro período em que esteve preso entre 2015 e 2017. O seu estado de saúde deteriorou-se rapidamente e foi transferido para um hospital em Gardaia e depois para outro em Blida, onde acabou por morrer.

O advogado do activista, Salah Dabouz, ele próprio alvo de acusações judiciais semelhantes, disse que a morte de Fekhar é um “crime” orquestrado pelas “autoridades judiciais de Gardaia”. “Acuso todas as autoridades judiciárias e administrativas que trataram deste caso. Ele nada fez, para além de ter dado uma entrevista”, afirmou Dabouz, durante uma transmissão no Facebook, citado pelo Le Monde.

Fekhar era um reconhecido defensor da minoria mozabita – uma tribo berbere nativa do Norte do Sara que segue o rito ibadita do Islão – e em 2015 foi preso na sequência de confrontos entre membros da comunidade e árabes sunitas da região de Gardaia, em que 22 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Em 2017, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas concluiu que as acusações contra Fekhar eram infundadas.

A morte do activista ofereceu um novo impulso aos protestos contra o Governo, que se arrastam há três meses, foram responsáveis pela demissão do Presidente Abdelaziz Bouteflika, e que agora se direccionam contra os seus sucessores. O general Ahmed Gaid Salah anunciou eleições presidenciais para 4 de Julho, mas os manifestantes exigem um período de transição política e receiam que Bouteflika venha a ser substituído por outro líder autoritário.

Em Bejaia, milhares de estudantes marcharam em protesto na terça-feira e prestaram homenagem ao médico. O presidente do Reagrupamento pela Cultura e Democracia (RCD, da oposição), Mohcine Belabbas, deixava a seguinte pergunta: “Quantas mortes terão de acontecer até que os dirigentes do nosso país compreendam que os conflitos políticos e as diferenças de opinião não se tratam com a crueldade judicial, a repressão ou a violência armada?”

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