Arsenal e Chelsea em final polémica e ao estilo “sozinho em casa

Entre os conflitos políticos, o belicismo territorial, os lugares de Champions, o último jogo de Petr Cech, um troféu de 15kg e o tónico de uma final da Liga Europa entre rivais separados por 12 quilómetros, pouco mais falta a este jogo para ser especial.

A UEFA que o Estádio Olímpico de Baku esteja muito longe da lotação esgotada.
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A UEFA teme que o Estádio Olímpico de Baku esteja muito longe da lotação esgotada. Reuters/ANTON VAGANOV

Em “sozinho em casa”, uma criança é deixada numa cidade, enquanto a família festeja noutro país. Na final da Liga Europa, marcada para esta quarta-feira (20h), passa-se o mesmo: Arsenal e Chelsea vão discutir, no Azerbaijão, o triunfo na Liga Europa 2018/19 e foram “abandonados” pelas respectivas “famílias”: grande parte dos adeptos dos dois clubes recusou viajar 4000 quilómetros até à longínqua cidade de Baku.

Numa primeira fase, os clubes até se queixaram de que a UEFA estaria a disponibilizar poucos bilhetes para os finalistas – seis mil para cada um dos clubes, num total de… 70 mil. Certo é que, apesar das queixas de Chelsea e Arsenal em torno do reduzido número de bilhetes, os adeptos ingleses não gostaram de saber que, para ir de Londres a Baku, teriam de enfrentar uma viagem longa, com escalas e, sobretudo, muito cara.

Tanto assim é que os clubes devolveram alguns bilhetes e a UEFA já se deu ao luxo de oferecer ingressos, para poder ter uma moldura humana que justifique a escolha do Estádio Olímpico, em Baku, para a final da segunda competição de clubes mais importante da Europa.

Escolha tão questionada como as que já foram as da Eurovisão 2012, dos Jogos Europeus 2015, do Europeu de Ginástica 2019 e até de três jogos do Euro 2020. Todos eventos feitos num país que quer entrar no percurso cultural europeu, mas que é acusado de descurar direitos humanos, de repressão a jornalistas, de prisões políticas e de altas restrições a vistos a pessoas que querem entrar no país.

“Os adeptos ficarão colados à televisão, durante o jogo, mas devemos garantir que o Azerbaijão não possa ‘lavar desportivamente’ o seu pavoroso histórico de direitos humanos”, disse Kate Allen, directora da Amnistia Internacional do Reino Unido.

Relações políticas influem no “onze” do Arsenal

Além dos bilhetes, tem havido polémica, também, em torno de Mkhitaryan, jogador do Arsenal. O jogador arménio decidiu não participar na final da competição, já que, desde a dissolução da União Soviética, a região Nagorno-Qarabag, no sudoeste do Azerbaijão, não tem vivido um clima ameno nas relações com a Arménia.

Apesar de já não ser a primeira vez que o jogador opta por não participar em jogos no Azerbaijão – quer pelo Dortmund, quer pelo Arsenal –, há quem diga que Mkhitaryan se aproveitou do caso para erguer a causa arménia e quem assuma, por outro lado, que o jogador apenas se protege de eventuais problemas diplomáticos.

Azad Rahimov, ministro da Juventude e dos Desportos do Azerbaijão, mostrou-se indignado: “A UEFA e o Arsenal receberam os documentos possíveis e impossíveis. Pessoalmente falando, enviei uma carta assinada com as garantias do Governo, assim como da Federação de Futebol do Azerbaijão e de todos os departamentos do Governo responsáveis pela segurança. Fizemos tudo o que nos competia em relação à segurança. O que mais poderíamos fazer? Enviar um jacto privado para ele? Acompanhá-lo com dois caças? Um tanque de guerra?”, questionou.

O certo é que o craque não vai a jogo e Unay Emery, o “senhor Liga Europa”, terá de encontrar uma solução – Welbeck, que ainda não jogou em 2019, está recuperado e pode ser parte dessa solução.

Benfica com sentimento agridoce

Para colocar uma quarta Liga Europa no currículo, Emery terá de enfrentar um derby londrino, frente ao Chelsea. Para além dos poucos milhares de adeptos “blues” que torcerão em Baku e dos largos milhares que torcerão em Londres, o Chelsea poderá ter a fazer força alguns… portugueses.

Por um lado, os benfiquistas mais fervorosos não se esquecerão da derrota em 2012/13, na final da Liga Europa, a última prova europeia conquistada pelo Chelsea.

Por outro lado, os mais racionais olharão para uma vitória do Chelsea como um aumento da probabilidade de o Benfica entrar no pote 2 do sorteio da próxima Liga dos Campeões.

Se os “blues” ganharem, o Benfica fica a precisar, “apenas”, que FC Porto ou Ajax caiam na 3.ª pré-eliminatória, enquanto, em caso de vitória do Arsenal, os “encarnados” já só entrarão no pote 2 caso holandeses e portuenses caiam no acesso à prova milionária.

Olhando para o relvado, o Chelsea chega a esta final com um registo de 11 vitórias e três empates na competição, enquanto, para o Arsenal, o percurso espinhoso até à final (sofreram com BATE e Rennes) poderá ser contrabalançado por uma motivação especial: depois do quinto lugar na Liga Inglesa, os “gunners” só entrarão na Champions 2019/20 caso vençam esta final de Baku.

O duo Aubameyang e Lacazette – um no ataque à profundidade e outro a jogar em apoio, mas ambos decisivos (13 golos e cinco assistências na prova, entre os dois) – é o principal cartão-de-visita do Arsenal, que terá de contrariar um Eden Hazard em estreia em finais europeias. Nota, ainda, para o jovem e talentoso lateral direito Maitland-Niles, que poderá ser decisivo no ataque, caso Hazard não dê algum apoio defensivo pelo corredor esquerdo.

Na antevisão da partida, Unai Emery garantiu que a Liga Europa não é um objectivo menor. “Durante toda a época, demos grande atenção a esta competição”, recordou, enquanto Maurizio Sarri, apesar de já ter a Champions garantida via campeonato, quer um título: “A final é muito importante para nós e sentimos que merecemos ganhar um troféu.”

Entre os conflitos políticos, o belicismo territorial, os lugares de Champions, o último jogo de Petr Cech, um troféu de 15kg e o tónico de uma final da Liga Europa entre rivais separados por 12 quilómetros, pouco mais falta a este jogo para ser especial.