PSD e CDS-PP assustados com cenários das legislativas

Em nenhum dos dois partidos parece haver condições para mudança de líder, mas críticos pedem reflexão interna.

,Eleição do Parlamento Europeu em Portugal, 2019
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Rui Rio e Paulo Rangel em arruada no Porto no último dia de campanha LUSA/TIAGO PETINGA

Depois do cartão vermelho dos eleitores aos dois partidos da oposição, PSD e CDS mostram sinais de ansiedade sobre as próximas eleições. A quatro meses das legislativas, há pouca margem para uma mudança radical de estratégia (e muito menos de líder) que permita mobilizar eleitorado para superar os resultados das europeias, de acordo com sociais-democratas e centristas contactados pelo PÚBLICO. No PSD há quem receie que o partido se possa tornar irrelevante, no CDS regressou o fantasma do “partido do táxi”.

Entre os sociais-democratas, há quem veja como certa a obstinação de Rui Rio em levar por diante a sua estratégia, sem mexer uma vírgula, mas outros ouviram um sinal de mudança por parte do líder na noite eleitoral. Foi quando Rui Rio colocou a escolha dos portugueses nas legislativas entre “um projecto de esquerda e um ao centro com ligações à direita”, deixando para trás o centro-esquerda onde se tem posicionado desde que assumiu a liderança do partido.

Com ou sem alterações de estratégia, parece ter ganho força o cenário de que não há condições para haver uma mudança de líder agora. Os críticos de Rui Rio e potenciais candidatos à liderança do PSD — Luís Montenegro, Miguel Morgado e Pedro Duarte — escolheram ficar em silêncio no day after da pesada derrota eleitoral. Mas há quem se questione sobre que dimensão terá o partido que o sucessor de Rui Rio vai herdar depois de Outubro, se os resultados das europeias se vierem a reflectir nas legislativas.

Estado de coma

O ex-líder do PSD e comentador da SIC, Luís Marques Mendes, usou um termo médico para definir a situação dos dois partidos: “PSD e CDS partem para as próximas eleições legislativas em estado de coma.” Uma frase que levou o ex-vice-presidente da bancada do PSD Luís Menezes a pedir uma reflexão séria. “O que mais me assustou foi ver que o líder não assumiu que o PSD está em coma. Ou o PSD muda de vida ou uma reconfiguração à direita será inevitável e o dr. Rui Rio, além de uma primeira tatuagem do pior resultado, terá uma segunda por ter tornado o partido irrelevante a partir de Outubro”, afirmou. O ex-deputado disse esperar “sinceramente” que não aconteça, mas assumiu não estar “optimista”.

Menos acutilantes mas também com uma mensagem de advertência para as legislativas foram as declarações do ex-ministro de Passos Coelho, Miguel Poiares Maduro, ao considerar que os resultados podem ser uma “oportunidade” para o PSD aproveitar e capitalizar a “insatisfação” dos “portugueses” com o PS, o que não foi conseguido até agora.

Entre os apoiantes de Rui Rio, a justificação para o resultado destas europeias reside em vários factores: a elevada abstenção, a dispersão de votos na Aliança e no Chega e a recente crise dos professores, bem como medidas do Governo como os descontos nos passes. Há ainda quem não esconda que Paulo Rangel não deveria ter ido atrás da nacionalização da campanha levada a cabo pelo primeiro-ministro e que devia ter falado mais nas propostas do partido sobre a Europa. Desta vez, a mensagem não passou e por isso há quem acredite que é possível dar a volta ao resultado em Outubro. 

Da direcção de Rui Rio só um vice-presidente, Salvador Malheiro, assumiu com todas as letras, nas redes sociais, a “grande derrota” do PSD. Nem isso parece ser consensual. Na TSF, a ex-líder social-democrata, Manuela Ferreira Leite, olhou para o resultado e concluiu: “Não acho nada catastrófico.” 

Partido do táxi

No CDS-PP, foram várias as vozes que se ouviram pedir uma reflexão do partido sobre os resultados que relegaram o partido para a quinta força política. E houve quem fizesse contas: se o resultado das europeias se repetisse nas legislativas, o CDS ficaria com um grupo parlamentar de oito deputados, menos de metade do actual. Um número a fazer lembrar o momento do “partido do táxi” quando a bancada centrista ficou reduzida ao mínimo nas lideranças de Adriano Moreira e Lucas Pires. 

Os críticos de Assunção Cristas pedem, por isso, que a direcção recoloque o CDS nos seus valores fundacionais da matriz democrata-cristã, que consideram ser a única maneira de o partido crescer eleitoralmente. Nem o grupo liderado por Filipe Lobo d’Ávila (que elegeu conselheiros nacionais numa lista alternativa à de Assunção Cristas) nem o porta-voz da tendência interna Esperança em Movimento pedem a cabeça da líder do partido. Exigem uma reflexão interna e que o partido não dispute eleitores ao centro. Só um líder de uma concelhia, a de Ovar, se demitiu do cargo em ruptura com a líder do CDS. Fernando Camelo de Almeida assume o pessimismo: “Vejo com muito más perspectivas as legislativas.”