Guião para o comité central digerir a derrota do PCP

O órgão máximo do PCP entre congressos reúne-se esta terça-feira para analisar os resultados das europeias. Em 2017, no rescaldo do desaire das autárquicas, o comité central queixava-se da difícil compreensão da “geringonça” e dos “preconceitos” do BE.

Eleição do Parlamento Europeu em Portugal, 2019
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Jerónimo de Sousa LUSA/TIAGO PETINGA

Primeiro, perda da presidência de dez câmaras, entre as quais, os bastiões de Almada e Barreiro. Agora, perda de um eurodeputado e cerca de 200 mil votos. Tanto nas eleições autárquicas de 2017 como nas europeias deste domingo, o PCP sofreu perdas eleitorais enquanto assistia a um reforço do PS, seu parceiro na “geringonça”. Os alarmes soaram há dois anos na Soeiro Pereira Gomes, sede do PCP, e na altura a direcção do partido atribuiu grande parte da responsabilidade à própria solução de governo, inaugurada em 2015. Os comunistas consideravam que o seu eleitorado não tinha “consciência” da importância desse acordo. Esta tarde, o comité central reúne-se com uma agenda semelhante: fazer a leitura dos resultados eleitorais, encontrar explicações para a descida de votação e tirar lições para o futuro.

Passados dois anos, o guião do comité central de 2019 não deverá divergir muito deste de 2017, ou mudará?

  • “No resultado da CDU fica evidente que muitas das pessoas que durante este período nos dirigiram palavras de reconhecimento pelo papel decisivo do PCP na derrota do Governo PSD-CDS ainda não ganharam a consciência da contribuição decisiva do PCP em muito do que foi alcançado na reposição e conquista de direitos e de que reside no reforço do PCP e do PEV, e não no PS, a possibilidade de assegurar que esse caminho prossiga e se amplie.”

O PCP assumia que o eleitorado tradicional não via como benéfica a contribuição do PCP para a solução de governo. Depois disso, procurou reforçar as explicações das vantagens, nomeadamente na reposição de direitos.

  • ​“O resultado da CDU é também inseparável das consequências, directas e indirectas, que a transformação de eleições locais em eleições de natureza nacional acarretou, sendo conhecida a diferença significativa de votos que em eleições locais é necessário acrescentar para concretizar os seus objectivos.”

Estas eleições europeias transformaram-se também em eleições nacionais, dado o foco que tanto António Costa como o PSD deram à campanha. Na verdade, PCP e BE procuraram fugir a isso e centrar a discussão em temas mais europeus.

  • ​“No plano político, os últimos meses confirmam aspectos há muito identificados: PSD e CDS com uma acção retrógrada, reaccionária e revanchista; o PS vinculado a opções de defesa dos interesses do grande capital e de submissão externa; o BE com uma prática determinada por um exacerbado preconceito contra o PCP.

A quatro meses das eleições legislativas, o PCP vai manter estas acusações aos seus parceiros? Ou até subirá de tom?

  • ​“A situação dos trabalhadores, do povo e do país revela a necessidade e a urgência de uma política alternativa. Uma política que, recusando o regresso a um passado recente de brutal agressão a direitos e de abdicação nacional, também não fique prisioneira das imposições externas e dos interesses do grande capital, como pretende o Governo minoritário do PS. Portugal precisa de romper com a política de direita, precisa de uma política patriótica e de esquerda e o PCP afirma-se como a grande força portadora dessa política alternativa de que o país precisa. O reforço do PCP, da sua acção e influência social e eleitoral, constitui o elemento mais decisivo para construir um Portugal com futuro.”

O PCP começou, em 2017, a sublinhar de forma muito enfática que se trata de um “governo minoritário”, preservando o seu papel de oposição que negoceia “ganhos” com o executivo.

  • “​O comité central do PCP sublinha a necessidade de se ir mais longe na resposta aos problemas e aspirações dos trabalhadores e do povo português. Nada justifica que se continue a resistir ao necessário aumento dos salários, particularmente à fixação do salário mínimo nacional em 600 euros em Janeiro de 2018, cujo impacto, seja na melhoria das condições de vida, seja no incremento da actividade económica, seja nas receitas para a Segurança Social, é de um enorme significado.”

A lista de reivindicações cresceu em 2017, tal como será expectável agora que as eleições legislativas estão tão próximas. Aliás, a pré-campanha eleitoral já está em marcha.