Sub-30: Henrique é o mais jovem luthier da ilha da Madeira

Ainda era criança quando deu os primeiros passos na construção de instrumentos tradicionais madeirenses. Hoje, com 25 anos, Henrique já construiu 70 e é o mais jovem luthier da ilha.

Quando nasceu, no Funchal, em 1993, o pai já era construtor de cordofones há mais de uma década. Foi na sua oficina antiga, que ficava na Rua dos Frias, também no centro da capital madeirense, que Henrique Rodrigues deu, há oito anos, os primeiros passos na construção e reparação de instrumentos, ou seja, como luthier.

“Eu não me lembro de não conhecer isto”, conta ao P3 na aparentemente caótica oficina da Rua da Carreira, enquanto junta as peças do que virá a ser mais um braguinha da sua autoria. “Aprendi com o meu pai. Sempre vi o meu pai a fazer as violas e, desde novo, comecei a observar e a ajudá-lo.” Das primeiras coisas que aprendeu, era ainda uma criança, foi a maleabilizar a madeira. “Primeiro molha-se a madeira — a ilharga, como é denominada — e depois pressiona-se contra a resistência quente para se moldar no formato que se pretende”, explica.

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Henrique guarda todas as rodelas — ou bocas — que retira dos tampos superiores dos instrumentos que constrói e assim sabe quantos fez Ana Marques Maia

O mais jovem luthier da ilha começou a restaurar instrumentos enquanto frequentava o 12.º ano. “Há cerca de oito anos”, relembra. “Foi nessa altura que comecei a compreender a estrutura interna dos instrumentos.” Foi importante ter começado pelo restauro, pois assim conseguiu ver “o que estava mal feito” e aprendeu “o que não devia fazer.” Hoje, dedica-se sobretudo a construir instrumentos para aprendizes — já lá vão 70. “Aqui, na Madeira, as crianças da primeira à quarta classe aprendem os instrumentos tradicionais madeirenses, nomeadamente o braguinha. Faço instrumentos para eu aprender e para eles aprenderem. E ficamos todos a ganhar.”

Mas também constrói outras coisas. Além dos braguinhas, já lhe saíram das mãos rajões, machetes e, em breve, violas de arame. Sempre por encomenda. Os clientes são também músicos profissionais e turistas curiosos que entram pela oficina adentro em busca das raízes do ukelele, que muitos afirmam terem origem na Madeira. “O ukelele nasceu na Madeira”, afirma, peremptório, o jovem luthier de 25 anos. “É uma mistura de dois instrumentos tradicionais madeirenses, o machete e o rajão. O ukelele tem, basicamente, o corpo do machete e a afinação do rajão.” Também uma revista da especialidade, a Ukelele, o confirma num artigo de 2015 que dá conta da origem madeirense do pequeno e “tropical” instrumento de cordas, depois apropriado pelos havaianos. 

Ser artesão na era da indústria e tecnologia

Apesar de haver lista de espera para a aquisição dos instrumentos que constrói, Henrique garante que não tem uma profissão rentável. “Dá para as despesas”, reflecte. “Ser luthier implica travar uma batalha contra uma indústria que constrói instrumentos com recurso exclusivo a máquinas. As lojas vendem mais barato do que nós, artesãos, mas a qualidade não tem nada a ver.” A diferença é notória, sobretudo ao nível do detalhe e dos materiais utilizados. “Há instrumentos de fábrica que nem chegam às lojas afinados porque ‘empenam’ durante o transporte”, explica. “São construídos à base de madeiras verdes, instáveis, que se alteram consoante a humidade.” Tanto Henrique como o pai, Carlos Jorge Rodrigues, preferem as madeiras velhas, “mais estáveis”. “Os melhores instrumentos são feitos com recurso a madeiras recicladas. O meu pai já reutilizou madeiras de pianos antigos do conservatório, por exemplo. Ele desmontou-os e agora o tampo dos pianos é o tampo dos machetes.”

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Boque testemunha todas as construções Ana Marques Maia

Outro inimigo da rentabilidade e sustentabilidade da profissão é a morosidade do processo de construção de cada instrumento. “Isto é um trabalho muito lento, mal se vê o progresso”, explica Henrique. “Demoro pelo menos um mês a construir um instrumento para aprendizagem. Se fizer vários ao mesmo tempo, esse rácio altera-se, mas continua a ser um processo demorado.” A pouca rentabilidade é, para Henrique, uma das explicações para o afastamento dos jovens deste ofício. “Existe outro jovem luthier na ilha, chama-se Leonardo. Mas ele aprendeu o ofício no continente e constrói, sobretudo, bandolins.” Leonardo tem 28 anos.

Ser luthier é um “pretexto"

Não é o dinheiro que o move. “Eu enriqueço quando conheço pessoas, quando ouço música, quando partilho com os outros, quando aprendo algo de novo”, explica. Nutre um apreço especial por cada peça que constrói — e pelo fiel companheiro canino Boque, testemunha de cada construção.

“Na verdade, eu gostaria de não ter de vender. É o que eu sinto. Para mim, vender um instrumento é desvalorizá-lo. Porque é impossível colocar um preço, um valor a um instrumento que é fruto de tantas horas de trabalho, de tanta atenção e cuidado. Mas é necessário. Também preciso de fazer uns trocos e ir poupando.” Os melhores instrumentos, confessa, são aqueles que faz para oferecer. “Quando há mais amor, fazemos melhor.”

Ser luthier, para Henrique, é um pretexto. “O meu pai sempre diz, e eu concordo, que tudo isto que fazemos é um pretexto para estar com as pessoas, para estar bem com elas”, explica. “Eu gosto de fazer instrumentos e, por isso, faço-os; um sapateiro gosta de arranjar sapatos e arranja. A gente faz aquilo que sabe para poder partilhar com outras pessoas. Se estiver a pensar no dinheiro estou a retirar o valor. Eu vou morrer e o dinheiro vai ficar, não vou fazer nada com ele. Prefiro deixar instrumentos que fazem música.”