A permanente está de volta, mas já não é o que era

O penteado dos anos 1980 pode não ter deixado muitas saudades a quem o experimentou, mas está a fazer um comeback — desta vez com caracóis mais suaves e naturais. Em Portugal chega devagarinho.

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Dolly Parton, Lily Tomlin e Jane Fonda, numa cena do filme "9 to 5", lançado em 1980 Getty/ Michael Ochs Archives

Para quem a tenha feito nos anos 1980, pode suscitar ainda memórias traumáticas: o cheiro dos químicos, os cabelos secos e demasiado frisados, os resultados, por vezes, catastróficos. A permanente ficou na memória colectiva (e em tantas fotografias de casamento) como uma das tendências mais caricatas das últimas décadas. E agora parece estar de volta, mas numa versão bem mais descontraída.

Antes de mais, há que fazer uma ressalva: os tempos mudaram e, como tal, também as vontades. As permanentes que hoje voltam a aparecer, ora em editoriais de moda, ora na cabeça de celebridades como Emma Stone e Olivia Munn — que partilharam nas redes sociais fotografias do processo —, são bem diferentes daquelas que saíam dos salões de cabeleireiro em tempos idos. Em vez de caracóis apertados, aquilo que se pretende hoje é um penteado ondulado e mais solto.

Aos poucos, a permanente tem vindo a afirmar-se a nível internacional, a par da tendência de cabelos mais naturais e, em geral, da moda dos anos 1980. Como aponta o Guardian, desfilaram nas passerelles de Primavera/Verão, de marcas como Gucci e Celine, uma série de modelos com cabelos ondulados. E, mais recentemente, durante o Festival de Cannes, personalidades como a actriz Charlotte Gainsbourg e a modelo Taylor Hill, pisaram a passadeira vermelha com penteados deste género. Também o sucesso de supermodelos como Alanna Arrington e Mica Argañaraz, aponta para a preferência deste estilo de cabelos. Também os homens têm seguido a tendência, aponta o jornal britânico, referindo um “efeito Jon Snow”.

Uma “ferramenta” para penteados

Apesar de, na sua essência, a técnica ser a mesma, muito evoluiu desde a década de 1980. Os produtos usados nas permanentes são “completamente diferentes”, sendo que não estragam tanto o cabelo, começa por explicar Lúcia Piloto, ao PÚBLICO. Os próprios cortes de cabelo que costumavam acompanhar as permanentes eram mais extremos, evidenciando ainda mais o penteado. E também os instrumentos mudaram: se dantes se usava bigoudis finos, que criavam caracóis mais apertados, hoje dá-se preferência aos rolos mais largos. O resultado é um penteado não tão rígido como o das permanentes dos anos 1980.

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Desfile Celine de Primavera/ Verão 2019 REUTERS/Gonzalo Fuentes

A cabeleireira, que celebrou recentemente 40 anos de profissão, afirma que, depois de este serviço ter estado “completamente parado” durante bastante tempo, a procura de permanentes tem aumentado significativamente nos últimos dois anos, nos seus seis salões. “Ainda ontem fizemos três”, conta ao telefone, a partir da loja da Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Para efeito de comparação, há poucos anos eram capazes de receber apenas um a dois pedidos por mês, ou mesmo de dois em dois meses.

Há quem recorra à técnica para obter um penteado mais duradouro de caracóis largos ou quem pretenda reforçar os caracóis, continua Lúcia Piloto. No fundo, a permanente de hoje é mais uma “ferramenta para vários penteados”, resume.

Mas esta é uma tendência que não se reflecte em todos os salões. Por exemplo, na Jean Louis David, que tem 31 lojas de norte a sul do país, fazem-se actualmente cerca de 12 serviços de permanente por semana. “Teve o seu auge na década de 1980 e 1990, hoje não há grande procura”, declara Rute Ricardo, directora técnica da cadeia em Portugal. “Apesar de se usar cada vez mais caracóis, ondas, o que se faz actualmente não tem expressão quando comparado com o passado”, acrescenta.

A perder terreno

Rute Ricardo divide as clientes em dois tipos: as “mais idosas que necessitam de suporte, para manter o brushing” e “algumas mais jovens que, através das campanhas de moda, querem fazer ondas com um efeito natural”.

Patrick Depaus, cabeleireiro-celebridade e dono de um salão na Avenida da Liberdade, em Lisboa, é ainda mais taxativo. “A procura do serviço de permanente não tem aumentado, antes pelo contrário”, começa por dizer, explicando que se trata de “um serviço muito específico que tem vindo a perder terreno e popularidade desde os anos 1990 — provavelmente por não corresponder às necessidades da cliente de um look mais natural e espontâneo”.

É que, explica o especialista, “apesar das tendências de moda”, a permanente deu lugar a outras “técnicas menos invasivas, mais suaves e com resultados imediatos” e a “produtos de styling” — por exemplo, produtos à base de água do mar, que reproduzem um efeito de pós-praia. “Tenho a certeza que o futuro está na direcção do natural e cada vez mais fácil de realizar em casa! A permanente, salvo raras excepções, não permitia esta liberdade, absolutamente necessária nos tempos de hoje”, argumenta.

Quem, ainda assim, procura permanentes fá-lo com o objectivo de ganhar “ondas largas” ou “quebrar o liso extremo de uma cabeleira”, por exemplo. As permanentes que se fazem têm também uma duração menor, garante Patrick Depaus. “As clientes preferem repetir mais vezes o serviço e não se importam tanto com a durabilidade... querem resultados naturais, soltos!”, comenta. Ou seja, o cabelo vai relaxando ao longo do tempo, em vez de crescer e ficar só encaracolado em baixo.