“Por que iria contra o meu professor?” Fundador da Huawei não quer sanções à Apple

Ren Zhengfei afirma que a empresa pode falhar objectivos de crescimento, mas vai continuar a crescer apesar dos ataques de Donald Trump.

Ren Zhengfei (dir.) ao lado do Presidente chinês,  Xi Jinping
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Ren Zhengfei (dir.) ao lado do Presidente chinês, Xi Jinping Reuters/POOL

O fundador da Huawei afirmou ser contra retaliações da China que visem a Apple, uma medida que tem sido especulada como uma possível resposta de Pequim às sanções americanas e que poderia pôr em causa uma empresa que se tornou um símbolo da inovação e tecnologia feitas nos EUA.

“Antes de mais, isso não vai acontecer. E, em segundo lugar, se acontecer, serei o primeiro a protestar”, afiançou Ren Zhengfei, numa entrevista à agência Bloomberg, em que respondeu em chinês e falou num tom aparentemente bem-humorado.

“A Apple é o meu professor, está a avançar à nossa frente. Enquanto aluno, por que iria contra o meu professor? Nunca”, acrescentou o antigo engenheiro militar, que passou boa parte da sua carreira afastado da imprensa ocidental, até que, há alguns meses, a Huawei se viu enredada na guerra comercial entre China e os EUA.

Este é, porém, um dos casos em que o aluno está a superar o professor.

A Apple inaugurou a era dos smartphones modernos com o lançamento do primeiro iPhone, em 2007. Mas, no ano passado, a Huawei começou a surgir acima da Apple nas tabelas de vendas, tornando-se a segunda marca que mais telemóveis vende em todo o mundo (em Portugal, é líder). No primeiro trimestre deste ano, a Huawei tinha 19% do mercado, em termos de unidades enviadas para o retalho, segundo números da analista IDC. A Samsung tinha 23% e a Apple 12%.

"Estamos à frente dos EUA"

Zhengfei teve outras afirmações menos modestas. “Estamos à frente dos EUA. Se estivéssemos atrás, não haveria necessidade para o Trump nos atacar intensamente”, disse, segundo a tradução para inglês da Bloomberg.

Com uma guerra comercial como pano de fundo, a Huawei tem estado a sofrer pressão e sanções dos EUA, que acusam a empresa de ser um potencial instrumento da China para actividades de espionagem. Depois de terem tentado convencer outros países dos riscos de terem equipamentos da Huawei nas suas infraestruturas de redes 5G, os EUA decidiram colocar a empresa numa lista de entidades com as quais as empresas americanas não podem ter relações comerciais.

As sanções – que estão suspensas até Agosto – levaram o Google a anunciar que iria deixar de fornecer o Android e serviços como os Google Maps à Huawei, numa ameaça à capacidade da empresa para atrair consumidores, especialmente na Europa.

A decisão dos EUA levou ao mesmo tipo de anúncios por parte de fabricantes de processadores, dos quais a Huawei em parte depende para fabricar os seus aparelhos. De acordo com Zhengfei, metade dos processadores que a empresa usa são provenientes dos EUA e os restantes são de fabrico próprio.

Uma retaliação contra a Apple foi desde logo apresentada por comentados e analistas como uma resposta possível por parte da China, embora não haja qualquer indicação oficial de que venha a acontecer.

O mercado chinês (incluindo Taiwan) representa cerca de 18% da facturação da Apple. Para além disso, a maioria dos equipamentos da empresa são fabricados na China. Restrições à produção de aparelhos americanos nas fábricas chinesas teria impacto na capacidade da Apple para colocar produtos no mercado, incluindo iPhones.

Recentemente, Zhengfei tinha dito que os EUA estavam a subestimar a capacidade da Huawei. Agora, reconheceu na entrevista à Bloomberg que as sanções terão impacto, mas não serão um golpe fatal. Questionado sobre os efeitos negativos na divisão de consumo – responsável pelos telemóveis e computadores da marca, e que usa software e componentes americanos –, o executivo respondeu: “Podemos falhar o nosso o objectivo de crescimento, mas ainda assim vamos crescer. Sermos capazes de crescer no mais difícil ambiente de competição mostra o quão grande somos.”

Na semana passada, Donald Trump disse que a Huawei poderia ser usada como parte de um acordo comercial com a China, apesar de representar um risco de segurança.

“A Huawei é algo que é muito perigoso. Olha-se para o que eles fizeram de um ponto de vista de segurança, de um ponto de vista militar, é muito perigoso”, começou por afirmar Trump, em resposta a um jornalista. “Por isso, é muito possível que a Huawei possa até ser incluída em algum tipo de acordo comercial. Se nós fizéssemos um acordo, eu conseguia imaginar a Huawei a ser possivelmente incluída em algum tipo, ou alguma parte, de um acordo comercial.”