Opinião

A epidemia da desinformação

Desde movimentos antivacinação até a teorias que a Terra é plana, as redes sociais têm sido palco para o surgimento de crenças e comportamentos baseados em informações falsas, que se propagam descontroladamente.

O avanço científico é uma das grandes conquistas da humanidade, permitindo aumentar drasticamente a longevidade e a qualidade de vida das pessoas nas últimas décadas. A vacinação é a grande responsável pela erradicação, eliminação e controlo de muitas doenças, que segundo a Organização Mundial de Saúde evitam anualmente entre 2 a 3 milhões de mortes em todo o mundo. Ainda recentemente, uma reportagem do PÚBLICO, mostrou como a introdução de uma nova vacina no Programa Nacional de Vacinação (PNV) reduz imediatamente o número de casos notificados, e o seu benefício nos anos seguintes. Através das vacinas, que foram introduzidas no PNV desde 1965, foi possível ter uma doença erradicada — varíola; cinco eliminadas — poliomielite, difteria, sarampo, rubéola e tétano neonatal; sete controladas — tétano, meningite C, hepatite B, papeira, tosse convulsa, tuberculose e H. influenzae b.

Contudo, apesar destas evidências científicas, as redes sociais, e particularmente o YouTube, têm sido palco para diversas teorias, rumores, informações e estudos falsos, que tentam demonstrar a perversidade e o malefício das vacinas. Nos Estados Unidos, estes movimentos antivacinação têm ganho bastante popularidade, criando vídeos, páginas e perfis em redes sociais, exagerando os efeitos colaterais, manipulando dados e difundido teorias da conspiração contra a indústria farmacêutica e contra os diferentes Governos. Esta desinformação tem levado a que muitas pessoas deixem de vacinar os seus filhos, surgindo diversos casos fatais, um pouco por todo o mundo.

Doenças como o sarampo, que estavam controladas ou mesmo perto de serem eliminadas em diversos países, voltaram a gerar preocupação. Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado pelas Nações Unidas, no primeiro trimestre de 2019, o número de casos de sarampo aumentou 300% a nível mundial, tendo na América do Norte e América do Sul crescido 700% e na Europa 300%, continentes em que havia uma elevada taxa de cobertura de vacinação. No ano passado, morreram 136 mil pessoas em todo o mundo, e o número de infectados subiu 50% comparado com o ano anterior. A falta de vacinação está a criar uma preocupação em diversos países europeus com a Alemanha, cujo Governo quer penalizar pais que não vacinem os filhos contra o sarampo com multas de até 2500 euros. A resistência à vacinação foi mesmo considerada pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde global neste ano de 2019.

Mas o que ganham estes movimentos propagando essa desinformação? Muitos, pretendem desacreditar a vacinação, de forma a divulgar terapias e medicinas alternativas, como ficou provado com o médico britânico Andrew Wakelfield, expulso da Ordem dos Médicos do Reino Unidos, por publicar um artigo científico fraudulento no qual estabelecia uma suposta relação entre a vacina contra o sarampo, parotidite e rubéola, e o autismo. No entanto, e apesar do artigo ter sido retirado pela revista científica, este tem servido de base para muitas teorias dos movimentos antivacinação. Outros, são levados pelo poder persuasivo e populista destes grupos, e tendem a acreditar nos estudos e questões que são levantados pelos vídeos e textos desta propaganda, ficando reféns do medo e da desinformação que são criados.

Desinformação na internet 
A internet tem sido o principal meio de difusão das teorias da conspiração, e do surgimento de movimentos que colocam em causa algumas verdades irrefutáveis. Entre eles, os que acreditam que a Terra é plana, que o ser humano não pisou a Lua, ou mesmo que o rasto branco marcado no céu pelos aviões (chemtrail), é um conjunto de substâncias químicas largados para provocar doenças, ou até para alterar o clima. Apesar de à primeira vista, todas estas teorias parecerem inusitadas ou mesmo disparatadas, o excesso de informação e a nossa limitada atenção, leva a que muitos destes conteúdos sejam partilhados frequentemente por diversos utilizadores nas redes sociais. Grande parte destas partilhas é feita por haver um desconhecimento e ignorância no tema, e se julgar haver algum fundamento nestas teorias, outros ainda por acreditarem e confiarem na fonte das notícias, tomando por verdade, conteúdos bem preparados e aparentemente de qualidade.

Para além disso, quem tenta aprofundar o conhecimento nestes temas, e efetua uma pesquisa no Google, vai encontrar páginas e vídeos no YouTube com “provas” e demonstrações práticas de todas estas teorias. Esta pesquisa direcionada através de keywords a conteúdos falsos e errados, leva a que muitos curiosos, até então perfeitos desconhecedores da temática, passem ele próprios a novos evangelizadores destes movimentos em fóruns e redes sociais na internet, convencidos da descoberta que fizeram, partilhando estas crenças até à exaustão, carregadas de suposições mascaradas de factos, propagando a desinformação. Num recente estudo publicado pelo jornal The Guardian, foram inquiridas 30 pessoas que acreditam que a Terra é plana, e todas elas afirmaram que até há dois anos não colocavam essa hipótese, mas mudaram de ideias após terem visto um conjunto de vídeos no YouTube sobre o assunto.

O Facebook e o YouTube têm sido pressionados a tomar medidas para remover, ou não mostrar/sugerir estes conteúdos aos utilizadores, e algumas alterações foram já implementadas. O Facebook, por exemplo, implementou há já algum um tempo diversas medidas que visam denunciar fake news e conteúdos falsos, e removeu anúncios de movimentos antivacinação ou outros movimentos baseados em teorias da conspiração. O YouTube não remove qualquer conteúdo mesmo que seja falso ou baseado em pressupostos errados, no entanto, está a desenvolver um conjunto de medidas de forma a mostrar em primeiro lugar conteúdos que sejam de órgãos de comunicação confiáveis, para que os utilizadores tenham acesso aos conteúdos mais corretos e fidedignos.

O combate a esta epidemia não passa só pela implementação por parte das empresas tecnológicas, de medidas para combater fake news e teorias da conspiração. Numa sociedade cada vez mais conectada e informada, é surpreendente e paradoxal como as pessoas são levadas a adotar comportamentos de risco, baseando-se apenas em notícias e conteúdos encontrados aleatoriamente na internet. A eliminação desta desinformação passa pela alfabetização digital dos utilizadores, para que consigam autonomamente diferenciar uma informação falsa de uma legítima, e a consigam avaliar antes de a transmitir de forma ingénua e gratuita numa rede social.