CDS sai arrasado e Cristas diz ter “compreendido bem o sinal” dos eleitores

Nuno Melo assume a derrota como sua. “Se há alguém a ser julgado, sou eu”, afirmou.

Fotogaleria
Rui Gaudêncio
Fotogaleria
Rui Gaudêncio
Fotogaleria
Rui Gaudêncio

Nem mais um deputado, nem à frente de CDU e BE. E com menos quase cem mil votos do que em 2009, as últimas europeias em que o CDS concorreu sozinho. As primárias das legislativas, como assumiu Assunção Cristas, foram uma derrota a toda a linha.

O salão do CDS, na sede do partido, em Lisboa, que esteve quase toda a noite vazio, encheu-se quando Cristas, Nuno Melo, vários dirigentes e deputados subiram ao palco. As palmas foram muitas, mas os rostos carregados de todos mostravam o peso da derrota.

Cristas assumiu-a de imediato, depois de saudar os vencedores: “Ficamos aquém do objectivo traçado [eleger mais um deputado].”

A líder do CDS referiu-se a dois factores que podem ter contribuído para o resultado do CDS: a abstenção e a “polarização dos votos à direita”.

Depois, garantiu ter “compreendido bem o sinal que os eleitores” deram ao CDS, afirmando, porém, que por parte do partido os seus apoiantes “contarão ainda com mais empenho, mais trabalho diário, proximidade, na construção de uma política positiva contra o socialismo”.

Melo falou a seguir e começou de forma enigmática, citando o escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961): “Quem estará nas trincheiras ao teu lado? E isso importa? Mais do que a própria guerra.”

Lembrando que “o PCP perdeu votos e o CDS manteve um deputado”, Melo disse que “não transforma derrotas em vitórias” e assumiu esta “como sua”, até porque teve “sempre Assunção Cristas e o partido ao seu lado. “[O resultado] tem um responsável, sou eu. (...) Se há alguém a ser julgado, sou eu.”

E agora?

Este resultado negativo poderá fazer subir de tom a discussão que Nuno Melo abriu no partido durante a campanha eleitoral: que o partido deverá abandonar o posicionamento político no centro-direita e colocar-se apenas à direita. Um partido tolerante e distante dos extremistas de direita, mas mais conservador em termos doutrinários e de discurso. Mantendo como trave mestra a democracia cristã, mas alargando-se a outras correntes da direita. “Cabe mais dentro do CDS. Queremos abarcar mais, chamar mais, e continuar a ser o grande partido da direita portuguesa”, como afirmou Pedro Mota Soares, que alinha com Melo nesta estratégia.

Ou seja, como disse, por sua vez, Melo, estar preparado para quando os “ventos da história” que deram vitórias a outros partidos europeus mais conservadores chegarem a Portugal.

O objectivo foi propositadamente lançado nas europeias, para o consolidar até às legislativas, em que o CDS se apresentaria já com uma nova linguagem, mais conservador e populista, embora esta segunda vertente não seja assumida pelos pais desta estratégia. Nuno Melo está mesmo convencido de que este recentramento doutrinário é o único caminho que permitirá ao CDS crescer.

O problema é que alguns não querem ir por aí, e entre eles está Assunção Cristas e os seus mais próximos, que querem manter um CDS no centro-direita, mais moderado, longe dos extremistas, é certo, mas também longe de um lado mais conservador e populista. Alguns lembram que o que está “escrito nos estatutos” é que o partido é de centro-direita, Cristas não se cansou de o repetir, e os que estão com ela nem querem entrar na discussão.

Em momento de derrota, o que está dividido mais se divide, pelo que é, para já, difícil saber qual dos lados tirará mais partido deste desaire das europeias. Mesmo que o recentramento ganhe adeptos, esta não será altura para se falar na sucessão da líder. Faltam cerca de quatro meses para as legislativas e Cristas vai ter de levar o “fardo” até ao fim, mesmo que ele seja mais pesado com a divisão interna. Depois, logo se verá.

Para já, o CDS anunciou no seu site uma reunião do seu Conselho Nacional para dia 30, que tem como objectivo a “análise dos resultados das eleições europeias”. Nessa reunião serão também aprovadas as contas relativas a 2018.