LUSA/MIGUEL A. LOPES
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Os sete mitos das eleições europeias de 2019

Será que houve mesmo menos pessoas a votar? Ou que as sondagens acertam com frequência? Eis sete mitos que rodeiam as eleições europeias de 2019.

Mito 1: houve menos pessoas a votar

Os resultados provisórios das eleições europeias mostram que votaram em 2019 mais 14 mil pessoas do que em 2014. Devemos, claro, alertar para a crescente abstenção, mas o aumento do seu valor percentual, deveu-se ao recenseamento automático que introduziu mais de um milhão de eleitores nos cadernos eleitorais que praticamente não votaram, ou pelo menos não o fizeram por Portugal.

A melhor estimativa da abstenção foi a sondagem que indicou que 69% das pessoas não conseguiam indicar o nome de um único deputado europeu. Curiosamente, o valor da abstenção foi de 68,6%. Os portugueses que não conhecem os candidatos não votam neles. Parece razoável.

Mito 2: as campanhas ganham-se nas redes sociais

Não é preciso que os partidos façam uma grande reflexão. É preciso que entendam duas realidades antagónicas. A primeira é a de que as eleições se fazem cada vez mais nas redes sociais. Sim, mas depende do público-alvo. O partido que mais cresceu percentualmente, o PAN, é também o que tem mais seguidores nas redes sociais. Mas seguidores não significam necessariamente votos. O PSD tem quase o dobro dos seguidores do PS no Facebook e isso não impediu a vitória socialista. Já o Nós Cidadãos tem mais de 61 mil seguidores e teve menos de 35 mil votos nas europeias.

Mito 3: as campanhas ganham-se nas televisões e nos debates

A segunda realidade é a queda do mass marketing mediático da televisão. Numa sondagem publicada no sábado, 76% dos eleitores diziam que os debates de campanha não os ajudaram a ficar mais esclarecidos sobre o que os partidos querem fazer no próximo Parlamento Europeu. Por outro lado, por muito que nos façam rir, comediantes como Ricardo Araújo Pereira ajudam mais a descredibilizar a política do que a esclarecer de forma light os temas mais importantes da campanha. Alguns programas americanos, como o Daily Show, talvez pudessem dar boas orientações para um maior equilíbrio entre a pura chacota e a discussão de algum conteúdo que chegue às pessoas. Mas no que toca aos partidos, devem-se exigir novos formatos de debates e esclarecimento. Formatos que incluam espectadores, perguntas e interacção com o público e jornalistas que coloquem cenários concretos de votação perante os candidatos para que se veja, em directo, como reagiriam.

Mito #4: as campanhas ganham-se em grandes acções de campanha

Os típicos jantares da carne assada e as arruadas, que acabam por juntar apenas os mais “ferrenhos”, dizem pouco às pessoas e servem apenas para que as televisões se ocupem a comentar quem consegue mais pessoas e a destacar aquele jovem que não sabe o nome do candidato — 64% das pessoas dizem que as acções de campanha das últimas semanas, focadas nestas duas principais formas de acção política, não ajudaram a definir as suas escolhas. Mais de 9% referiram que reforçou a sua vontade de abstenção.

Como alternativa, os partidos talvez devam falar menos e mostrar-se menos nas televisões e aproveitar a sua lista de elegíveis, não só o principal candidato, para espalhar acções presenciais em todo o país, visitando escolas, universidades, empresas, associações e eventos. Os candidatos mais locais deverão estar sempre nos cartazes ao lado do principal candidato para que os cidadãos se sintam mais próximos e saibam em quem estão a votar. Idealmente, o calendário de debates, acordado pelos partidos, deve incluir sessões públicas, em todos os concelhos, com participantes indicados por cada partido que podem ser acompanhadas por meios de comunicação social, incluindo os jornais e rádios mais locais.

Mito 5: a direita perdeu votos

Na sua totalidade, os três partidos da direita/centro-direita tiveram em 2019 quase mais 84 mil votos (se somados PSD + CDS + Aliança), um crescimento de 8% em relação a 2014 e o PS cresceu apenas mais 72 mil votos que cresceu apenas 6%.

A maioria destes votos adicionais derivou da ausência do Movimento Partido da Terra, cujos problemas internos impediram a sua apresentação de lista, que em 2014 elegeu Marinho e Pinto com mais de 234 mil votos. O maior beneficiado desta derrota por falta de comparência foi o PAN que captou um crescimento de 113 mil votos,

Nos partidos das “franjas”, a grande desilusão vai para a fraca adesão à Iniciativa Liberal e por outra pelo forte resultado do Basta! que captou quase 50 mil votos (1,5%). Se é verdade que o voto no Basta! pode ser de protesto e que o voto na Iniciativa Liberal seria sempre irrelevante no contexto das eleições europeias, não deixa de ser uma indicação de um mau arranque deste partido que teve algumas mensagens acertadas que talvez não tenham colhido confiança suficiente pelos eleitores.

Mito 6 (um mito que cai nestas eleições): os eleitores do PCP votam sempre

Em termos de partidos, o grande derrotado é o PCP. O mito de que “os eleitores do PCP” votam sempre caiu de vez. O PCP perdeu mais de 188 mil votos em relação a 2014, uma queda de 45%! Estes votos foram captados sobretudo pelo Bloco de Esquerda (aumentou 175 mil votos). A esquerda em Portugal está a apreciar o pragmatismo do Bloco em detrimento dos chavões antigos do PCP. Mudanças à vista no líder que leva a foice e o martelo?

Mito 7: as sondagens acertam com frequência

As sondagens para estas eleições acertaram no valor obtido pelo PS desde Janeiro (utilizando o historial da Aximage) com um valor a oscilar entre os 30% e 34%. Já as perspectivas para o PSD oscilaram entre os 20% e os 32%. Ora, com esta amplitude de variação é impossível não acertar.

O principal problema das sondagens é serem, como se diz em inglês, uma self-fulfilling prophecy, isto é, uma profecia auto-realizável. Quando uma sondagem sai na sexta-feira anterior às eleições, isso marca claramente a opção dos eleitores do que fazer no fim-de-semana. Numa sociedade em que todos os minutos contam, uma sondagem que indica uma eleição praticamente decidida, como pareceram indicar os resultados publicados dia 24, gera naturalmente uma maior abstenção. E gera ainda um enviesamento dos resultados para os extremos. Quem tem intenções de votar no partido vencedor, terá mais vontade de tirar alguns minutos do seu dia no domingo. E, ao invés, quem acha que vai perder de qualquer forma, pode sentir-se desincentivado a sair de casa para votar.

Em Espanha, onde as eleições foram mais renhidas e onde havia risco de entrada reforço de votos de partidos extremistas, a abstenção baixou de 66% para quase 50%. A isto não será alheio que a última sondagem tenha sido publicada cinco dias antes do dia da votação, como é lei. Talvez possamos importar, não os extremismos, mas a razoabilidade de deixar a última semana antes da votação, na qual os partidos “dão tudo”, para que as pessoas e não as sondagens façam a sua última reflexão.

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