Birmânia libertou militares condenados por massacre de muçulmanos rohingya

Condenados a dez anos de cadeia, os militares não cumpriram sequer um ano de prisão. Jornalistas que revelaram as execuções ficaram presos mais tempo.

Homens foram assassinados por forças militares birmanesas
Foto
Homens foram assassinados por forças militares birmanesas Reuters/HANDOUT

O Governo da Birmânia ordenou a libertação antecipada de sete soldados que tinham sido condenados pela morte de dez homens e rapazes muçulmanos rohingya. Os assassinatos remontam a 2017 e foram perpetrados na sequência de uma operação militar no estado de Rakhine. A notícia da libertação foi confirmada à agência Reuters por várias fontes: dois responsáveis prisionais, dois antigos prisioneiros e um dos próprios soldados condenados pelo massacre.

Os militares foram libertados em Novembro de 2018, garantem os dois homens que estiveram detidos no mesmo estabelecimento prisional. A saída antecipada destes militares significa que cumpriram menos de um décimo das respectivas penas, que tinham sido fixadas em dez anos.

Esta libertação antecipada significa ainda que os responsáveis pelas mortes ficaram presos menos tempo do que os jornalistas que denunciaram o massacre. Wa Lone e Kyaw Soe Oo, da Reuters, foram presos 16 meses por divulgar segredos de Estado. Os dois jornalistas acabariam por ser libertados a 6 de Maio, amnistiados pelas autoridades birmanesas, depois de terem sido sentenciados originalmente a sete anos de prisão. Os repórteres tinham encontrado a vala comum onde as vítimas foram enterradas, conseguindo ainda obter acesso a fotografias das dez vítimas, antes e depois das execuções. 

“O castigo [dos soldados] foi reduzido pelo exército”, confirmou à Reuters um alto funcionário do governo — que pediu para manter o anonimato. Os sete soldados detidos foram os únicos a ser castigados pelas operações que tiveram lugar em 2007 e que obrigaram mais de 730 mil rohingya a fugir para o vizinho Bangladesh. Investigadores das Nações Unidas dizem que a operação foi realizada com “intenção genocida” e que incluiu assassinatos em série, violações e fogo posto.

O governo da Birmânia sempre negou as acusações da comunidade internacional e apontava para a detenção dos sete militares como uma prova de que as forças de segurança birmanesas não agiam com impunidade.

O militar libertado que falou com a Reuters disse que lhe foi dada ordem para “estar calado”. Os dois guardas prisionais contactados recusaram-se a adiantar a data oficial da liberação dos sete prisioneiros, que ainda não foi publicamente confirmada.