Comentário

Que querem realmente os europeus?

Uma das grandes diferenças entre estas e as eleições de 2014 foi a mudança da estratégia eleitoral dos soberanistas, que escutaram as tendências da opinião pública.

Os eurocépticos e soberanistas propuseram-se fazer destas eleições um referendo sobre o projecto europeu. A conclusão numérica é clara: os soberanistas voltaram a crescer, mas também voltaram a falhar. Não “tomaram a fortaleza”. Para lá do voto, ou por trás dele, os europeus manifestam “medo do futuro” e uma súbita consciência de que o projecto europeu “pode morrer” se não for reinventado, tirando partido da sua grande, e pouco visível, reserva de energia.

Os grupos europeístas do Parlamento Europeu ­– democratas-cristãos, socialistas, liberais, Verdes – recuam mas mantêm uma sólida maioria. Os piores augúrios voltaram a não se realizar. A UE continua a resistir às crises.

Uma das grandes diferenças entre estas e as eleições de 2014 foi a mudança da estratégia eleitoral dos soberanistas, que escutaram as tendências da opinião pública: deixaram de apelar ao abandono da UE e do euro para propor a sua transformação, ou liquidação, a partir de dentro.

A dinâmica soberanista deve ser levada a sério mas não sobrestimada a ponto de a tomarmos como irresistível, previne o politólogo Marca Lazar. Os populistas debatem-se na maioria dos casos com “tectos de vidro”, uma barreira invisível que não conseguem superar. Dois terços dos europeus não votam neles.

O caso francês é paradigmático. Marine Le Pen bateu o partido de Emmanuel Macron, com 23,3% dos votos contra 22%. Mais do que uma vitória de Le Pen – muito menos relevante que a de 2014 – é uma derrota de Macron, cuja influência é ameaçada. Le Pen continua encerrada sob o seu “tecto de vidro”, um eleitorado que já não se expande. Ganha graças ao estilhaçamento partidário. Os socialistas (7%) já se tinham desintegrado. Agora, Os Republicanos, a direita tradicional, descem ao abismo com 8,5%. A grande crise política francesa não roda em torno da extrema-direita mas da literal implosão do sistema partidário. É esta a ferida exposta da política francesa.

Na Itália venceu a Liga de Salvini. Confirmou o estatuo de primeiro partido. Definiu as europeias como “um referendo entre a vida e a morte, entre passado e futuro, entre Europa livre e estado islâmico baseado na precariedade e no medo.” Sem resultados finais é imprudente comentar. É importante verificar se fica abaixo ou acima dos “simbólicos” 30%: saber se é “irresistível” ou se também ficará capturado sob um “tecto de vidro”.

O europessimismo

Os europeus têm medo do futuro, dizem os inquéritos. As instituições, seja a UE sejam os Estados nacionais, não sabem responder ao pessimismo, que se vai tornando num factor de desintegração da Europa.

O European Council on Foreign Relations (ECFR) publicou há dias um desconcertante inquérito em 14 países da UE, realizado por YouGov e intitulado “O que os europeus realmente sentem”. Portugal não foi incluído.

O relatório começa assim: “No ano da eleição do Parlamento Europeu, o maior desafio para a União Europeia não é o eurocepticismo ou o anti-europeísmo mas o europessimismo. (…)  A maioria dos eleitores da UE acredita que o projecto europeu pode entrar em colapso dentro de 10-20 anos.” São excepção a Espanha, Dinamarca e Suécia. Mas 58% dos franceses, para não falar nos italianos e alemães, partilham deste temor, que não tem geografia mas divide os países. Há uma correlação entre este dado e as “posições europeias” dos inquiridos: o pessimismo é dominante entre eleitores eurocépticos ou soberanistas, o optimismo domina entre europeístas.

Mais chocante: uma “significativa proporção de europeus em todos os países membros acredita que a guerra entre Estados-membros da UE é uma possibilidade realista”. Não estão a pensar em tanques e bombardeamentos mas numa “lógica de combate, concorrência e conflito na sociedade europeia”. A mesma correlação: a “lógica da guerra” prevalece entre os soberanistas.

Que mais temem perder os europeus em caso de desintegração da UE? As vantagens do mercado único e a liberdade de viajar sem fronteiras ou de trabalhar noutros países; em segundo lugar surge a “capacidade europeia enquanto actor global”, a segurança e a cooperação multilateral num mundo dominado por potências, em que a UE deveria liderar o tema da mudança climática.

Lembram os autores que, no último Eurobarómetro, 68% dos inquiridos reconheciam que a pertença à UE beneficiou os seus países. É aqui, e no temor de perda da UE, que se localizaria “a reserva de energia” que acima refiro. O problema, mais do que dos eurocépticos, será da responsabilidade dos europeístas.