Fiat propõe fusão à Renault para criar um novo “líder mundial”

Junção dos italianos com franceses daria origem ao terceiro maior fabricante de carros do mundo. A nova empresa teria sede na Holanda, detida em partes iguais. Grupo Renault vai reunir-se esta segunda-feira.

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John Elkann, "chairman" da FCA e a escolha dos Agnelli para liderar a administração dos italianos Reuters/Denis Balibouse

A Fiat perdeu em 2018 um líder que acreditava na inevitabilidade das fusões na indústria automóvel, mas ainda que viva sob uma nova liderança desde a morte de Sergio Marchionne, continua a acreditar que a sobrevivência passa pela consolidação. O conselho de administração do construtor italiano acaba de formalizar uma proposta de fusão com a Renault. A ideia é criar uma nova empresa, sediada na Holanda, em que ambos os construtores detenham partes iguais do capital (50%). A concretizar-se, nasceria o terceiro maior fabricante mundial.

“A fusão das duas empresas daria origem a um líder mundial numa indústria em rápida transformação”, escreve a administração da Fiat numa carta em que propõe a fusão e que foi enviada à Renault. Esse novo “líder mundial” teria “uma forte posição nas tecnologias transformadoras” que marcam a actualidade, “incluindo a electrificação e a condução autónoma”, argumentam os acuais gestores da herança italiana do império Agnelli, a toda-poderosa família de Turim que criou a Fabbrica Italiana Automobili Torino (Fiat)​ em 1899.

O grupo Renault confirmou a recepção da proposta de fusão e, num comunicado emitido esta manhã, fez saber que o conselho de administração vai reunir-se ainda esta segunda-feira para a analisar. 

Quer a Fiat, que se fundiu com os norte-americanos da Chrysler (criando a Fiat Chrysler Automobiles, ou FCA, em 2014), quer a Renault, que tem uma aliança global há 20 anos com os nipónicos da Nissan (à qual se juntaria anos mais tarde a Mitsubishi), sabem o que significa unir esforços com outras “famílias” industriais. Desta vez, garante a Fiat, uma fusão entre os dois grupos não acarretaria o fecho de fábricas, afirma a carta, gerando sinergias adicionais de cinco mil milhões de euros.

A FCA empregava 198 mil pessoas em todo o mundo em 2018, ao passo que o construtor francês contabilizava 181 mil funcionários no final de 2017.

A Renault é líder de vendas em Portugal e a Fiat foi a quinta marca mais vendida em 2018, com um crescimento de 15,5% face a 2017. Em termos mundiais, a Renault disputou a liderança à Volkswagen, com vendas globais de 10,3 milhões de veículos (para a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi). A FCA, por seu lado, vendeu 4,8 milhões de carros.

Não é claro quais são os planos da FCA para a tal aliança que o anterior líder da Renault, Carlos Ghosn, quis levar para uma verdadeira fusão, tendo sido travado pela falta de vontade dos japoneses e por um escândalo de evasão fiscal e uso indevido de bens, pelo qual ainda aguarda julgamento em Tóquio.

Isto porque na carta que a Fiat enviou aos franceses refere que a fusão com a Renault criaria o terceiro maior fabricante do mundo, com vendas combinadas de 8,7 milhões de veículos. Ainda que contabilize as sinergias adicionais da aliança dos franceses com parceiros japoneses, esse número de vendas é a soma das vendas das marcas Renault e da FCA. E mostra que os italianos apenas contam nesta fase com a Renault, que tem uma forte participação do Estado francês na estrutura accionista (15%). “A nossa proposta centra-se na fusão entre a FCA e o grupo Renault, mas a FCA quer também trabalhar no futuro com os outros parceiros da Renault na aliança”, lê-se ainda na missiva.

“A proposta surge na sequência de discussões iniciais operacionais entre as duas empresas para identificar produtos e geografias em que possam colaborar, em particular neste momento em que desenvolvem e comercializam novas tecnologias”, lê-se na carta que agora está nas mãos da equipa de gestão da Renault, que também mudou de líder depois da prisão preventiva de Carlos Ghosn. “Ficou claro após estas discussões que uma colaboração mais estreita através de uma fusão melhoraria de forma substancial a eficiência e a celeridade de desenvolvimento de produto”, defende a gestão da FCA, que antevê a necessidade de se tomar “decisões corajosas” para “aproveitar as oportunidades” que estão a ser criadas pela “transformação da indústria em áreas como a conectividade, a electrificação e a condução autónoma”. 

A Fiat propõe-se assim a partilhar plataformas, arquitecturas, motores e tecnologias, salientando que tem experiência em fusões. A Renault, por seu lado, tem tentado transformar a aliança com os japoneses numa fusão, mas sem sucesso.

A combinação das duas empresas daria origem a uma nova entidade, liderada por um conselho de administração com 11 membros, diz a carta. Quatro seriam da Renault, outros tantos da FCA e um da Nissan, que é detida em parte pelos franceses (43,4%).

A sede da nova empresa seria na Holanda, o capital repartido em partes iguais, estando cotada nas bolsas de Milão, de Paris e de Nova Iorque.

Os benefícios seriam partilhados em partes iguais pelos actuais accionistas da FCA e do grupo Renault. “Para mitigar a disparidade nos valores de mercado, os accionistas da FCA receberiam 2500 milhões de euros”, propõe a marca italo-americana.

A concretizar-se, este negócio juntaria numa mesma família industrial e comercial marcas tão distintas quanto a Maserati e a Alfa Romeo, do portefólio da Fiat, com a Dacia e a Lada, que estão na família do grupo Renault.

Segundo as contas, 90% das sinergias viria das vendas (que permitiriam um corte de 40%), da investigação e desenvolvimento (30% de poupanças) e da produção (20%). Seria ainda possível reduzir o número de plataformas e de motores em 20% e 30% respectivamente. Os cinco mil milhões de sinergias seriam obtidos até ao quinto ano de vida em comum.