Editorial

A Europa resistiu e Portugal também

Quem se apresentou na noite de domingo com um sorriso foi apenas Catarina Martins e António Costa.

A União Europeia tremeu com a eleição de ontem para o seu parlamento, mas resistiu. O vendaval do nacionalismo e do populismo que muitos temiam e alguns estudos de opinião auguravam não passou de uma ameaça. A Europa não deixou de tremer depois deste domingo, nem sequer há razões à vista para se acreditar que o antieuropeísmo está contido, e ainda menos derrotado. Mas, por uma vez, vejamos o copo meio cheio e notemos o que aconteceu na Holanda, na Alemanha ou na Espanha. E sim, notemos também no que aconteceu em Portugal, que este domingo deixou uma vez mais uma prova da sua ligação à Europa — e aos valores da democracia liberal. Ainda não foi desta que o populismo vingou no país e essa é sem dúvida uma razão para nos regozijarmos, apesar da trágica taxa de abstenção ter ensombrado a eleição.

No essencial, o Portugal político-partidário que sai destas europeias revela um quadro conformista e conservador, quer em relação à situação interna, quer em relação à União Europeia. O PAN consolida-se como um projecto capaz de atrair as novas gerações, mais sensibilizadas para a sustentabilidade ou para a defesa dos direitos dos animais do que para as disputas da luta de classes, os impostos ou o poder do Estado que impera sobre as discussões clássicas. O PCP cai drasticamente, mas vale a pena notar que parte para esta eleição com um resultado anormal (12.68%) em 2014. O Bloco sobe muito significativamente, mais pelo discurso moderado (e pela excelente campanha) de Marisa Matias em relação à Europa do que os mais íntimos desejos de boa parte da sua liderança. E, a atestar este reforço do grande bloco moderado, temos a queda do CDS, um partido que paga caro o tom ríspido do seu candidato ou a sua vaga hesitação na denúncia do extremismo que assusta a Europa (Nuno Melo não saiu ileso da análise que fez ao Vox).

No grande centro, todos podem encontrar uma válvula de escape para justificar os resultados. O PS poderá recordar que há 20 anos que nenhum partido no Governo ganhava umas europeias, ou sublinhar que, face a 2014, conquistou mais uns pontos percentuais. O PSD tenderá a encontrar na comparação dos resultados com 2014 uma tábua de salvação a uma derrota que, há um mês, poucos adivinhariam ser tão expressiva. No essencial, porém, os números são o que são: há cinco anos, o PS na oposição ganhou por “poucochinho”; este domingo, o PSD, na oposição, perdeu por mais de 10%. Vai ser indispensável encontrar responsáveis. E não basta culpar a abstenção, como Rui Rio ontem fez.

Para uma boa parte do eleitorado flutuante, entre um PSD assexuado e um PS que se dá ao luxo de reclamar o estatuto de paladino das boas contas e da “moderação”, a escolha foi fácil de fazer. O PSD está reduzido ao seus irredutíveis fiéis. E está a encolher sem que o CDS (ou o Aliança) tirem desse processo qualquer proveito. O bloco da extinta PaF está em recuo por ter sido incapaz de produzir uma alternativa de poder. Disputar o terreno tradicional do PS implica o risco de deixar desprotegido o eleitorado que contesta o estatismo, que defende a meritocracia, que advoga a urgência de uma maior liberalização. Nem o CDS nem o PSD são hoje portadores dessa mensagem. Ficaram por isso reféns do PS e da sua hegemonia, particularmente cruel nas grandes cidades.

Quem se apresentou na noite de domingo com um sorriso foi, por isso, e apenas, Catarina Martins e António Costa. A primeira pelos resultados do partido, pela flexibilidade que introduziu no seu discurso e que hoje o afasta da esquerda cavernícola de há alguns anos, e pela sua candidata. Costa por se ter promovido como um líder prudente e confiável e por ter conseguido evitar danos maiores de um cabeça-de-lista sensaborão e vulnerável em decorrência do vazio da sua passagem pelo Governo. Ganham por mérito próprio, mas também por falta de comparência dos adversários. Do PCP que continua a pagar caro o apoio a um “governo burguês” e do bloco da direita que, ao ter feito o jogo da Fenprof, perdeu créditos no seu eleitorado natural.

Numa eleição determinante, sobra a questão essencial: o que vai fazer a União Europeia com a mais alta taxa de participação eleitoral em décadas, com o fim do domínio das suas duas principais famílias políticas, com a consolidação dos verdes e com a subida, embora ténue, da extrema-direita? A Europa resistiu e deu prova da força das suas raízes. Fazer deste momento uma vitória e ficar na contemplação será um desastre. Se há algo que vale a pena sublinhar depois de ontem é que as profecias da desgraça ficaram congeladas. Encarar de frente os problemas da União é a melhor forma de as conservar assim.