O povo de Bolsonaro foi para as ruas exigir que o deixem governar

Manifestações a favor do Presidente e para criticar o poder legislativo realizam-se em várias cidades brasileiras. Bolsonaro apoia-as no Twitter e em discurso na igreja.

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Boneco com cara de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, e do "centrão", e outro de Lula Ricardo Moraes/REUTERS
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Manifestação em Copacana Ricardo Moraes/REUTERS

O Presidente Jair Bolsonaro não foi a nenhuma das centenas de manifestações convocadas para este domingo pelos seus apoiantes “raiz”, como dizem no Brasil para designar os mais fiéis e entusiastas. O objectivo é mostrar a força do apoio popular de que dispõe o capitão do Exército que ocupa o Palácio do Planalto e se queixa de que está à frente de um país ingovernável.

Mas, no Twitter e num discurso na igreja baptista do Rio de Janeiro, onde assistiu ao culto religioso de manhã, Bolsonaro não deixou de mencionar os protestos: “Hoje é o dia em que o povo estará nas ruas, numa manifestação espontânea, dando um recado para aqueles que, com suas velhas práticas, não deixam que o povo se liberte”.

“Pela primeira vez na história do Brasil, um Presidente eleito está cumprindo o que prometeu na campanha”, afirmou Bolsonaro, citado pelo jornal O Estado de São Paulo. Mesmo não indo a qualquer das manifestações, o Presidente não escondeu que as usa como uma forma de pressão – antes de mais, para pressionar o poder legislativo, pelo qual este político, com experiência de 27 anos como deputado federal, se está a sentir constrangido.

E não se coibiu, também, de partilhar vídeos das manifestações e da afluência de passageiros na estação de metro de Copacabana – o ponto de concentração do protesto pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro.

Na praia de Copacabana, um grupo de pára-quedistas na reserva chegou à manifestação a cantar, relata o site UOL. Houve gritos de “mito” e “meu capitão” e cartazes contra o Congresso e o Supremo Tribunal, consideradas instituições de bloqueio da governação de Bolsonaro. Uma estudante de Pedagogia disse aos jornalistas que os congressistas têm de prestar atenção à pressão das ruas. “O povo tem o direito de tomar conta do que é dele”, afirmou.

Davy Albuquerque, um dos fundadores do Movimento Brasil Conservador, e organizador do protesto, disse que é preciso “repudiar toda a velha política que está sendo feita pelo centrão”. Os partidos de direita no Congresso, na verdade, mais não estão a fazer do que aproveitar o vazio deixado pela incapacidade do Governo, que lhes está a dar uma força inusitada num sistema presidencialista.

Em vez de tomar as rédeas à governação, e a articulação com o Congresso, Bolsonaro apostou, como de costume na estratégia de confronto – nas redes sociais, e nas ruas.

O mote da “traição”, e os ataques aos líderes dos partidos do chamado “centrão” (conjunto de partidos de direita) do presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, foi mesmo o bombo da festa em muitas das manifestações. Sobretudo em Brasília, que começou de manhã cedo, e na qual terão participado 20 mil pessoas, segundo a polícia. “Vamos deixar nosso Presidente governar”, gritava de um carro de som um apoiante de Bolsonaro, do movimento Direita Brasil, relata o jornal Folha de São Paulo.

Uma ideia forte era mesmo identificar os que são considerados “traidores” – políticos ideologicamente próximos de Bolsonaro, um político de extrema-direita, mas que não têm facilitado a aprovação no Congresso do polémico pacote anti-crime do ministro da Justiça Sérgio Moro ou o da reforma da Segurança Social do ministro Paulo Guedes.

Em Brasília, o Movimento Brasil Livre, que ganhou importância nos protestos a exigir o impeachment da Presidente Dilma Rousseff, foi posto no campo dos traidores. E o mesmo aconteceu a Janaína Paschoal, por ter criticado a realização destas manifestações, ainda que seja deputada estadual em São Paulo do Partido Social Liberal, o de Bolsonaro, e tenha no currículo ter sido a advogada que fez a queixa que levou ao impeachment.

Em São Paulo, onde o protesto começava mais tarde, os manifestantes misturavam-se com a multidão habitual que invade a Avenida Paulista ao domingo, quando é cortado o trânsito. Mas há camiões na via e líderes do protesto dos camionistas que há cerca de um ano paralisou o Brasil, devido ao aumento do preço do diesel – que declararam o seu apoio a Bolsonaro e elegeram o “centrão” como inimigo. Wanderlei Alves, conhecido como “Dedéco”, que há um ano liderou a greve, disse há dias à revista Veja que o Congresso está a travar o Governo e a atrapalhar o Brasil.