O “Brexit” sem acordo já está no centro da luta pela sucessão de May

Os quatro principais candidatos dizem estar dispostos a avançar com um divórcio duro, mas Hammond avisa para os perigos de o novo líder chegar ao parlamento com uma visão dura e uma atitude absolutista.

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Boris Johnson EPA

A possibilidade de o Reino Unido sair da União Europeia sem acordo está já no centro da batalha pela sucessão de Theresa May na liderança do Partido Conservador e do Governo. Para já, cinco tories anunciaram candidaturas - Boris Johnson, Dominic Raab, Esther McVey, Andrea Leadsom e Michael Gove.

May anunciou na sexta-feira que deixa de ser primeira-ministra no dia 7 de Junho, ainda que permaneça como interina até haver um novo líder, admitindo que em três anos não conseguiu concretizar o “Brexit” que foi aprovado em referendo pelos cidadãos em 2016.

Abriu caminho para um novo líder que possa gerir as divisões internas no Partido Conservador (maioritariamente pró-"Brexit") sobre a forma de fazer o divórcio, assim como no parlamento. Quatro dos candidatos já disseram que o Reino Unido tem que sair do bloco europeu a 31 de Outubro, a nova data depois da inicial, 29 de Março, não ter sido cumprida, mesmo que isso signifique um hard Brexit (sem acordo).

“Vou lutar por conseguir um acordo melhor em Bruxelas... se isso não acontecer sairemos nos termos da Organização Internacional do Comércio em Outubro”, disse à BBC Dominic Raab, que as casas de apostas que o põem em segundo lugar na corrida à liderança, atrás de Boris Johnson.

Bruxelas já disse que os termos do acordo não são negociáveis. O tratado jurídico de 600 páginas acordado com Theresa May tem que ser ratificado pelo parlamento em Westminster, mas já foi rejeitado três vezes pelos deputados. Se isso não acontecer, sobra o cenário do no deal, com a União Europeia a dizer que está preparada para qualquer circunstância. 

“Nada muda no que diz respeito ao acordo de saída, nem em termos de negociação. A nossa posição, tal como a do Conselho, é clara e já foi repetida muitas vezes”, disse na sexta-feira a porta-voz da Comissão Europeia, Mina Andreeva. “A UE continua a trabalhar no pressuposto de que o ‘Brexit’ acontecerá no dia 31 de Outubro. Tomámos todas as medidas necessárias, aprovámos legislação e traçámos planos de contingência. Estamos preparados para qualquer cenário”, garantiu.

Se uma nova negociação não funcionar, disse Raab, não pedirá um novo adiamento do “Brexit” - uma opção que também não agrada a Bruxelas.

Esther McVey e Andrea Leadsom fizeram declarações do mesmo teor este domingo. Boris Johnson afirmou logo na sexta-feira que “o Reino Unido deixa a UE a 31 de Outrubro, com ou sem acordo”. 

Michael Gove, que na campanha para o referendo de 2016 fez campanha pela saída e disputou a liderança do Partido Conservador quando David Cameron saiu (Theresa May ganhou) disse aos jornalistas este domingo que planeia ser novamente candidato à liderança tory.

“Estou pronto para unir o Partido Conservador e o Partido Trabalhista e pronto para concretizar o ‘Brexit’ e para dirigir este grande país”, disse.

Além de já terem rejeitado três vezes o acordo de May para o “Brexit”, o parlamento britânico rejeitou também a possibilidade de uma saída sem acordo. Por isso, sublinhando as profundas divergências dentro do partido que governa o Reino Unido, algumas figuras de top da hierarquia conservadora, entre elas outro potencial candidato à liderança, Rory Stewart, advertiram este domingo para o perigo de se estar a definir já que o rumo é o no deal.

E o ministro das Finanças, Philip Hammond, disse que o parlamento “se irá opor veementemente” à estratégia do no deal - e que qualquer primeiro-ministro que ignore o parlamento “não deve esperar sobreviver durante muito tempo”.

“Peço a todos os meus colegas que estão nesta corrida para aceitarem o conceito do compromisso... ir para o parlamento com uma postura absolutista e querendo que o parlamento aceite a via da linha dura pode ser uma estratégia perigosa”, disse Hammond à BBC.

Hammond recusou dizer como votará se houver uma moção de censura ao futuro Governo se este adoptar essa postura.

“Em 22 anos como deputado nunca votei contra os conservadores - disse Hamkond - e não quero ter que começar agora”.

O Partido Trabalhista anunciou já que quer começar a trabalhar com outras forças políticas no parlamento para impedir o sucessor de May de avançar com o “Brexit” sem acordo.

“Há neste momento o risco de um brexiteer extremista se tornar líder do Partido Conservador e de nos liver para o abismo do no deal”, disse um dos porta-voz do Labour, John McDonnell, à Sky News. “Temos que nos movimentar para bloquear isso”.

Perante esta nova perspectiva de impasse e de guerra política em Londres, o Reino Unido sabe na noite deste domingo o resultado das eleições europeias que já realizou na quinta-feira. As sondagens davam uma vitória confortável à nova formação de Nigel Farage, que se chama Partido do Brexit e defende a saída do Reino Unido da UE sem acordo.