Murtosa transforma imóveis históricos em casas da cultura e das artes

Ao mesmo tempo dá o exemplo ao nível da realibilitação urbana, o município está a criar novos espaços para formar as crianças e jovens para as artes e, ao mesmo tempo, acolher eventos culturais.

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Obras no Centro Recreativo Murtoense e na Assembleia Theatro da Torreira avançarão este ano. Mais tarde, será o Cine-Teatro da Murtosa PAULO PIMENTA

O Centro Recretivo Murtoense deverá ser o primeiro a ver as obras arrancar – o concurso público para a reabilitação do antigo imóvel acaba de ser lançado. Segue-se a Assembleia Theatro da Torreira, construída pela família Barbosa, na década de 50 do século XX, para acolher as festas das famílias burguesas que iam a banhos, no Verão, à praia. Por fim, será a vez do Cine-Teatro da Murtosa, conhecido vulgarmente por “Casa dos Escuteiros”. Três imóveis históricos que marcaram as vivências da comunidade murtoseira e que estão prestes a ganhar uma nova vida. A câmara municipal vai avançar com a sua reabilitação, perspectivando colocá-los ao serviço da formação artística das crianças e jovens do município e, em simultâneo, da própria dinâmica cultural do concelho.

A aposta tem por base “o respeito pela memória desses imóveis, alguns deles construídos por subscrição pública”, na certeza de que, com esta estratégia, a câmara “acaba por ser ela própria indutora desse esforço de reabilitação urbana”, realça o presidente da autarquia, Joaquim Baptista. “Damos o exemplo reabilitando uma série de edifícios públicos, procurando criar uma espécie de efeito contágio”, vinca. E, em simultâneo, o município cria uma rede formativa artística polinucleada - cada um desses imóveis ficará alocado a uma determinada área.

“Queremos que as crianças e os jovens tenham acesso às artes, ao ensino da dança ou da música, mesmo que os pais não tenham condições para pagar essas actividades”, defende o autarca. “Nem todos vão ser actores, bailarinos ou músicos, mas estamos a criar públicos e massa crítica”, vinca Joaquim Baptista.

Efectivamente, este projecto começou a desenhar-se com a reabilitação da antiga escola primária Pardelhas-Monte (originária da década de 30 do século XX). É lá que funciona a Oficina das Artes - valência que proporciona aulas de pintura e música para crianças do primeiro ciclo -, exemplo daquilo que a autarquia quer, agora, estender aos restantes imóveis históricos.

As obras no Centro Recreativo Murtoense e na Assembleia Theatro da Torreira, ambas com orçamentos na ordem do meio milhão de euros, deverão avançar no terreno ainda este ano – a primeira já tem concurso lançado e a segunda não tardará muito a seguir o mesmo exemplo -, ficando para mais tarde a do Cine-Teatro da Murtosa. “Temos de ir distribuindo no tempo esse esforço financeiro, na certeza de que queremos ter as três obras prontas até ao final de 2021”, perspectiva o edil, notando que a Murtosa, tal como outros municípios de baixa densidade populacional, é um “parente pobre” no que toca ao acesso a fundos comunitários para a reabilitação urbana. “Temos apenas pouco mais de um milhão de euros”, refere, ainda que se mostre esperançoso de vir a receber mais algum financiamento já com as obras concluídas.

O calendário definido pelo município prevê que a obra do Cine-Teatro se inicie assim que as reabilitações dos outros dois imóveis estejam quase concluídas, mas a construção das acessibilidades e estacionamento (150 lugares) avançará muito em breve. “Apesar de ser um edifício muito bonito e importante, não tem uma rede viária e estacionamento envolvente”, nota o autarca.

Gerar a necessidade de uma grande sala

Esta aposta da câmara municipal em ter vários edifícios mais pequenos dedicados à cultura não quer dizer que a Murtosa não ambicione vir a construir um equipamento cultural de maiores dimensões e mais modernos – a exemplo dos seus municípios vizinhos. “Esse é um projecto que está na calha mas, primeiro, queremos colocar a máquina a trabalhar. Ou seja, com estes pequenos espaços a trabalhar e a criar projectos culturais, vão ser eles próprios a gerar a necessidade de termos um espaço maior para apresentação pública”, argumenta Joaquim Baptista.

O autarca não quer que o município fique “refém de obras megalómanas”, preferindo olhar para a “cultura não apenas como uma casa ou um equipamento”, mas sim “uma rede”. Assim sendo, a prioridade passará por incentivar o surgimento de grupos, artistas e produtos culturais locais, nestes imóveis históricos que agora vão ser renovados. Só depois, numa fase posterior, será dado seguimento ao desenho pormenorizado de um novo centro cultural.