Ali, por ele próprio

Está disponível na HBO What’s My Name: Muhammad Ali, um documentário em duas partes sobre um homem que foi muito mais que um dos maiores pugilistas de sempre.

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Nada melhor do que conhecer Muhammad Ali através das suas próprias palavras

Melhor do que ver Muhammad Ali combater (e isso não será ao gosto de toda a gente), é ouvi-lo falar, por exemplo, do dia em que, recém-ordenado campeão olímpico e com a medalha de ouro ao pescoço, foi almoçar a um restaurante na baixa de Louisville. Era um dia em que lhe apetecia um café e um hambúrguer. “A senhora que estava ao balcão disse, ‘Não servimos pretos’. Eu não quero pretos. Quero um café e um hambúrguer!” Enquanto esteve na posse de todas as suas faculdades, Ali sempre teve muita coisa para dizer, com um insulto, com um poema, com uma declaração de princípios, a defender os seus ou a atacar os dos outros.

Por isso, nada melhor do que conhecer Muhammad Ali através das suas próprias palavras, que é o que nos propõe What’s My Name: Muhammad Ali, um documentário em duas partes que está disponível no serviço de streaming da HBO, realizado por Antoine Fuqua (Dia de Treino) e produzido pelo basquetebolista LeBron James. Poucas vidas do século XX terão sido tão retratadas como a de Ali, que tem uma imensa bibliografia, iconografia e filmografia sobre si — The Fight, livro de Norman Mailer, e When We Were Kings, vencedor do Óscar de melhor documentário em 1996, são dois pontos altos — e, por isso, este What’s My Name não acrescenta nada à lenda. Mas não precisa de o fazer.

É verdade que não há testemunhos novos, nem imagens inéditas e não vai muito pelo lado pessoal. Basicamente, é um trabalho de recolha e montagem, como acontece muitas vezes em documentários sobre grandes figuras do desporto (Senna, de Asif Kapadia, é um bom exemplo), e a narrativa da vida de Ali em What’s My Name é bastante linear, detalhado tanto quanto um documentário pode ser antes de se tornar uma enumeração de datas e nomes. O que faz a diferença é: não há ninguém a falar por ele. Não há ninguém a explicar as suas acções, a tentar adivinhar as suas motivações, a não ser o próprio Ali, que esteve na linha da frente em várias frentes durante décadas.

Ali foi um pugilista de excepção e What’s My Name mostra-nos isso desde os tempos em que se evidenciou como amador, com foco especial na medalha de ouro conquistada nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960, até à sua progressão fulgurante como profissional, e a intercepção dessa carreira desportiva com o activismo na luta pelos direitos civis da comunidade negra nos EUA. Ouvimos a história quase sempre pelas palavras de Ali, incluindo o momento que dá o título ao filme, aquele combate contra Ernie Terrell em que este insiste chamar-lhe Cassius Clay, o nome a que Ali, que, entretanto, se convertera ao islamismo e aderido à Nação do Islão, tinha renunciado por considerar que era o seu nome de escravo. “Como é que eu me chamo?”, foi a pergunta com que Ali castigou Terrell durante 15 assaltos, com a boca e com os punhos, antes de ganhar por decisão unânime dos juízes.

Todas as histórias marcantes e frases icónicas estão no filme, o Rumble in the Jungle, o Thrilla in Manilla, o “voo como uma borboleta, pico como uma abelha”. Mas também marca presença o homem, que tantas vezes (sempre) se armava em fanfarrão com os adversários, a narrar a sua própria lenta decadência, menos ágil de braços, de pernas e no discurso. A última parte do filme, em que é evidente a debilidade física de Ali causada pela doença de Parkinson, é um epílogo penoso, as derrotas sucessivas e degradação física (mas integral para conhecer o homem atrás da lenda), fechando com um momento simbólico, em que um homem chamado Muhammad Ali acende o fogo olímpico nos Jogos de Atlanta em 1996, ele que tinha sido campeão 36 anos antes com outro nome.