Armadilha para a vespa-asiática funciona como um cavalo de Tróia

Cientistas em Portugal desenvolveram uma nova armadilha para destruir os ninhos de vespas-asiáticas. Esta sexta-feira discutiram-se os resultados já obtidos e os próximos passos deste projecto.

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A vespa-asiática foi detectada pela primeira vez em Portugal em 2011,A vespa-asiática foi detectada pela primeira vez em Portugal em 2011 Adriano Miranda,Adriano Miranda
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A cápsulas esféricas têm proteínas animais, aromas e polissacarídeos Adriano Miranda

A vespa-asiática tem vindo a conquistar terreno em Portugal, mas também está prestes a ganhar uma nova inimiga. Perto das colmeias, a Vespa velutina poderá vir a encontrar pequenas esferas. Como as confundirá com o tórax de abelhas – que tanto aprecia –, levá-las-á para o seu ninho. Aquilo que a vespa-asiática não sabe é que esse petisco é, afinal, um “cavalo de Tróia” que libertará um biocida e matará as vespas no ninho. Criadas por cientistas do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), em Braga, estas cápsulas vão entrar na última fase de desenvolvimento e ser testadas numa zona aberta (mas ainda num ambiente controlado) a partir de Junho. Os resultados e potencialidades desta armadilha foram discutidos esta sexta-feira no INL.  

Em 2016, o INL foi desafiado para criar uma nova armadilha para a Vespa velutina. “O desafio foi lançado para termos algo que pudesse ser selectivo e destruísse os ninhos da vespa-asiática de forma não convencional”, conta ao PÚBLICO Miguel Cerqueira, engenheiro biológico do INL e um dos envolvidos no projecto científico Arma4Vespa. “As formas convencionais estão relacionadas com a identificação de ninhos, a sua recolha e muitas vezes com o uso de insecticidas ou pesticidas. Há ainda quem os destrua através de fogo.”

Liderado pelo INL, este projecto tem como parceiros a TecMinho (uma associação promovida pela Universidade do Minho e a Associação dos Municípios do Vale do Ave), a Associação de Apicultores do Cávado e Ave (Apicave) e a Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP). O Arma4Vespa foi financiado pelo Programa Apícola Nacional do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP) em cerca de 150 mil euros.

Acabou então por desenvolver-se uma cápsula esférica composta por polissacarídeos, bem como proteínas animais (com fígado de bovino ou carne de aves) e aromas (como óleo de camélia), que atraem a vespa-asiática. Esta cápsula terá ainda um biocida: um insecticida, pesticida ou um microorganismo de combate biológico. Com cerca de quatro milímetros, estas bolinhas imitam o tórax de uma abelha. Afinal, quando apanha uma abelha, a vespa-asiática corta-lhe as pernas, asas e a cabeça e leva o tórax para o ninho.

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A armadilha criada na projecto científico Arma4Vespa Adriano Miranda

A partir dos testes já realizados, percebeu-se que estas cápsulas funcionam melhor perto das colmeias. Colocadas pelos apicultores junto da colmeia, serão apanhadas e levadas pela Vespa velutina para o seu ninho. “Como normalmente as temperaturas no ninho são mais altas e os materiais acabam por se degradar, esperamos que a vespa coma uma parte da cápsula e ajude à sua degradação [total]”, explica Miguel Cerqueira. Estima-se que durante uma semana a cápsula liberte um biocida e mate as vespas dentro do ninho.

Neste momento, já se percebeu qual deverá ser a formulação da cápsula. Também se verificou que – normalmente – as vespas vão buscar as cápsulas ao final da tarde ou logo pela manhã.

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As cápsulas esféricas desenvolvidas no projecto científico Arma4Vespa Vasco Martins/INL

Em Junho, entrar-se-á na última fase deste projecto – que terá três meses –, para testar a cápsula em zonas abertas com ambiente controlado, como uma gaiola. Em princípio, será testado um ninho de vespa-asiática num local da Apicave em Braga. Nesse teste, quer saber-se qual é o número de cápsulas mais indicado para destruir um ninho e como é que as cápsulas têm de degradar para matar as vespas.

Na tarde desta sexta-feira, deu-se o “arranque” desta fase com a apresentação dos resultados obtidos até agora e da discussão dos próximos passos. Além dos parceiros do projecto, estiveram presentes Soraia Falcão, do Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança, e Maria Shantal Rodríguez Flores, da Universidade de Vigo, em Espanha.

Objectivo: poupar dinheiro

Depois do final do projecto científico, pretende testar-se a cápsula numa zona aberta num ambiente não controlado. Para tal, espera-se que sejam criadas parcerias com instituições científicas, empresas e entidades reguladoras. “Acredito que, se validarmos a cápsula no próximo ano, em poucos meses a teremos no mercado”, diz Miguel Cerqueira. “Isso está não só relacionado com a validação no campo mas também pelo interesse comercial de alguma empresa.”

Quanto ao preço, o cientista espera que seja acessível. Afinal, usou-se uma tecnologia fácil de produzir em grandes quantidades e “com materiais relativamente baratos da indústria alimentar, farmacêutica e veterinária”. E, embora existam várias armadilhas a ser desenvolvidas para combater a vespa-asiática (e até algumas criadas por apicultores), Miguel Cerqueira refere que não conhece nenhuma com as características desta cápsula. “Podemos considerá-la completamente inovadora.”

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Miguel Cerqueira Vasco Martins/INL

Miguel Cerqueira diz ainda que a maior vantagem desta armadilha é a selectividade. Neste momento, existe um manual de boas práticas para a destruição de ninhos desta vespa com outros métodos, mas essas formas de exterminação acabam por ser dispendiosas, refere o cientista. “Com estas cápsulas, não temos o problema da identificação [e destruição] dos ninhos: são as vespas que levam as cápsulas para lá. Pouparemos dinheiro.”

Detectada pela primeira vez em Portugal (Viana do Castelo) em 2011, vespa-asiática já chegou até Rio Maior, no Ribatejo, e espera-se que se alastre ainda mais para sul. “O problema principal é para as abelhas. Além de atacar as abelhas e de acabar por matar algumas, a Vespa velutina faz com que fiquem dentro das colmeias, não se alimentem, tenham problemas nutricionais e acabem por não produzir mel”, descreve Miguel Cerqueira. As pequenas bolinhas que criou poderão ser uma boa ajuda para as abelhas.