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Reportagem

A luta climática estudantil voltou às ruas, de olhos postos nas eleições europeias

Power to the people”, “Abril e Maio de novo” e “Não há planeta B” foram algumas das palavras de ordem da segunda greve climática estudantil. Em Lisboa, os jovens ocuparam as ruas entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República, em Lisboa. Em véspera de europeias, é necessário “pensar nesta luta como um assunto eleitoral”.

O frenesim sentia-se, desde cedo, dentro das carruagens do Metro de Lisboa. Os cartazes de várias dimensões, os rostos pintados de azul e verde e os grupos cada vez maiores de jovens permitiam perceber que, nesta sexta-feira, o Marquês de Pombal iria ser palco de revindicações. Neste caso, da segunda greve climática estudantil, agendada para as 10h30 em 50 localidades portuguesas e mais de 100 países.

Nas escadas da estação de metro Marquês de Pombal ouve-se, repetidamente, “Power to the people”. Quem grita é Alice Vale de Gato, uma das organizadoras da Greve Climática Estudantil em Portugal, que troca o megafone com os vários estudantes que vão subindo para cima da estátua daquela praça. Se as primeiras palavras de ordem faziam lembrar os versos da música de John Lennon, rapidamente se manifestou o cunho português. “Abril e Maio de novo com a força do povo”, gritavam jovens de punho cerrado.

Raquel Santos, 19 anos, estuda na Faculdade de Letras e acredita “que esta luta pode ser um novo Maio de 68”. “Está tudo interligado. É o nascer de um movimento social por determinada causa. E nós também somos estudantes”, compara Raquel, com uma camisola que grita “Quebramos muros”. Para Raquel, as lutas estão relacionadas: “Hoje, grito na rua contra o combate à exploração do petróleo e pela aposta nas energias renováveis. Mas nos outros dias não fico adormecida.”

A luta mostra-se internacional. Não só pelos cânticos — trocadilhos com a música de resistência italiana Bella Ciao​, adaptada pelos jovens para “Terra Xau” —, mas também pelos manifestantes. Berta, de 23 anos, é natural de Barcelona e estuda música em Lisboa desde Janeiro. “Já tinha muito respeito pela Terra e sensibilidade pelo tema das alterações climáticas desde pequena”, garante. Hoje, troca fotografias com os amigos que estão na manifestação da Catalunha. “Quando cheguei emocionei-me muito porque há mesmo uma resistência internacional. Os meus amigos estão lá e também me estão a enviar fotografias”, conta.

“Marcelo, deixa as selfies e trata do ambiente”

Já passa das 11 horas quando os estudantes se começam a mobilizar em direcção à Assembleia da República. Eliana, de 16 anos, organiza-se com os amigos da Escola Secundária António Damásio antes de a marcha ocupar a Rua Joaquim António de Aguiar. “É a primeira vez na vida que venho a uma manifestação”, admite. A sua inspiração é Greta Thunberg — que, no Verão passado, começou sozinha uma greve às aulas, manifestando-se em frente ao Parlamento sueco —, mas foi um professor que causou a intriga pela questão. “Quando aprendi o que era o aquecimento global, o meu professor assustava-nos a dizer que os níveis do mar iriam subir, que na Expo ia ficar tudo cheio de mar, e eu comecei a ficar com medo”, recorda. “E com medo nós ganhamos coragem.”

A coragem de Eliana manifesta-se na tentativa de mudar os hábitos: “Agora sou vegetariana, deixei de usar plástico e reciclo aquele que uso.” “Quero defender o nosso planeta, a nossa casa, não sei se vamos conseguir atingir todos os objectivos. Mas se tocarmos no coração de algum político já é bom”, crê. Por enquanto, sente que está a fazer parte “de um momento histórico” e que se descobriu enquanto activista. “Apercebi-me do meu poder e quero participar em tudo. Não vou parar.”

Pela Rua Joaquim António de Aguiar, os jovens erguem palavras de ordem desenhadas em cartazes: “Respeitem a mãe”, “Capitalismo não é verde”, “Marcelo, deixa as selfies e trata do ambiente”. Os cânticos também não falham — há poucos momentos em silêncio — e até a marcha é reinventada: há momentos em que os jovens se sentam no meio da estrada e outros em que começam a correr de mãos dadas.

Os vários cartazes, de letras gordas, quase fazem desaparecer o de Sofia, de 10 anos, que, com desenhos, escreve: “Não há planeta B”. Foi Sofia que pediu ao pai, Sérgio, de 53 anos, para a acompanhar na greve. “Infelizmente, a turma dela não se conseguiu organizar para virem. Decidi eu vir com ela”, diz. Esta é a primeira manifestação climática estudantil do ano que conta com a companhia de pais e avós que criaram o próprio movimento: o Parents for Future, presente em 36 comunidades de 16 nacionalidades de todo o mundo.

“Fico muito emocionado ao ver esta geração levar com a desgraça toda que a minha geração fez”, conta. “Estou com eles”, repete, com pena de não ver mais professores na manifestação. “Hoje devia parar tudo. Fico decepcionado quando há escolas que não estimulam os seus alunos a participar, que não os dispensa das aulas. Esta é uma aula muito melhor do que qualquer outra que os alunos possam assistir na escola hoje”, defende.

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À semelhança da primeira greve climática, a 15 de Março, aqui exige-se a proibição de exploração de combustíveis fosseis em Portugal, a redução da meta para a neutralidade carbónica para 2030 (e não 2050, como previsto pelo Governo), a expansão significativa das energias renováveis (em especial a solar), o que passa por uma produção eléctrica 100% assegurada por energias renováveis até 2030 e pelo encerramento das duas centrais eléctricas ainda movidas a carvão — a de Sines e a do Pego. O melhoramento eficiente e drástico do sistema de transportes públicos, de maneira a que possam substituir o uso do transporte particular, é outro dos objectivos.

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Parecem temas pesados, mas a defendê-los está também a turma de 3.º ano do primeiro ciclo da Escola Voz do Operário. Nas ruas do Rato, dezenas de crianças de 8 e 9 anos marcham com cartazes feitos de materiais recicláveis. “Foi tudo feito por eles”, diz uma das cinco mães que se juntaram à manifestação, a par da professora. “Tudo começou com um pai que foi com o filho à manifestação e a criança levou o debate para a escola. Começou a debater-se o tema da pegada biológica, a forma como viver e como ver o mundo. Depois decidimos que, na próxima greve, íamos todos. E hoje cá estamos”, conta Célia. As aulas, reforça, são “absolutamente secundárias hoje”. “Nós estamos a falar do futuro delas. E este dia faz com que elas pensem nisso”, acrescenta.

A caminho da Assembleia da República, são muitos os que espreitam à janela. “Tantos miúdos”, ouve-se um grupo a comentar no café. “A nossa luta, o nosso futuro”, gritavam os estudantes. Quando os curiosos se aproximam, na berma do passeio, para ver passar as centenas de manifestantes, os cânticos mudam. “Sai do passeio e vem para o nosso meio!”

Quando finalmente se ocupa a escadaria da Assembleia da República, os jovens deitam-se no chão, à semelhança do que fez o movimento Extinction Rebellion — que organiza protestos as pessoas se deitam nos transportes públicos, em museus ou centros comerciais a fim de alertar para as consequências das alterações climáticas.

Marta Ramos tem 22 anos e estuda Ciência Politica e Relações Internacionais. Para a jovem, a manifestação “tem grande importância”, mas é preciso “pensar nesta luta como um assunto eleitoral”. “Temos de perceber que todas estas causas têm possível resolução a nível europeu. Enquanto os partidos não nos virem como eleitores ou futuros eleitores, não se vão preocupar”, defende Marta, que representa, na marcha, a “If you give a sh*t”. Esta campanha é financiada pela União Europeia a fim de sensibilizar para a importância das eleições europeias. “Os jovens têm causas, aqui está uma delas. Nós juntámo-nos à manifestação, não só porque a questão é importante para nós, mas para mostrarmos aos jovens que temos de votar também por este tema.”