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O “efeito Greta” já se sente: são estas as caras da luta pelo clima

Por todo o mundo, novas caras da luta pelo clima começam a surgir. Inspiradas por Greta Thunberg, seguram as amarras de uma manifestação feita por jovens e liderada no feminino.

Foram mais de um milhão os jovens que faltaram às aulas a 15 de Março, inspirados pela activista sueca de 16 anos. A luta pelo clima está nas ruas e, com ela, novas personalidades — à imagem da líder — começam a surgir. A maioria, femininas. Esta sexta-feira, 24 de Maio, está marcada uma nova greve internacional em mais de cem países. E Greta já avisou: “É o princípio do princípio.

Anuna de Wever

É a voz da Bélgica. Juntamente com a amiga Kyra Gantois, Anuna de Wever deu início ao movimento belga a partir de um vídeo onde chamava jovens para a rua. Na primeira greve, em Março, conseguiram convencer três mil jovens — agora, são cerca de 30 mil os que todas as quintas-feiras faltam às aulas em todo o país. “Nunca esperamos que o Youth for Climate fosse crescer tanto”, disse a Anuna à televisão HLN. “A política do nosso país nesta área é uma piada. Por isso saímos à rua.”

Anuna já lançou um livro, em Março, em conjunto com Kyra. Chamaram-lhe We Are The Climate. A Letter To All porque o livro é uma carta “para a nossa geração, a geração dos nossos pais e políticos”, explicou à Euronews. O que a guia é o “medo em relação ao futuro”. Por isso, falta às aulas sem medo das represálias.

Entre discursos e manifestações, Anuna já se reuniu com políticos, incluindo Emmanuel Macron, presidente francês, numa reunião onde também esteve Greta Thunberg e Luisa Neubauer, em Fevereiro. Mas os políticos não a convencem: “Agem como crianças, não vêem que a emergência é agora”, disse, citada no mesmo texto. E acredita que não importa “tomarmos banhos mais curtos ou comer menos carne” se os políticos continuarem a “investir na indústria”.

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Anuna de Wever, activista belga Francois Lenoir/Reuters

Luisa Neubauer

Líder da greve climática alemã, Luisa Neubauer disse, numa das manifestações, que “o que a comunidade mundial está a fazer com que o planeta seja um dia descrito como o maior falhanço político dos nossos tempos”. Comprometida com a causa, a jovem de 23 anos dedicou a sua tese de licenciatura às “Estratégias para Investimentos Financeiros Sustentáveis”, onde refere que “o poder da indústria fóssil é incrível”, sendo “um dos lobbies mais fortes do mundo”.

Foi na Cimeira pelo Clima das Nações Unidas, onde Greta Thunberg se dirigiu pela primeira vez aos líderes mundiais, que as duas activistas se conheceram. Desde então, o compromisso com a causa não cessou. Num encontro entre accionistas da RWE, a eléctrica alemã que gere a maioria das centrais do país, Luisa discursou e acusou a empresa de ser a “maior responsável da Europa” pelas alterações climáticas. “Quem planeia transformar petróleo em electricidade depois de 2030, não entendeu a crise que estamos a passar”, atirou, citada num texto da rádio alemã Deutsche Welle. No Twitter, acusou os responsáveis da empresa de não terem mencionado as palavras “alterações climáticas uma única vez” nos discursos feitos no evento. Ao jornal alemão Der Tagesspiegel, a activista disse que não escolheu “ser uma figura pública e que não quer ser “a Greta alemã”.

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Luisa Neubauer Fabrizio Bensch/Reuters

Haven Coleman

Haven Coleman viu “Greta Thunberg e os miúdos na Europa e Austrália a faltar às aulas” e quis seguir-lhes as pisadas. Tem apenas 13 anos, mas é uma das líderes do movimento US Youth Climate Strike em Denver, Colorado. Falta às aulas todas as sextas-feiras para se sentar nas escadas do edifício do Capitólio. Acredita que toda a sua geração e as vidas de “milhões à volta do mundo” estão em causa, perante a crise climática, explicou ao blogue da organização The Climate Reality Project.

“A única coisa que nós, miúdos, temos de poderoso são as nossas vozes”, refere. Por isso, acredita que têm de ser usadas para convencer “os políticos e adultos que têm poder” para fazer as mudanças necessárias. “Só quero que eles lutem contra as alterações climáticas e parem os seus efeitos, para que eu possa voltar a ser uma criança.”

No caso de Haven, as faltas às aulas e os trabalhos em atraso têm sido perdoados: “Eles [professores] entendem a importância do que estou a fazer”, refere. E, mesmo nas ruas, as reacções têm sido positivas, com pessoas a fazerem-lhe perguntas sobre as alterações climáticas.

A activista americana acredita que esta é uma causa onde todos cabem: “Os estudantes podem-se envolver através de greves organizadas ou fazendo greve à porta de edifícios do governo. Os pais podem ajudar os seus filhos, apoiar nas greves ou justificar as faltas. Os adultos podem ajudar através de publicações nas redes sociais ou indo a uma greve perto deles.”

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Haven Coleman DR

Lily Platt

Em 2030, quando a crise climática atingir um ponto de não retorno, Lily Platt vai ter 22 anos. Por isso, acompanhada pela mãe, a jovem holandesa de 11 anos falta às aulas durante uma hora, todas as sextas-feiras — com permissão da escola. Em frente à Câmara Municipal de Utrecht, Lily protesta com cartazes, à imagem da figura que a inspirou.

“Eu estou na geração que tem de sofrer para ultrapassar isto”, disse à BBC. Para ajudar, a jovem junta-se a organizações ambientais: é embaixadora da Plastic Pollution Coalition, da How Global e, desde 2015, tem a sua própria campanha para apanhar lixo — Lily’s Plastic Pick Up. Desde os oito anos, a activista tenta “informar pessoas sobre o plástico descartável e como as pessoas podem deixar de usá-lo”.

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Lily Platt tem onze anos DR

Leah Namugerwa

Tem 14 anos e vive num país que corre risco de desertificação: a seca e temperaturas elevadas, provocadas pelas alterações climáticas, estão a transformar as terras férteis do Uganda em solos áridos. Leah Namugerwa já tinha consciência deste panorama desde os 12 anos, mas, quando Greta Thunberg começou o movimento #FridaysForFuture, a jovem seguiu-lhe as pisadas e deixou de ir às aulas à sexta-feira, para fazer “uma mudança positiva no país e pressionar o Governo a fazer alguma coisa”, explicou à BBC.

Luta por todos, mas especialmente pelas mulheres. De acordo com um relatório da Organização Mundial de Saúde de 2015, as mulheres são mais vulneráveis ao impacto de eventos climáticos extremos, por razões biológicas e sociais. Talvez por isso sejam mais mulheres a liderar o movimento: “Não temos ninguém a lutar por nós, por isso temos de o fazer nós mesmas.”

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Leah Namugerwa, activista do Uganda, tem 14 anos DR