Jean-Claude Juncker não esconde o seu desdém pelos nacionalistas “estúpidos”

Os casos e as crises sucederam-se a um ritmo avassalador durante a presidência deste luxemburguês pragmático e de humor cáustico.

Jean-Claude Juncker
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Jean-Claude Juncker STEPHANIE LECOCQ/EPA

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, tem um sentido de humor fino e desconcertante. E usa-o, de forma sábia, de cada vez que quer fazer passar uma mensagem que de outra forma poderia ser entendida como dura, até mesmo cáustica. O luxemburguês de 64 anos é uma pessoa pragmática que não perde tempo com rodeios. “Ele é brutal”, avaliou o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que desistiu da sua guerra comercial contra a Europa depois do primeiro embate com Juncker.

Na sua longa carreira política — Jean-Claude Juncker é um dos líderes mundiais com maior número de mandatos obtidos em eleições livres e democráticas — só não exerceu cargos no poder local: no Luxemburgo, foi secretário parlamentar, deputado, ministro (de várias pastas) e primeiro-ministro durante quase 20 anos. Na Europa, liderou o Conselho dos Assuntos Económicos e Financeiros que desenhou o euro no Tratado de Maastricht, e cumpriu três mandatos como presidente do Eurogrupo.

Quando chegou à presidência da Comissão Europeia, em 2014, avisou que tencionava servir apenas um mandato. Fê-lo sem ceder à tentação de ser reeleito. Como tem repetido nas últimas entrevistas, a reforma no fim deste ano é uma perspectiva que encara com grande satisfação — não custa a acreditar, tendo em conta o tumulto e turbulência na Europa durante os cinco anos em que chefiou o executivo comunitário.

Os casos e as crises sucederam-se a um ritmo avassalador: do escândalo do LuxLeaks, que pôs em causa a sua própria política enquanto ministro das Finanças e primeiro-ministro do Luxemburgo, à guerra na Ucrânia; da crise migratória que acendeu o rastilho dos nacionalismos aos atentados terroristas em Paris, Bruxelas e Estrasburgo; do “Brexit” à ascensão da extrema-direita no espaço político europeu — duas “tragédias” que nunca deixou de criticar e lamentar.

Juncker, que foi o primeiro Spizenkandidat (cabeça de lista de um grupo parlamentar) a ser nomeado para a Comissão Europeia (o democrata-cristão foi eleito cabeça de lista do Partido Popular Europeu, e prevaleceu sob o seu rival socialista Martin Schulz) montou um executivo que descreveu como” ecuménico” e prometeu uma acção “vincadamente política”. Organizou a sua comissão em cinco clusters e atribuiu a responsabilidade por cada um a cinco-vice-presidentes: união económica e monetária; mercado único digital; emprego, crescimento e investimento, união energética e combate às alterações climáticas, e Europa como forte actor global.

No seu primeiro discurso sobre o Estado da União, em 2015, Juncker identificou como prioridades para a acção da Europa a resposta humanitária para a crise migratória que emergia; o fortalecimento do euro e da governação económica da União, para sarar definitivamente as feridas da recessão e crise financeira e a afirmação da Europa como actor principal num mundo global, promotora da estabilidade e do equilíbrio entre blocos em tensão latente.

No seu último exercício, em Setembro de 2018, deixou um forte alerta do potencial corrosivo das forças que pretendem acabar com a Europa em nome de um novo nacionalismo, que descreveu como “venenoso e enganador”. Esta semana, numa entrevista à CNN, foi ainda mais directo. “Estes populistas e estes nacionalistas são estúpidos”.