O regresso de Maria João Pires será um dos acontecimentos da próxima temporada da Gulbenkian

A pianista portuguesa dará em Lisboa três recitais incluídos num ciclo em que se cruzam as tradições musicais do Oriente e do Ocidente. Os 250 anos do nascimento de Beethoven e os 50 de Michel Corboz à frente do Coro Gulbenkian são outros destaques neste 2018/2019 em que a fundação receberá também duas óperas vindas do importante Festival de Aix-en-Provence.

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A pianista Maria João Pires retomou recentemente os concertos no seu Centro de Artes de Belgais NELSON GARRIDO

Haverá muito por onde escolher, mas depois de longa ausência é inegável que se trata de um acontecimento o regresso de Maria João Pires a Lisboa para uma residência incluída na próxima temporada de música da Gulbenkian. A pianista portuguesa, a quem o Governo acaba de atribuir a Medalha de Mérito Cultural, e cujas apresentações em solo nacional só recentemente foram retomadas, mas apenas no reservado contexto do seu Centro de Artes de Belgais, protagonizará um ciclo de três recitais que revelarão as suas diferentes facetas. 

A primeira actuação de Maria João Pires na Gulbenkian está agendada para 23 de Setembro, integrando as comemorações dos 150 anos do nascimento do fundador Calouste Sarkis Gulbenkian, tema que atravessa a temporada. O programa desse concerto inclui canções arménias, interpretadas pela soprano Talar Dekrmanjian, e o Impromptus D. 935 de Schubert. A 11 de Novembro haverá novo recital, então a quatro mãos, com a pianista arménia Lilit Grigoryan, num programa dedicado a Mozart, ou não fosse a portuguesa considerada uma das mais luminosas intérpretes do nosso tempo do compositor austríaco. A residência da pianista chegará ao fim a 21 de Março, altura em que tocará, a solo, obras de Debussy e Beethoven.

Além dos 150 anos de Calouste Gulbenkian estarão ainda em evidência na temporada de música 2019/2020 outras efemérides, como os 250 anos do nascimento de Beethoven e os 50 anos que Michel Corboz agora cumpre na direcção do Coro Gulbenkian. Mas também o maestro titular da Orquestra Gulbenkian, o suíço Lorenzo Viotti, que terá nesta a sua segunda temporada à frente da formação, será protagonista, ao assumir a direcção de nove programas, num total de 18 concertos.

Ao longo da temporada, e dando seguimento a uma série de concertos iniciada já na programação 2018/2019, o nascimento de Gulbenkian será comemorado de diversas formas, e em especial num ciclo inspirado no diálogo Oriente-Ocidente que reinterpreta e actualiza a mundividência multicultural do fundador. O Gurdjieff Ensemble, oriundo da Arménia, apresentar-se-á, a 21 de Setembro, para interpretar, com o trio Hewar da Síria e a pianista arménia Lusine Grigoryan, peças baseadas em canções e danças do folclore daquele país. Em estreia portuguesa serão apresentadas três obras do jovem compositor francês de origem libanesa Benjamin Attahir, que com Maria João Pires e o pianista Behzod Abduraimov compõe o trio de músicos em residência nesta temporada. Outro mestre em criar pontes entre diversas geografias e temporalidades, o espanhol Jordi Savall conduzirá a 21 de Outubro o público pela Rota do Oriente, com a sua emblemática formação La Capella Reial de Catalunya – Hespèrion XXI e músicos convidados do Japão, da Índia e do Afeganistão. A narração ficará a cargo do actor João Grosso.

O suíço Michel Corboz, que recorda em 2019 o seu primeiro concerto como maestro titular do Coro Gulbenkian, há 50 anos, dirigirá os grandes concertos de Natal e da Páscoa, cujos programas serão na totalidade devotados a Bach – respectivamente, a Oratória de Natal (13, 14, 15 e 16 Dezembro) e a Paixão segundo São João (8 e 9 Abril). O mesmo maestro dirigirá a Pequena Missa Solene de Rossini (11 de Outubro), na Igreja de São Roque, local que receberá também o tradicional concerto do Coro Gulbenkian no último dia de 2019, dirigido pelo maestro-adjunto Jorge Matta, com um programa de cantos marianos – Magnificats.

O maestro titular da Orquestra, Lorenzo Viotti, dirigirá obras do reportório sinfónico e coral-sinfónico, como a 3ª sinfonia de Mahler (17 e 18 Outubro), a 7ª sinfonia de Dvorák (21 e 22 Novembro), a 6ª sinfonia de Beethoven (20 e 21 Fevereiro) ou a A Noite Transfigurada de Schoenberg, num programa em que o barítono Matthias Goerne se lançará, juntamente com a soprano Maria Bengtsson, à Sinfonia Lírica de Zemlinsky (26 e 27 Março). Já a efeméride dos 250 anos do nascimento de Beethoven constituirá pretexto para a apresentação da integral dos seus quartetos de cordas ao longo do fim-de-semana de 25 e 26 de Janeiro. O acontecimento juntará o Mettis Quartet, o Castalian String Quartet, o Schumann String Quartet, o Quatuor Van Kuijk o Novus String Quartet e o Meccore String Quartet. Vários pianistas interpretarão a integral das sonatas para piano e a Orquestra Gulbenkian apresentará ao longo de 2020 as sinfonias do compositor.

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O maestro titular da Orquestra Gulbenkian, Lorenzo Viotti MÁRCIA LESSA

Óperas e bandas-sonoras

De regresso à Gulbenkian, 14 anos depois, estarão igualmente o conhecido pianista e maestro russo Mikhail Pletnev, para um recital a 9 de Fevereiro em que interpretará as duas últimas sonatas para piano de Beethoven e de Mozart, e o violinista americano Gil Shaham que, a 19 e 20 Março, executará o Concerto para Violino de Mendelssohn com a Orquestra Gulbenkian.

No campo da ópera realce para Evgeni Onegin, de Tchaikovsky (6 e 8 de Março), com direcção musical a cargo de Lorenzo Viotti, e para as duas produções que chegarão do importante Festival de Aix-en-Provence: a ópera seiscentista Erismena, de Francesco Cavalli, numa produção da Cappella Mediterranea dirigida por Leonardo Garcia Alárcon e encenada por Jean Bellorini cujo elenco será liderado pela soprano Judith Fa; e The Sleeping Thousand, de Adam Maor, dirigida por Elena Schwarz, a maestrina assistente de Gustavo Dudamel na Orquestra Filarmónica de Los Angeles.

Uma das novidades da temporada serão as conversas sobre música e ciência integradas no ciclo de Concertos de Domingo, que tem início a 17 de Novembro com uma sessão em que Pedro Neves dirigirá uma interpretação da música que Michel Legrand (1932-2019) compôs para o filme Os Chapéus-de-Chuva de Cherburgo, de Jacques Demy. Um outro filme, O Império Contra-Ataca, verá a sua banda-sonora – de John Williams – ser tocada ao vivo no grande auditório (9, 10 e 11 de Janeiro) pela Orquestra Gulbenkian dirigida pelo brasileiro Thiago Tiberio; o programa de filmes-concerto abordará depois outras obras, como o clássico Serenata à Chuva, de Stanley Donen (1924-2019).

Para manter é a participação da Orquestra Gulbenkian no Festival Lisboa na Rua, de entrada gratuita, que voltará a levar árias de ópera ao parque do Vale do Silêncio, nos Olivais, a 14 de Setembro, programa que nos últimos anos se tem revelado um verdadeiro acontecimento, com grande sucesso de público.

Artigo corrigido às 14h43 do dia 27/05, rectificando o programa dos concertos de Matthias Goerne e de Natal, assim como o título da ópera Evgueni Onegin.