Opinião

Onde pára o ativismo estudantil? (II)

Há sinais que nos fazem acreditar em futuros ciclos de ativismo cívico e há grupos onde ele nunca esmoreceu.

O caso individual que relatei no artigo anterior, embora um caso isolado, deve ajudar-nos a refletir sobre os caminhos da universidade pública e ao mesmo tempo sobre o excesso de consciência crítica de uns e o visível alheamento da maioria dos estudantes. Quem aponta as saídas a um sistema em crise? A maioria que vai no rebanho ou os gritos de alerta, mesmo que isolados? Porém, como referi antes, o corpo estudantil está longe de ser homogéneo. Aquele exemplo não corresponde à imagem da formiga no carreiro que segue em sentido diferente, como cantou o Zeca. Há sinais que nos fazem acreditar em futuros ciclos de ativismo cívico e há grupos onde ele nunca esmoreceu.

As casas comunitárias dos estudantes (vulgo ‘Repúblicas’) são um exemplo. E não será coincidência o facto de em 69 terem sido o principal alforge da resistência estudantil. Hoje, este segmento continua a promover diversas atividades comunitárias, tertúlias, celebrações dos seus “centenários”, estimulando grupos que confrontam as lideranças da associação académica (AAC), etc.; porém, debate-se com imensas dificuldades (desde logo relacionadas com o aumento das rendas e a falta de apoios) e vive segregado pela massa estudantil. Sendo embora parte integrante do património da Universidade reconhecido pela UNESCO, os “repúblicos” recusam participar nas atividades associativas e festas académicas oficiais. Talvez a falta de liderança e a ineficácia do Conselho de Repúblicas contribuam para esse isolamento, mas o seu valor patrimonial, o potencial de cultura crítica e de ativismo que emana destas casas justificariam que a AAC e a própria Universidade as valorizassem mais, fazendo jus ao seu passado histórico.

Há depois uma outra camada de estudantes, também de pequena dimensão, que continua a alimentar as atividades culturais ligadas aos organismos autónomos da AAC, tais como a música, o teatro, o cinema, o jornalismo, a rádio ou o desporto, que são atividades fundamentais na formação complementar aos cursos universitários. Esta categoria, em geral vinculada a cursos com maior componente humanística e social, protagoniza um ativismo cultural muito relevante. Apesar de minoritária, não deixa de ser dar corpo a uma dimensão formativa (e performativa) onde a sensibilidade cultural e artística são referências decisivas que contribuem para abrir o leque de interesses dos jovens e os desperta para o envolvimento com o grupo, estimulando-lhes a curiosidade e o sentido de cidadania, etc.. Este é talvez o segmento que pode revigorar os resquícios de um legado de sucessivas gerações que instigou a insubmissão e marcou o imaginário coletivo de Coimbra e que ainda hoje preserva um lastro significativo na cidade. Mas é um campo que, lamentavelmente, passa ao lado das preocupações da esmagadora maioria dos jovens universitários da atualidade.

Um outro universo de “ativistas” corresponde aos grupos que circulam pelos núcleos de curso, que depressa se ligam ao campo associativo, que desenvolvem os seus laços afetivos e amizades nesses ambientes e que cedo aceitam subscrever listas e candidaturas. Esse processo de socialização começa logo no primeiro ano, e em geral ligado às praxes. Nas listas para a coordenação dos núcleos ou mesmo para a Direção-Geral da AAC, é visível um impressionante apego aos “cargos” e aos pelouros, os quais funcionam como os principais aliciantes para este tipo de “ativismo”. O “estatuto”, a “imagem” e a proximidade com “alguém” mais velho e experiente (líder ou “cacique”, como se queira) justificam a aceitação de integrar a lista X ou Y. Propostas programáticas ou qualquer esboço de visão estratégica (política) são dispensáveis. Por isso mesmo, as diversas propostas – incluindo para representantes nos órgãos institucionais da universidade – apresentam em geral reivindicações muito semelhantes.

Daí a pergunta: “porque não integram a mesma lista se os programas são praticamente iguais?” Este é um tipo de “ativismo” que, regra geral, abre caminho à aproximação aos partidos e suas estruturas de juventude, as chamadas “jotas”. O curioso é que, apesar de se tratar de uma zona aparentemente mais próxima do campo político, não é fácil vislumbrar ali opções, referências ideológicas, valores humanos e sociais, etc., que permitam clarificar que horizontes e que modelo de sociedade ou de universidade estes jovens se propõem edificar. Os contornos desta categoria são algo difusos mas nota-se uma proximidade e cumplicidade que evolui dos ambientes da praxe (a montante) até aos aparelhos partidários (a jusante). Daí até à assunção de cargos institucionais, partidários ou empresariais vai um pequeno passo (para os que têm sucesso, claro). O resultado é o que está à vista: uma cultura política indistinta, politicamente vazia, despojada de referências e onde a retórica tecno-populista cresce a olhos vistos.

Um outro domínio onde as energias e o “ativismo” (sempre com aspas) estudantil se tem revigorado é o campo do empreendedorismo. Nota-se uma tendência crescente para a organização de encontros, conferências, eventos dos mais diversos, quase sempre orientados para o mundo empresarial. As redes AIESEC ou Alumni (que liga os atuais e os antigos estudantes da UC) são exemplos de sucesso, com grande adesão, num ambiente académico onde a competição e o marketing são cada vez mais exacerbados. Um convénio entre a AAC e a UC criou a Académica StartUC, visando desenvolver uma rede de “embaixadores”, que envolve representantes de todos os núcleos de curso, orientados para a inovação e o empreendedorismo. Nos últimos anos, as iniciativas deste teor têm-se sucedido e já trouxeram a Coimbra destacadas figuras públicas (exemplos de “sucesso”). Na última edição do ciclo chamado “Bright Future” participaram figuras tão diversificadas como Francisco Pinto Balsemão, Pedro Santana Lopes, Arménio Carlos, Maniche ou Cristina Ferreira. José Sócrates e Pedro Passos Coelho foram outros convidados em iniciativas recentes. Independentemente do êxito e da importância desses eventos, o que eles de facto revelam é o que estes “ativistas” mais valorizam: o protagonismo e a busca de um bom emprego. E fazem-no apostando essencialmente no marketing e no networking pessoais. É a combinação perfeita entre o discurso ideológico dominante – “sê empreendedor, cria o teu próprio emprego!” – e o individualismo generalizado. O vasto público juvenil que alimenta estas iniciativas, ou larga parte dele, pode ter de emigrar ou continuar desempregado ou a ser “precário” durante anos, mas em geral os dinamizadores e dirigentes (ou “caciques”, consoante os casos) resolvem depressa o seu problema pessoal...

Por fim, uma última categoria é em parte sobreponível com as restantes. Refiro-me à esfera do consumo, talvez aquela onde é maior o volume de “ativistas”, inclusive a larga parte que não cabe em nenhuma das situações anteriores. Trata-se daqueles cerca de 70% de estudantes que não votam nem são filiados em nada (exceto na AAC, cuja inscrição é automática), aqueles 80% que não sabem sequer que órgãos governam a universidade, que não perdem um segundo a refletir sobre o significado das suas ocupações festivas e sua relação com a história da academia, em suma um amplo setor igualmente ativo no contexto universitário. Eles estão muito ativos nos circuitos da economia local, na organização e montagem dos carros alegóricos do seu curso, na programação dos oito dias ocupados com a Queima das Fitas, na preparação de jantares, na presença diária nas noites do Choupalinho (concertos, durante a Queima), são ativos no fortalecimento dos laços entre padrinhos/madrinhas e afilhados/as, na preparação da vestimenta do baile de gala, etc., etc. E nas noites das terças e quintas-feiras são ativos ao longo de todo o ano letivo.

Numa recente sondagem, apenas 3% dos jovens afirmaram estar certos de ir votar nas próximas eleições. Espero ter deixado aqui algumas pistas explicativas para isso.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico