Dylan Martinez/Reuters
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Megafone

E se votar fosse um jogo?

Quanto mais tarde implementarmos medidas inovadoras que contribuam para a sustentabilidade da nossa democracia, pior. Um dia poderá não haver democracia para salvar. Ainda temos vidas políticas disponíveis, cheias de poderes por explorar. Vamos conseguir evitar o game over da democracia?

Existem muitas analogias entre jogos e política. Diz-se, recorrentemente, que estamos a assistir a jogadas políticas, que os políticos se movimentam no xadrez político — e por aí fora. No fundo são metáforas utilizadas porque os jogos, mesmo que não o admitamos, são poderosas criações humanas que transmitem mensagens igualmente fortes e carregadas de significados. As pessoas, no geral, gostam de jogar, especialmente porque é divertido. Já a política de divertido parece ter cada vez menos, especialmente para os eleitores.

A abstenção tem vindo a subir e, no caso das eleições europeias, os níveis de desinteresse são esmagadores. Mais de metade da população não tem votado e o valor deverá continuar a crescer, especialmente porque na campanha eleitoral pouco se fez para mudar isso. Já nos restantes actos eleitorais, e noutras formas de participação cívica convencionais, o quadro não parece ser mais animador.

E se mudássemos o panorama e aprendêssemos com os jogos a trazer mais participação para os actos eleitorais e a própria vida política? O exercício da política tem tudo que ver com escolhas. É suposto estarmos constantemente a escolher. Nos jogos mais interessantes estamos, também, perante escolhas de acções que devemos fazer, utilizando-se técnicas de envolvimento para cativar os utilizadores a prosseguir com o processo.

Poderíamos partir da gamificação, que consiste em utilizar técnicas de design de jogos para outros processos de não jogo, para tornar mais interessante a participação política? Poderíamos usar os serious games — jogos desenvolvidos para determinados objectivos sérios, mas onde se mantém a diversão da actividade de jogar — para formar cidadãos mais conscientes e activos politicamente? Podemos, com certeza, usar ambas as abordagens, mas com cuidado.

São várias as áreas de actividade que utilizam estas técnicas baseadas em jogos, já para não falar na conhecida aprendizagem através dos jogos que professores, educadores e técnicos tanto usam em aulas e formações. Mas convém saber as implicações dessas opções, para que não se perca o foco nos objectivos nem sejam meros exercícios de manipulação dos utilizadores. Os jogos não são ferramentas milagrosas para todos os problemas, mas podem ajudar.

A verdade é que a política tem sido marcada por escândalos e mediatismos, perdendo a suposta aura de nobreza cívica que gostávamos que tivesse. Por outro lado, as actividades políticas são também, habitualmente, morosas, aborrecidas e muitas vezes inconsequentes para o comum dos cidadãos.

Imaginem entrar então num jogo que nos incentive a uma maior participação política através da gamificação. Ou então jogar jogos, dos mais variados tipos, que nos façam conhecer mais sobre a nossa democracia, direitos e deveres. Quem diz isso diz sobre todos os temas, porque tudo pode ter uma leitura política e uma adaptação a jogo. As possibilidades são imensas, tipo e modos de jogos não faltam, tal como os conhecimentos para os adaptar a fins sérios que mantenham o factor diversão e envolvimento.

Quanto mais tarde implementarmos medidas inovadoras que contribuam para a sustentabilidade da nossa democracia, pior. Um dia poderá não haver democracia para salvar. Ainda temos vidas políticas disponíveis, cheias de poderes por explorar. Vamos conseguir evitar o game over da democracia?