Nacionalismo e economia dão vitória histórica a Modi na Índia

O partido do primeiro-ministro indiano venceu as eleições legislativas em toda a linha, destroçando o histórico Congresso pelo caminho. A chave foi uma combinação entre políticas de desenvolvimento e uma retórica nacionalista.

Apoiantes do BJP celebram vitória nas eleições legislativas
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Apoiantes do BJP celebram vitória nas eleições legislativas EPA

Se há cinco anos a vitória do partido Bharatiya Janata (BJP) com maioria absoluta podia ser descrita como uma “onda cor de açafrão” (a cor do partido), os resultados das eleições legislativas revelados esta quinta-feira são um autêntico tsunami que varreu o tabuleiro político da maior democracia do planeta. No centro dessa explosão está Narendra Modi, reconduzido como primeiro-ministro e que confirmou o estatuto de líder mais influente da Índia nas últimas décadas.

As sondagens dos últimos dias – depois de umas eleições distribuídas em sete fases e que duraram mais de um mês, envolvendo 900 milhões de eleitores – indicavam como provável uma nova vitória do BJP, mas os analistas mais avisados mostravam cepticismo. O historial de sondagens num país com a dimensão e a diversidade da Índia é altamente duvidoso. Desta vez, apenas falharam em antecipar a magnitude da vitória de Modi.

Tal como em 2014, o BJP não só garantiu facilmente lugares suficientes na câmara baixa (Lok Sabha) para alcançar uma maioria absoluta sem necessitar de alianças, como reforçou essa maioria, superando os 300 deputados eleitos, num total de 542. Para além disso, o partido conseguiu vencer em estados onde tradicionalmente não tinha sucesso, como em Bengala, onde passou de dois deputados eleitos em 2014 para quase 20. Desde 1984 que nenhum partido conseguia duas maiorias absolutas consecutivas.

A vitória retumbante do BJP pode ter aberto um novo período de hegemonia política na Índia, depois do domínio de décadas do Congresso Nacional Indiano. “Estamos numa era em que temos, uma vez mais, uma força gravitacional central à volta da qual a política indiana gira”, disse ao Guardian o director do programa do Sul da Ásia do Centro Carnegie, Milan Vaishnav.

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No discurso de vitória, Modi fez apelos à unidade e tentou sarar as feridas abertas por uma campanha dura. “Temos de olhar em frente, temos de levar todos para a frente, incluindo os nossos adversários mais firmes”, declarou perante milhares de apoiantes em êxtase. Aquele que é hoje o homem mais poderoso da Índia, mas que começou como um simples vendedor de chá, prometeu também combater a pobreza e as desigualdades, dizendo haver apenas duas castas no país: “Os pobres e aqueles que querem tirá-los da pobreza, precisamos de fortalecer ambos.”

Dinastia Gandhi derrotada

O histórico partido do Congresso voltou a não ser um adversário à altura para o magnetismo exercido por Modi. O partido dirigido por Rahul Gandhi até melhorou um pouco o resultado obtido em relação a 2014 (elegeu mais de 50 deputados, face aos 43 de há cinco anos), mas viu frustradas as suas tentativas de capitalizar com o desgaste do Governo em funções.

A incapacidade do Congresso em superar a má imagem junto de grande parte do eleitorado, que continua a olhar para o partido como uma organização elitista, corrupta e obsoleta, ficou simbolizada na humilhação particular sofrida por Rahul Gandhi. O representante da dinastia Nehru-Gandhi, bisneto do primeiro líder indiano pós-independência, Jawaharlal Nehru, perdeu o lugar de deputado no círculo de Amethi, no Uttar Pradesh, que era ocupado por um membro da sua família de forma contínua há quatro décadas.

“Uma das grandes histórias é o desafio emergente ao Congresso de continuar a ser uma alternativa nacional ao BJP, isso é algo questionável neste momento”, disse à Reuters o analista do Centro de Investigação de Políticas de Nova Deli, Rahul Verma.

Modi acima de todos

A figura carismática de Modi é uma parte inegável do sucesso do BJP, que parece impermeável até a uma performance económica pouco robusta. Pelo menos um terço dos eleitores do BJP disseram que votariam noutro partido caso Modi não fosse o candidato a primeiro-ministro, segundo uma sondagem do Centro para o Estudo de Sociedades em Desenvolvimento, citado pela BBC.

No site de notícias First Post, o colunista Dinesh Unnikrishnan concluía que “o factor Modi ofuscou as histórias de aflição económica”. Durante o primeiro mandato, o desemprego atingiu valores recorde, a retirada de circulação das notas de maior valor originou o caos, e a queda dos preços dos produtos agrícolas aumentou o empobrecimento nas comunidades rurais. Por outro lado, algumas medidas direccionadas para os mais pobres, como a introdução de um esquema de seguros de saúde que abrange 500 milhões de famílias, ajudam a contrabalançar a avaliação.

Para muitos analistas, parte da chave da vitória de Modi está na sua defesa do nacionalismo hindu, a ideologia que advoga a supremacia da religião maioritária na Índia, por oposição à visão secularista e multicultural que está na base da Constituição e que é defendida tradicionalmente pelo partido do Congresso. A campanha do BJP apontou o dedo ao Congresso como o partido que ajuda os muçulmanos, em detrimento dos hindus, e revitalizou bandeiras antigas do movimento nacionalista hindu, como a construção de templos em locais onde antes havia mesquitas.

A isto junta-se a percepção de Modi como um líder duro e protector fora de portas. Essa postura veio ao de cima com maior clareza na resposta ao atentado terrorista em Caxemira, em Fevereiro, que matou 40 polícias indianos – Modi deu uma ordem inédita para a Força Aérea bombardear bases, classificadas como terroristas por Nova Deli, no interior do território paquistanês.

Os dois adversários, ambos possuidores de armas nucleares, ficaram muito próximos de um conflito aberto, mas para a posteridade ficou a imagem do piloto indiano cujo caça foi abatido pelo Paquistão a regressar a casa, onde recebeu um banho de multidão. Nas televisões e nas capas dos jornais, a retórica nacionalista atingiu novos níveis e Modi foi o rosto que corporizou a ideia de uma nova assertividade indiana face aos vizinhos.

Só o tempo dirá se o nacionalismo hindu propagandeado por Modi e pelo BJP serviu apenas fins eleitorais ou se, com a legitimidade renovada, tem caminho aberto para se tornar política de Estado. “Para o nacionalismo funcionar como tema, é preciso promover a ideia de que a nação é fundamentalmente insegura, e isso requer alguém forte”, diz ao Financial Times o vice-reitor da Universidade de Ashoka, Pratap Bhanu Mehta. “Essa insegurança poderá vir de inimigos externos, como o Paquistão ou a China, mas o que é muito mais alarmante é a questão dos inimigos internos.”