Marisa Matias lembra que a aproximação de Costa à direita “terá implicações no Parlamento e a nível nacional”

A candidata do Bloco de Esquerda voltou a criticar o primeiro-ministro e a sua aproximação ao Presidente francês, pedindo uma “clara divisão” entre socialistas e liberais. No Montijo, Pedro Marques negou existir qualquer contradição no PS.

Marisa Matias pede clarificação ao PS
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Marisa Matias pede clarificação ao PS LUSA/PAULO CUNHA

No terceiro dia da última semana de campanha, a comitiva bloquista arrancou a manhã onde terminou a noite: no Norte do país, na Feira de Vila Nova de Famalicão, em Braga. “Aquela de cabelos compridos”, legendava uma das comerciantes à passagem de Marisa Matias, fez uma curta visita na qual não faltaram queixas e eleitores descrentes na classe política, mas também alguns elogios. A divisão dos eleitores, representada numa sexagenária que se aproxima para “saber o ela que tem a dizer”, foi direccionada para António Costa e para a sua aproximação à política de Emmanuel Macron. 

Depois de criticar o líder socialista pela sua “ambição de construir uma aliança bizarra com a direita liberal”, Marisa Matias elogiou as declarações do socialista Pedro Nuno Santos, que esta terça-feira apelou a uma divisão clara entre liberais e socialistas.

Na campanha do PS, o ministro das Infra-Estruturas - que assumiu a pasta de Pedro Marques aquando o anúncio da sua candidatura ao Parlamento Europeu -, afirmou que a batalha contra as ameaças à União Europeia é também uma batalha contra “quem quer impor uma resposta liberal, que não diminui o populismo, aumenta a insegurança e o medo que são o alimento do populismo”.

“Não posso falar do que se está a discutir internamente no PS, mas concordo com o que diz Nuno Santos. É preciso uma divisória clara entre liberais e socialistas”, vincou a candidata bloquista, antes de voltar a reprovar o primeiro-ministro. Referindo-se ao encontro desta semana entre o primeiro-ministro português e o Presidente francês Emmanuel Macron, Marisa Matias disse não adivinhar “o que está na cabeça de António Costa” e repetiu que está preocupada com “a aliança bizarra com os liberais de direita, que defendem e defenderam sanções contra Portugal, que defendem politicas de austeridade, que defendem a antítese daquilo que foi a política que foi feita em Portugal” com a “gerigonça”.

“Qualquer que seja a jogada que António Costa está a fazer agora que eu não sei qual é, terá implicações no futuro, não só no Parlamento Europeu, mas também a nível nacional”, afirmou Marisa Matias, pedindo que o primeiro-ministro “clarifique o caminho que quer seguir”.

“Quer seguir o caminho que seguiu em Portugal, à esquerda, procurando acordo naquilo que era preciso ter acordo e melhorando a vida dos portugueses?” ou, por outro lado, quer “juntar-se àqueles que fizeram o caminho oposto”, questionou em Vila Nova de Famalicão.

A resposta de Pedro Marques

No Montijo, terra natal do número um da lista socialista, Pedro Marques respondeu à bloquista, garantindo que “não há nenhuma contradição” entre Pedro Nuno Santos e António Costa. “Já tenho dito que temos de conseguir construir uma coligação de europeístas contra a extrema-direita, contra nacionalismos, contra xenofobia”, vincou.

“Essa coligação pode incluir gente da minha família política, a família conservadora ou a família liberal, desde que não se ultrapasse essa barreira da xenofobia, dos nacionalismos, dos extremismos. Seria uma coligação pelo progresso da Europa pelo avanço do projecto europeu”, esclareceu o candidato socialista esta quarta-feira.

“É natural que os portugueses queiram mais gerigonça”

Marisa Matias mostrou-se pouco surpreendida com os dados da sondagem revelada esta quarta-feira, que coloca o PS como o mais votado pelos portugueses e mostra que os eleitores inquiridos desejam uma solução governativa à esquerda, e acredita que os resultados mostram que “as pessoas perceberam o papel da esquerda”.

“Não me surpreende que as pessoas queiram ver uma esquerda reforçada. Acho que é um entendimento claro do que se passou nos últimos quatro anos em Portugal. O Bloco de Esquerda cumpriu com todas as dimensões do acordo que assinou com o Partido Socialista.”

A dois dias do final da campanha e a quatro dias das eleições, Marisa Matias diz-se confiante, mas teme uma abstenção muito elevada. “Se as pessoas têm estas preocupações que são genuínas, com as questões do trabalho, das reformas, habitação e serviço público e devem levar isso às urnas”.